Opinião

A “tragédia” da nova “Rainha de Matamba”!…

Confesso que não sou apreciador da imprensa cor-de-rosa, pela ilusão e coscuvilhice que alimenta entre os seus apreciadores. Também não sou adepto da imprensa de escândalos e dramas, que poluem o interesse pela informação mais relevante. Detesto a imprensa de fração política e económica, que reduz a verdade informativa ao interesse particular de grupos. Sou muito cauteloso para com a informação veiculada pelas redes sociais, pela quantidade de calúnias e inverdades que difunde.

Isabel dos Santos

Sou, no entanto, um adepto fervoroso da imprensa livre que, apesar dos inevitáveis desvios informativos que engendra, acaba produzindo informação de qualidade, possibilita o contraditório e o apuramento da verdade informativa.

Vem isto a propósito do trabalho desenvolvido durante vários meses por um consórcio internacional de jornalistas de investigação (ICIJ) que, perante mais de 715 mil ficheiros de denúncia, colocaram a nu os negócios de Isabel dos Santos, filha do ex-presidente de Angola, entre 1980 e 2018, provocando um verdadeiro terramoto de reações públicas, sobre os elevados níveis de eventual corrupção que tal denúncia expõe, sobre a forma fraudulenta de como eram executados os referidos negócios e o comportamento dos homens e instituições que colaboravam em toda essa “engenharia financeira”.

Perante as acusações de que é agora alvo, a mulher mais rica de África, proprietária de uma fortuna fabulosa de muitos milhares de milhões, adornada por uma ostentação significativa e adorada até agora por um séquito de personalidades da vida política e económica de Angola e de Portugal, viu-se abandonada no seu carisma e por muitos dos “cabeças de turco” que impunha nos conselhos de administração das muitas empresas onde tinha participações.

Nas denúncias feitas por este consórcio de jornalistas, distinguem-se várias coisas que já toda a gente sabia: que ela só poderia ter o sucesso inicial que obteve, porque era a rica “filha do pai” e pelos inevitáveis favores que recebia por pertencer à elite do poder angolano; que o seu comportamento era imoral, por pertencer ao grupo “libertador” do colonialismo português, face à pobreza extrema da população do seu país e que dispunha da força geradora do dinheiro, para multiplicar a sua influência política e económica nos negócios.

Mas também não escapava à observação e comentários do comum dos cidadãos portugueses, verem frequentemente em Portugal tantas figuras pardas do regime angolano e respetivas famílias, a “passearem-se” pelas luxuosas lojas da Avenida da Liberdade em Lisboa ou a comprarem apartamentos topo de gama na capital, ostentando uma riqueza contraditória para com a pobreza dos seus semelhantes, revelando que algo ia mal no antigo “reino de Ngola”.

Até aqui…tudo bem, ou tudo mal!…A (i) moralidade era sancionada pelo poder!

O impacto deste “Luanda Leaks”, divulgado por alguma imprensa portuguesa, foi de tal ordem que a empresária Isabel dos Santos não tardou a tentar desfazer-se de alguns dos seus investimentos em Portugal, assim como alguns dos seus homens e mulheres de confiança em Portugal e Angola se apressaram a abandonar o navio que naufragava ou a clamar “só sei que nada sei”!

No entanto, mesmo que inteligente e muito esperta, Isabel do Santos não conseguiria realizar sozinha todo o seu vasto império sem a ajuda de um elevado grupo de pessoas e instituições que ajudavam a concretizar os seus negócios e off-shores que “limpavam” os seus dinheiros. CEOs das empresas, responsáveis bancários, consultores financeiros, empresas de auditoria, gabinetes de advogados famosos e tantos outros que a investigação ainda vai dar conta, através das Procuradorias Gerais da República de Angola e de Portugal, (sem excluir os casos que talvez nunca se saberão…), foram os exímios executores de uma rápida e diversificada acumulação de riqueza da senhora “filha do pai”, uma boa parte obtida por “empréstimos/ofertas” que obtinha em instituições onde tinha alguma influência!

Até ao momento Angola considera arguidos além de Isabel dos Santos, por má gestão e desvio de fundos públicos da Sonangol, alguns dos seus mais próximos colaboradores, tais como: Sarju Raikundalia, ex-administrador financeiro da petrolífera Sonangol; Paula Oliveira, amiga da empresária e administradora da NOS; Mário Leite Silva, gestor de Isabel dos Santos e Nuno Ribeiro da Cunha, gestor de conta da empresária no EuroBIC, que se suicidou recentemente em Lisboa, justificando que o fez por vergonha de ter autorizado, através do seu banco, a transferência suspeita de muitos milhões de dólares para uma conta da Isabel dos Santos no estrangeiro.

Há ainda muito a saber e a questionar no comportamento de governos, reguladores das atividades financeiras e instituições judiciais nacionais, sobre o porquê de só agora “acordarem” para o charco de corrupção que todos estes negócios indiciam.

Mas se “acordaram” (??) é bom que reajam depressa porque, com a forma rápida com que a empresária está a vender o seu património, se não declaram imediatamente o arresto dos seus bens, Isabel dos Santos recompõe toda a sua fortuna, gozando os seus dias bronzeada num paraíso fiscal de alguma praia sul-americana ou no seu apartamento de 50 milhões de euros no Mónaco, divertindo-se nos luxuriantes iates da zona ou entre a exibição dos seus diamantes e os da clientela do Casino.

De qualquer forma, está ainda longe de voltar à estaca zero, vivendo como começou, ou seja, a vender ovos na rua!

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