Opinião

A que cheira um professor?

No ano em que me reformei, ia completar 40 anos de serviço docente. Professora foi a única profissão que conheci, e aquela que averbei nos espaços dos formulários que preenchi durante toda a minha carreira profissional. Hoje é ainda o que continuo a ser, no exercício de voluntariado que faço nas universidades seniores do meu país.

Por isso, sei bem o que é passar uma vida inteira rodeada de vozes de crianças, jovens ou adultos, e interagir com eles dentro e fora da sala de aulas. Cedo aprendi a ler, no rosto de cada um, os mais diversos estados de humor com que de mim se aproximavam. Tanto podia ser a alegria estampada no desejo do reencontro, como o cansaço de quem já trazia horas de tarefas cumpridas a ajudar a família, para ganhar o direito de responder presente à chamada. Aprendi ainda que Professor é nome polissémico, tantas são as mais diversas funções em que diariamente se desdobra. Muitas delas galgam a fronteira do tempo da aula, para se transformarem em confidências que exigem o sigilo da confissão, a estabelecer códigos de cumplicidade.

Descobri, muitos anos depois, a influência que tivera em muitos dos deles e a forma como alguns me recordavam. Episódios pontuais e insignificantes (pensara eu) haviam moldado as suas vidas e ditado escolhas profissionais.

Vem tudo isto a propósito de como esta pandemia mudou hábitos de professores e alunos que, afastados da sala de aula, aprenderam a ter aulas dentro de um ecrã que, paradoxalmente, tanto os une como os separa; de como os alunos sentem saudades do toque da campainha que lhes fatiava o tempo, das brincadeiras nos recreios, dos colegas, dos amigos, do convívio presencial, por muito que insistam que, de tanto estarem agarrados ao telemóvel, já não sabiam o que era socializar; de como os professores sentem falta dos alunos, de todos, até dos que mais lhes infernizavam a vida, esticando comportamentos para além do tolerável.

Se Saúde e Educação são os dois pilares em que deve assentar uma sociedade justamente equilibrada, é hoje a vez de aplaudir toda a classe docente que, apanhada de surpresa, sem formação nem aviso prévio, se viu obrigada a adaptar-se a novas metodologias, em que os rostos das suas turmas passaram a viver nos quadradinhos de uma aplicação.

A minha nora é professora e, como tantos outros, antes mesmo da declaração do estado de emergência, também ela sofreu a conversão forçada ao mundo virtual. No fim de cada dia de trabalho, ao despedir-se dos alunos, envia um gestual abraço virtual para todos. Um deles, antes desligar o programa, fez o mesmo gesto, mas acrescentou: “Falta  o cheiro do seu perfume, professora”!

Assim que nascem, o primeiro contacto físico que os bebés têm é, normalmente, com as suas mães. Também a primeira experiência olfativa lhes chega através da pele da progenitora, com quem, por via da amamentação, passam mais tempo. Por isso, mãe e leite são dois odores indissociavelmente ligados ao aconchego de um colo.

Quando vai para a escola, o professor é a figura com quem a criança passa a partilhar a maior parte do dia, e a figura iniciática de todas as novas aprendizagens. Não se estranhe, portanto, a forte ligação que as crianças sentem pelos professores, presentes nos momentos em que um forte abraço resolve muitas das suas inseguranças. Também não se estranhe que a presença do professor esteja associada ao odor dos produtos que usa na sua higiene pessoal.

Sendo os cheiros campainhas da memória, não há linguagem mais poética para traduzir a falta de alguém, do que fazer referência ao seu cheiro. Porque significa presença física, proximidade, contacto, carinho, abraço, ternura consumada.

Se perguntarem a uma criança, ela responderá que é a tudo isto que cheira um professor!

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