A preocupação fundamental!…

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As nossas sociedades modernas, profusamente influenciadas por todo o tipo de estatísticas, artigos de imprensa, debates televisivos e comentaristas, sobre a situação económica em que nos encontramos e das suas perspetivas de futuro, têm feito dos conceitos económicos, expressos por uns e por outros, a preocupação fundamental das nossas vidas. Acordamos ao “som” do défice e deitamo-nos preocupados com o fraco crescimento económico!

Como resultado desta profusão de informação, a economia assume assim a causa e a consequência do sucesso ou insucesso das políticas, tornando-se o elemento determinante do voto popular e das pressões a que está sujeita por interesses privados e pelas regras impostas pelos mercados.

Cidadãos e governos estremecem perante a iminência de fracos resultados económicos e eventual recessão. Para os primeiros, na categoria de trabalhadores por conta de outrem, essa circunstância faz prever a possibilidade de uma subida de impostos, diminuição de salários e do respetivo poder de compra. Para os governos, a sua preocupação fundamental reside nas previsíveis perdas de eleitorado. 

Mas… e os outros, os proprietários do capital e definidores da evolução dos mercados e do sistema financeiro? De facto, e para muitos deles, uma má situação económica dos países não corresponde, necessariamente, a uma perda de ganhos, antes o seu contrário!

A globalização e o seu conjunto de interesses económicos, traz-nos também ao conhecimento público muitas verdades, tantas vezes sonegadas por todos aqueles que fazem da economia a sua doutrina de excelência e o meio indispensável para influenciar a opinião pública.

Vem isto a propósito de um relatório produzido por uma organização não-governamental (Oxfam), intitulado “Bem-estar público ou lucro privado” e que foi apresentado na passada semana, durante o Fórum Económico Mundial de Davos, pequena cidade Suíça onde anualmente se realiza um encontro de líderes mundiais, empresariais e políticos, para definirem a agenda da globalização para os próximos tempos.

O referido relatório dá indicações muito claras de como as contradições entre o “bem-estar público” e o “lucro privado” influenciam negativamente a luta contra a pobreza, prejudica as economias e aumenta a indignação em todo o mundo, suscitando a revolta das populações mais pobres e de todos aqueles cujos valores morais não suportam tamanhas desigualdades sociais.

Diz o relatório, apenas em alguns aspetos que este texto pode suportar:

-Em 2018, a fortuna dos multimilionários cresceu 12%, a um ritmo de 2.200 milhões de euros por dia, enquanto a riqueza da metade mais pobre da população mundial reduziu 11%;

-Os governos aumentam profundamente as desigualdades ao não fornecer aos serviços públicos, como educação e saúde, o financiamento necessário, ao conceder benefícios fiscais às grandes corporações e aos ricos e ao não coibir a evasão fiscal;

-Se 1% dos mais ricos pagasse apenas 0,5% a mais de impostos sobre a sua riqueza, poderia ser angariado mais dinheiro do que o necessário para escolarizar 262 milhões de crianças que agora não têm acesso à educação e fornecer assistência médica para salvar a vida de 3,3 milhões de pessoas;

– Em alguns países, como o Brasil, os 10% mais pobres da população pagam uma percentagem maior de impostos sobre os seus rendimentos do que os 10% mais ricos;

-Com o dinheiro que as empresas deixam de pagar de impostos a cada ano, devido aos benefícios fiscais, seria possível contratar 93.000 médicos na Guatemala e 349.000 no Brasil, construir 120.000 casas na República Dominicana e 70.000 no Paraguai e contratar 94.000 professores na Bolívia ou 41.000 em El Salvador.

O relatório da Oxfam, apresentado em Davos, é uma linha contínua de denúncias das grandes injustiças sociais provocadas pelos decisores políticos, sob influência e imposição dos interesses e influenciadores económicos, para quem o crescimento económico não tem consequência direta numa distribuição socialmente equitativa da riqueza criada, fator decisivo e apenas possível de ser corrigido por decisão política.

A observação do que se passa em praticamente todo o mundo com as migrações, as manifestações e as revoltas, provocadas pela extrema pobreza em que vivem largos extratos da população mundial, muitas vezes sujeitas a manipulações de todo o género onde pautam todo o tipo de populismos, deveria conduzir os dirigentes políticos, nomeadamente aqueles que se arrogam de defender os sistemas democráticos, a tomar consciência de que, a continuidade destes enormes fossos sociais, acabará por nos destruir.

A economia é importante, claro que sim! Mas o primado da política sobre a economia não pode continuar a ser letra morta dos manuais de aprendizagem das nossas comunidades políticas.

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