Opinião

À espera do futuro

Desde que me reformei, sou completamente dona do meu tempo. Assim, faço habitualmente uma caminhada pela manhã de cerca de 10 quilómetros. Como a inicio entre as 7.30 e as 8 h da manhã, é uma hora que coincide com a saída de casa da maior parte das pessoas que tem pela frente mais um dia de trabalho. Embora opte por percursos em que, maioritariamente, não tenha de seguir itinerários principais, a verdade é que as estradas secundárias lhes ficam paralelas. Significa, por isso que, mesmo no meio de um caminho ladeado por árvores, e cujas copas denunciam já a chegada da primavera, é perceptível o barulho dos carros que, apressadamente, tentam deixar os seus condutores à porta do emprego, a tempo de picarem o ponto a horas.

A caminhada, além de constituir o melhor exercício para começo do dia, é também o meu tempo de reflexão. Por mais que me tenham tentado convencer a usar minúsculos auscultadores para ouvir música, ninguém me conseguiu ainda converter a essa prática. Gosto mesmo é de caminhar em silêncio, olhos postos no horizonte dos amanheceres e, em dias ventosos como o de hoje, poder ouvir o rumorejar das árvores como se, conversando entre si, pudessem esbater a distância que a língua de estrada estabelece entre elas.

Dantes, o eco que o asfalto da estrada me devolvia era bem diferente do dos dias mais recentes. Dantes, um vruuuum-vruuum sincopado interrompia o curso da minha meditação, movido pela velocidade dos retardatários que se apressavam para cumprir horários. Agora, faz-me companhia a sombra do silêncio que a meu lado caminha, entrecortado, de onde em onde, pela passagem lenta de um surdo vuuum-vuuum a que falta o “r” a ditar a aceleração da velocidade. São as estradas, elas também a cumprir o isolamento social a que todos estamos obrigados. O meu país é agora um lugar parado, desconhecido, a deixar-me ouvir a voz da natureza que me envolve.

E reflito, reflito muito, sobre o tudo, e sobre o nada de que são feitas as nossas vidas; e de como o tudo por que lutamos se esboroa em nada, de um momento para o outro. E penso no tempo que vivemos, e em como a cartografia das nossas vidas muda de forma tão imprevisível!

Tinha uma agenda com tanta coisa marcada: lançamentos e apresentações de livros, textos para escrever, filmes para ver, teatro a que queria assistir, ioga para praticar, sevilhanas para dançar, um quadro para acabar, aulas para preparar, jantares da tertúlia, almoços de aniversário, de curso, do liceu e do colégio para conviver, enfim, tudo aquilo a que se chama uma agenda cheia.

Ainda há bem pouco tempo, familiares e amigos me aconselhavam a reconsiderar o meu calendário de atividades, de modo a desacelerar um pouco o ritmo em que vivia. Nunca deixei de lhes dar razão, e sempre concordei com eles. Prometia que o iria fazer, mas depois pensava em cada um daqueles projetos, e sentia dificuldade em escolher qual deles eliminar. Todos se revelavam importantes para a saúde física e mental do meu quotidiano.

De repente, não foi preciso escolher, porque algo superior se encarregou de anular todos os compromissos agendados, e adiá-los para um futuro cujo começo me parece distante. Para o perceber, tenho de voltar ao passado e ir de encontro aos clássicos para pedir ajuda a Ésquilo. Foi ele quem disse “Conhecerás o futuro quando ele chegar; antes disso, esquece-o”. Sim, esqueçamos o futuro, porque é hora de enfrentar o inimigo sem rosto do presente.

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