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Quando as fronteiras se fecham o amor resiste

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Catarina Vilaça, jovem de Loures que está separada do namorado cubano Yoamel Rodriguez desde o início da pandemia de COVID-19. (Gerardo Santos / Global Imagens)

 

São casais binacionais, separados por uma pandemia que os deixa a milhares de quilómetros de distância. Há meses. Entre fusos horários e longas horas de conversa através de ecrãs, esperam e desesperam que Portugal permita o reencontro de namorados.

São 15 horas em Portugal, 17 em Israel. Núria Mendoza está sentada numa esplanada de Matosinhos a beber café na companhia do telemóvel apoiado num suporte improvisado. Do lado de lá do ecrã está Gerrit Grundling, a mais de cinco mil quilómetros de distância. Ela não liga aos olhares de estranheza. São marido e mulher e têm os planos de vida em suspenso à conta de uma pandemia que veio pôr travão ao sonho de viverem juntos em Portugal. Na verdade, veem-se todos os dias, mas desde fevereiro que não se abraçam, não se beijam, não sentem o cheiro um do outro. Israel tem as fronteiras fechadas. É muito difícil sair ou entrar. Mas o amor, esse, resiste e resiste e resiste. “Está a chover cá, estou a apanhar algum ar fresco”, diz Gerrit, enquanto caminha por um parque, bem perto de Telavive. “Parece bonito esse lugar, já aí fui tantas vezes e nunca me levaste aí”, brinca Núria. Falam em inglês e a língua de Shakespeare cai que nem uma luva numa história de amor que mais parece ter saído disparada de um livro para a vida real. Ele, sul-africano a viver em Israel, de 40 anos, e ela, portuguesa, de 46, conheceram-se na Polónia, numa formação na área de desenvolvimento pessoal. Corria o ano de 2018. E cinco dias bastaram.

“Apaixonei-me perdidamente. Não me lembro de uma paixão assim na minha vida”, confessa Núria. Desde então, ela já foi a Israel e à África do Sul, ele veio a Portugal e a Espanha, onde conheceu o pai de Núria. Andam num lá e cá constante. “Quisemos conhecer a realidade um do outro. Para decidirmos onde íamos viver. Gostei de Israel. Mas quando ele chegou a Portugal disse-me que esta era a terra dele, era aqui que queria viver.”

De máscara no queixo, do lado de lá do telemóvel, Gerrit conta que é divorciado, tem dois filhos ainda menores, e a logística da mudança não seria fácil. Quiseram preparar tudo com calma. Mas o amor tem pressa. Em 2019, estavam no Parque da Cidade do Porto, quando o sul-africano se ajoelhou sobre a toalha de piquenique segura por dois copos de vinho para a pedir em casamento. “Uma cena hollywoodesca”, lembra Núria. O dia 22 é o da sorte. Foi nesse dia de maio que trocaram alianças no registo civil e improvisaram uma lua de mel em Ovar, no tempo contado que tinham para estarem juntos.

No calendário, apontaram a data para juntarem trapinhos – março de 2020. Longe, muito longe, de imaginarem que uma pandemia lhes ia trocar as voltas. Depois de umas férias nas Canárias em fevereiro deste ano, Núria voltou a Portugal e Gerrit regressou a Israel para se despedir dos filhos, para largar a casa onde vivia e se demitir do emprego. Já não tinha nada quando Israel fechou as portas dos aeroportos. Até podia ser um sinal do universo, como Núria ainda chegou a pensar, mas não atiraram a toalha ao chão. “Em momento algum senti insegurança em relação ao sentimento que nos une. Acho que isto é um teste ao verdadeiro amor”, acredita ela. Não se veem desde então. Descomplicam. E a criatividade passa a ser o único trunfo quando há cinco mil quilómetros pelo meio.

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Nuria Mendoza vive no porto e o seu marido mora em Israel, eles conheceram-se em viagem e casaram em Portugal, desde esse dia que a sua vida é passar um mês em Portugal e outro em Israel alternadamente. Em Março o seu marido despediu-se do seu emprego em Israel e entregou a sua casa para vir finalmente viver com ela para Portugal, mas as fronteiras fecharam, eles não se veem desde então, politicamente não existem soluções para este tipo de casal, são tratados como turísticas. Entretanto é um problema que afeta várias pessoa, e até foi criado um movimento chamado loveisnottourism. (Rui Oliveira/Global Imagens)

 

Falam todos os dias, sem horas marcadas, gostam do imprevisível, por irónico que seja. Vão correr os dois, ele lá e ela cá. Agendam mesa em restaurantes para jantarem juntos. Passam a noite à mesa a falar para um ecrã, é quase como se estivessem frente a frente. “Ele tem uma capacidade enorme de me mimar à distância. É extremamente inesperado. Como quando fiz anos e me bateram à porta com uma caixa do meu tamanho. Era uma oliveira, uma das árvores mais resistentes que há.” Num amor que se faz longe, os simbolismos ganham mais força e tornam-no perto. Gerrit fez tudo e mais alguma coisa para sobreviver sem trabalho: escreveu um livro, deu workshops. Passou a viver na casa de um amigo. Este mês, encontrou um novo emprego. Mas os dois já desistiram de falar sobre um assunto que massacra o coração de quem deixou de fazer planos. “Sei que esta é a relação da minha vida.” E isso, para já, vai bastando a Núria.

Movimento “Love Is Not Tourism” não sensibiliza Governo

A história repete-se de norte a sul do país, ainda que as narrativas sejam diferentes. Pelas redes sociais, milhares de casais separados pela pandemia a partir de vários pontos do Mundo lutam por um reencontro. O assunto foi um dos temas mais debatidos pelo Twitter e Facebook no verão. Não é de admirar que o movimento “Love Is Not Tourism” tenha chegado a Portugal, onde ainda não é permitida a entrada de não-residentes na União Europeia salvo raras exceções, como quando se trata de um casal casado. Para os cerca de 400 namorados que fazem parte do grupo, a luta ainda parece em vão.

A campanha nas redes sociais deu frutos. E a Comissão Europeia recomendou, em julho, a todos os estados-membros que tomassem diligências para permitir a entrada de casais binacionais não casados nos seus territórios. Dinamarca e Noruega foram pioneiros e já 12 países aceitaram a recomendação. Portugal ainda não o fez e o Ministério da Administração Interna não esclarece se isso está a ser ponderado. Carolina Cunha, 22 anos, não sabe o que mais há de fazer. Bateu à porta de partidos. PAN e Bloco de Esquerda já apelaram ao Governo. Nada feito. No entretanto, a conta vai em nove meses sem ver o namorado Anthony Melo, 28 anos, que vive em Porto Rico.

 

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Carolina Cunha, em videochamada com Anthony Matos Melo, que vive no Porto Rico. O casal está separado há nove meses devido à pandemia e faz parte do movimento Love Is Not Tourism. (Carlos Costa/Global Imagens)

 

Os dois conheceram-se em Barcelona, quando estavam em Erasmus. A mocidade contrasta com as ideias no lugar. Sabem o que querem. “Começámos a namorar um mês depois de nos conhecermos, em 2018”, conta Carolina. Quando o semestre acabou, ela voltou para o Seixal, onde vive. E Anthony regressou a Porto Rico. Não foi um ponto final de um namoro que podia ter sido fugaz. “Fui a Porto Rico na Páscoa e no verão de 2019. E ele veio cá em dezembro. Cada viagem custa-nos cerca de mil euros, é por amor”, desabafa a jovem.

Sabe de cor o dia em que Anthony fez as malas para atravessar novamente o Atlântico: 2 de fevereiro. Ele ia voltar em abril. “Mas, em março, tivemos esta surpresa. Portugal já estava em quarentena. Esperávamos notícias de 15 em 15 dias, na esperança de que as restrições de viagem fossem avaliadas. E o tempo foi passando.” Para quem vive uma relação à distância, há sempre uma data pela qual ansiar. Desta vez não. Todos os dias à noite, quando ele acaba as aulas e ela o estágio, ligam-se em videochamada. Falam uma hora, mais coisa menos coisa. “Temos cinco horas de diferença, agora quatro com a mudança. Muitas vezes é difícil conciliar. Não saber quando nos vamos ver cria muita ansiedade. Cada dia escolhemos estar nesta relação. Isto já não é uma prova, é uma tortura. Estamos dispostos a tudo para estarmos juntos.”

A pandemia mexeu, mas não abalou os planos. Querem viver juntos quando terminarem os estudos. Portugal ou Espanha são hipóteses. Até já ponderaram casar à distância para poderem reencontrar-se. “Mas nem sei bem como funciona o casamento online. Isto afeta muito a nossa estabilidade emocional, todos os dias pensamos: será que é amanhã?”. Carolina criou o Instagram @loveisnottourism_pt para partilhar histórias como a dela. E participou numa manifestação no aeroporto de Lisboa, no final de outubro, que juntou portugueses na mesma situação. Não desiste, nem quer.

“Estamos numa pausa gigante”

Entre os países que flexibilizaram as restrições de viagens, os critérios variam. Se na Noruega basta um documento a contar a história da relação assinado pelos dois elementos do casal, juntos há pelo menos nove meses; em Espanha requerem-se provas de vida conjunta, como faturas ou contas bancárias. No meio de tanto ruído, Catarina Vilaça não se resigna. Os caracóis muito definidos e a pele clara escondem uma aventureira que, aos 28 anos, habituada a andar de mochila às costas em voluntariado pela Ásia, assentou arraiais no Vietname, há um ano e pico, para dar aulas de inglês. Foi lá que conheceu o cubano Yoamel Rodriguez, de 29 anos, o amor de uma vida inteira.

“Foi paixão à primeira vista”, vinca Catarina, de Loures. Faz contas rápidas de cabeça, namoram há 14 meses. Até já tinham a mesma morada quando o vírus chegou à Ásia, ainda distante de afetar o resto do Mundo. O Vietname começou a fechar tudo e os dois foram tomados pelo medo. “Em março, decidimos voltar para casa, cada um para o seu país, e depois iríamos reencontrar-nos em Cuba ou em Portugal.” Pouco importava o lugar. Já lá vão oito meses sem se verem. “E Portugal não cede, nem mesmo perante as diretivas europeias.” Catarina não entende. E sofre.

Num país rodeado de mar e onde a cobertura de internet é escassa, até a comunicação à distância é um desafio. “Em Cuba, a internet é quase inexistente. Muito cara e difícil de ter”, pormenoriza ela. Mesmo com cinco horas de diferença, seja que horas forem, quando Yoamel consegue internet, é nessas alturas que matam saudades. “Tanto me liga às oito da manhã como à uma hora da madrugada. Estamos numa pausa gigante.” No amor e na vida. A descrição é de Catarina, que parece já ver o fim.

 

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Catarina e Yoamel apaixonaram-se no Vietname. Foto: DR

 

Mal Portugal abriu voos para Cuba – que abriu o país ao turismo – há pouco mais de uma semana, ela comprou viagem. Parte em breve. Vai lá pela primeira vez. “Já desisti de esperar pela solução do nosso país.” Cuba chegou a ter as fronteiras fechadas, mas já há um mês que Yoamel tem autorização de saída. “Só que não podia entrar em Portugal. Ele não pode vir como turista. Até apresentámos contrato de arrendamento para provarmos que tínhamos uma relação séria, mas não lhe dão visto de família.” O mais “revoltante”, frisa, “é a atitude de Portugal, que está a ignorar por completo este tema”. “Por mais que tentemos, não há resposta do Governo. Não há soluções. Andamos há meses nisto.”

Meses que parecem ainda mais longos para quem esperou e desesperou por conhecer o filho que nasceu a 12 mil quilómetros de distância. Pasindu Kumara viu o filho nascer no Porto, a partir do Sri Lanka, por videochamada. A mãe, a portuguesa Mariana Cunha, não se desfaz em lágrimas, por pouco. São casados, mas o fecho das fronteiras da Índia, onde fica a embaixada portuguesa mais próxima, devido à pandemia, impediu Pasindu de conseguir um visto para vir para Portugal a tempo do parto. Pedro, o filho, já tem nove meses e Pasindu só agora o conheceu, depois de a embaixada francesa o ter ajudado a entrar na Europa. “Ele só via o filho por um ecrã. E quando cá chegou o bebé chorava muito no colo dele. É muito triste”, realça Mariana. A luta foi longa, mas conseguiram.

“Há um ano e meio que não lhe posso tocar”

Ainda não há finais felizes para todos. Quando o relógio bate nas 22.30 horas, Diogo Silva já nem precisa de olhar para o telemóvel para saber quem está a ligar. Como se fosse possível, os olhos azuis parecem ficar ainda mais claros. Está em Lisboa, em casa, e o sotaque brasileiro que se ouve do outro lado não engana. É Darciele Wagner, a namorada, a falar a partir de Porto Alegre, no sul do Brasil, a dez mil quilómetros. “Falamos todos os dias, já quase vivo num fuso horário diferente. Vamos tentando fazer a vida de um casal normal. Até vemos séries juntos”, atira Diogo.

As chamadas podem estender-se por horas. Não se veem desde maio de 2019. “Eu quero-a a ela. Não há outra opção na minha vida. E há um ano e meio que não lhe posso tocar. Só a vejo através de um ecrã. Todas aquelas coisas que tomamos por garantidas num casal, passear, ir ao cinema, estar junto no sofá num dia de chuva, não acontecem connosco. Mas voltava a fazer tudo outra vez.”

Diogo, 33 anos, voltava a apaixonar-se mil e uma vezes por Darciele, 25 anos, como aconteceu quando ela entrou na empresa onde ele trabalhava, na capital, em dezembro de 2018. Ela tinha-se mudado para Portugal. “Mal ouvi a voz dele, percebi”, recorda Darciele. O primeiro encontro durou 12 horas. “Ele mostrou-me Lisboa inteira. Estavam quatro ou cinco graus, muito frio. E mesmo assim foi incrível. Foi tudo tão intenso.” A 23 de dezembro já trocavam juras de amor.

 

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Diogo e Darciele conheceram-se em Lisboa, iam viver para a Irlanda. O amor, garantem, há de vencer. Foto: Gerardo Santos/Global Imagens

 

Darciele vinha para ficar, o plano era entrar na faculdade. Mas, em maio de 2019, um imprevisto familiar obrigou-a a voltar para o Brasil. Não era um adeus, era um até já. Nunca mais estiveram juntos. A vida meteu-se pelo meio até Diogo se demitir do trabalho, em fevereiro. Iam mudar-se os dois para a Irlanda, país onde Darciele conseguia um visto de estudante que lhe dava direito a 20 horas de trabalho. Estava tudo certo. “Cai a pandemia e vai tudo pelo cano abaixo”, suspira Diogo. As fronteiras fecharam e ele ficou cá sem trabalho.

Viver no Brasil não é hipótese para os dois, é demasiada burocracia. Só que Darciele não consegue entrar em Portugal e fala com o coração na boca: “Namorar com uma pessoa de outra nacionalidade já é difícil, apesar de termos a mesma língua. E é ainda mais difícil olhar para o futuro sem saber o que vai acontecer amanhã. Estamos reféns do coronavírus, de mãos atadas”.

O truque é “conversar muito”. “Falamos tanto que sinto que o conheci melhor do que se estivéssemos juntos.” E acreditar. Ela, com um sorriso capaz de iluminar uma sala inteira, acredita, muito. “Em setembro, depois de ver alguns países da Europa cederem e a TAP a voltar a fazer voos para Portugal, para quem tinha requisitos para ir, decidi pedir a demissão do meu trabalho cá. Assim que Portugal abrisse as fronteiras, eu ia de armas e bagagens. Não havia mais desculpas. E até agora nada. A minha vida depende disso.” Uma coisa é certa. “Este é o amor da minha vida, ponto. Há momentos em que bate um desespero, só que como ele me disse uma vez, a vida está em constante mudança, mas eu e ele somos certos.”

O casaco azul que Núria Mendoza veste naquele café em Matosinhos, próximo do mar, faz pandã com os olhos que, por esta altura, já só refletem esperança, como a que Darciele tem. Vê-la a falar com Gerrit é assistir ao amor a acontecer ao vivo. Já cantava Pedro Abrunhosa que “esse odor traz tanta saudade”. Não podia ser mais verdade. “Não tenho saudades dele, todos os dias estou com ele. Tenho saudades é do cheiro, do toque, de encostar a cabeça no ombro dele.”

Em casa, numa parede, afixa fotografias de todos os lugares onde já foram. E guarda imagens dos primeiros momentos que passaram juntos: o primeiro beijo, o primeiro jogo de futebol, o primeiro aniversário, o primeiro Natal. Falta uma, a primeira casa em conjunto. Agora que Gerrit conseguiu emprego, talvez vá ela para lá, consegue dar formações online. Mudam-se os ventos, adaptam-se as vontades. Mas para isso é preciso que Israel abra as fronteiras. “Ainda não há previsões. Na semana passada, abriram as escolas. Estamos no primeiro de nove estádios de reabertura”, contextualiza Gerrit. Enquanto isso, Núria vai continuar a acordar com vídeos e mensagens do marido, que continua longe, a cair-lhe no telemóvel. “É muito difícil fazer planos quando não há certezas. Estou a ponderar ir eu viver para Israel. Já não interessa o sítio onde vamos estar juntos, mas sim estarmos juntos.”

JN/MS

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