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O Papa Francisco e o desporto, 1

O Papa Francisco  e o desporto, 1-vaticano-mileniostadium

Não há dúvida de que o Papa Francisco é hoje uma das figuras mais destacadas e influentes no mundo, também das mais amadas, e em quem se deposita esperança para o futuro de um mundo melhor. 

Penso que isso advém também do facto de ele não ser, na vida e na actuação, clerical ou eclesiástico. É um cristão que segue o Evangelho, notícia boa e felicitante, que está com todos, tanto nas suas tristezas e sofrimentos como nas suas alegrias e esperanças, dando cumprimento ao preceito do Concílio Vaticano II. A demonstrá-lo de modo concreto e inesperado está aí uma longa entrevista ao director, Stefano Barigelli, e ao vice-director, Pier Bergonzi, da Gazzeta dello Sport, que aparecerá também em livro, sobre o desporto. Uma espécie de “encíclica laica” sobre o universo desportivo enquanto metáfora da existência humana, individual e colectiva. 

Logo de entrada, avança com os valores que ama no desporto, à volta de sete palavras-chave.

1. Lealdade. O desporto é lealdade e respeito pelas regras, mas também luta contra os atalhos, luta contra o doping. “Tomar atalhos é uma das tentações com que frequentemente temos de lidar: pensamos ser a solução imediata e conveniente, mas quase sempre leva a consequências negativas. Penso, por exemplo, em quem vai à montanha: a tentação de procurar atalhos para chegar primeiro, em vez de seguir os caminhos indicados, esconde muitas vezes e inevitavelmente um lado trágico. O jogo e o desporto em geral são belos, quando se respeita as regras: sem regras, seria a anarquia, a confusão total. Respeitar as regras é aceitar o desafio de bater-se contra o adversário de modo leal. Portanto, a prática do doping no desporto não é só um engano, é um atalho que anula a dignidade.”

2. Compromisso. O talento não é nada sem aplicação. Pode-se nascer talentoso, mas não se pode adormecer em cima do talento. “A história, não só a desportiva, mostra tanta gente de talento que depois se perdeu no caminho. No desporto, para vencer, não basta ter talento, é preciso treiná-lo, vivê-lo como oportunidade para prosseguir e manifestar o melhor de nós. A própria parábola evangélica dos talentos ajuda-nos nesta reflexão: o servo que, quando no regresso do patrão, restitui o talento recebido, porque com medo o tinha enterrado, é considerado mau precisamente porque não pôs a render o que recebera como dom. A parábola ensina-nos que Jesus é um treinador exigente: se enterrares o talento, já não fazes parte da sua equipa.”

3. Sacrifício. “O sacrifício é um termo que o desporto partilha com a religião: vem de ‘sacrum-facere’, dar sacralidade ao esforço e à fatiga. Ninguém gosta de cansar-se a trabalhar, porque a fadiga é um peso. No entanto, se consegues encontrar um sentido para o esforço e a fadiga, o teu jugo torna-se mais leve. O atleta é um pouco como o santo: conhece a fadiga, mas não lhe pesa, porque, nela, é capaz de entrever algo outro, um mais além. Encontra uma motivação, que lhe permite não só enfrentar a fadiga, mas quase alegrar-se com ela: de facto, sem motivação, não se pode enfrentar o sacrifício. Depois, o sacrifício requer disciplina para poder ter êxito.” 

4. Inclusão. Este ano será o ano dos Jogos Olímpicos. “Desde sempre os Jogos são um sinal de inclusão, contraposto à cultura do racismo, do descarte. Peçamos ao Senhor a graça de poder arrancar para um ano de novo ponto de partida de tudo. Penso, por exemplo, no drama da falta de trabalho e da consequente desigualdade, cada vez maior, entre quem tem e quem perdeu até o pouco que tinha. Os Jogos Olímpicos, cujo desejo inato de construir pontes em vez de muros sempre apreciei, podem representar simbolicamente também o sinal de um ponto de partida novo e com um coração novo. No início da experiência dos Jogos Olímpicos, previa-se até a trégua nas guerras durante o tempo das competições. A cada quatro anos, o mundo tem a possibilidade de parar para se perguntar como está, como estão os outros, qual é o termómetro de tudo. Celebrar os Jogos Olímpicos é uma das formas mais altas de ecumenismo humano, da partilha do esforço para um mundo melhor.”

5. Espírito de equipa. Fazer equipa é essencial no desporto. Também o é na vida de todos os dias. “É verdade: ninguém se salva sozinho. E como crente posso testemunhar que a fé não é um monólogo, mas um diálogo, uma conversa. Utilizando uma metáfora desportiva, dir-se-ia que só nos podemos salvar como equipa. O desporto tem isto de belo: tudo funciona em equipa. Os desportos de equipa assemelham-se a uma orquestra: cada um dá o seu melhor no que lhe compete, sob a sábia direcção do maestro. Ou se joga em conjunto ou se corre o risco de estragar tudo. É assim que grupos pequenos, mas capazes de permanecer unidos, chegam a bater grandes equipas incapazes de trabalhar em conjunto.”

6. Ascese. Ao pensar na história de tantíssimos santos e santas, “é evidente que praticar ascese não significa só renunciar. O desporto di-lo muito bem: imagino as escaladas de oito mil metros, as imersões nos abismos, as travessias dos oceanos como intentos de buscar outra dimensão, mais alta, menos habitual. É redescobrir a possibilidade do espanto, do assombro, do transcendimento.”

7. Resgate. Desporto também é dizer redenção para todos. “Não basta sonhar com o êxito, é preciso despertar e trabalhar no duro. O desporto está cheio de gente que, com o suor do seu rosto, venceu os que nasceram com o talento no bolso. É por isso que certas vitórias nos levam à comoção.” (Continua).

Anselmo Borges/Padre e professor de Filosofia

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