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VOSMI – Victims Of Syndicated Mortgages Investments. As histórias na primeira pessoa

A carta de “Armando”

A carta chegou e trazia escrita a indignação de quem se sente enganado. Alguém que, para este efeito, se chama Armando e que nos fez chegar em breves palavras, escritas pelo seu próprio punho, a angústia e revolta por ter perdido as economias de uma vida.

Na primeira pessoa, a carta que Armando fez chegar ao Milénio Stadium começa por nos contar que “foi em junho de 2016 que fiz o primeiro investimento em syndicated mortgages. Investi neste grupo enganador que prometia 8% de juros que venciam quatro vezes ao ano. Afinal, só me pagaram o primeiro ano.” A partir daí nada. Armando afirma que no grupo de pessoas “falsas” que o convenceram a investir o seu dinheiro estava alguém que serviu de intérprete e que lhe assegurou que “tínhamos um advogado do governo do nosso lado a defender-nos”. Hoje Armando não tem dúvidas que tudo fazia parte da armadilha em que ele e outros terão caído – “uma armadilha que atingiu principalmente os reformados que pensavam que tinham lá o seu dinheiro investido para poderem ter uma reforma melhor e ficaram sem nada.”

A carta de Armando termina com um apelo – “peço ao governo que ponha a mão nestas pessoas falsas que andam a enganar e a enriquecer à custa de outros, que ficaram na miséria.”

E a história de António Valente Silva

Sem problema em se assumir na plenitude, António começou por nos explicar que tudo começou com um acidente. Corria o ano de 2017 o António teve que deixar de trabalhar. Vendeu a sua empresa, porque não tinha saúde, vendeu a sua casa, porque não podia limpar a neve, nem cortar a relva e decidiu comprar um apartamento num condomínio. Perante a situação “sem trabalho e ainda longe da reforma, resolvi investir em algum lado. Como havia tanta publicidade pomposa numa rádio sobre este tipo de investimentos, eu disse… bom, poderá ser uma boa opção. Então eu contactei essa pessoa através do telefone que davam na rádio. Ele veio à minha casa, isto foi no Natal de 2017. Nessa ocasião ele, inclusivamente, disse que era uma grande asneira eu pagar o apartamento. Que fazia melhor se investisse o dinheiro todo neste sistema, que era garantido e dava muito rendimento. A minha mulher não quis e dissemos que íamos entrar com 100 mil dólares, mais 27 mil dos RRSP que eu tinha. Entretanto, recebemos os primeiros juros a 8% ao fim de alguns meses, depois nunca mais recebemos nada. Eu contactei-o por diversas vezes e ele sempre dizia que tínhamos que esperar que o que se falava era uma mentira. “Temos que esperar” – dizia ele. O problema é que quando nós fomos para assinar os papeis – dezenas e dezenas de papeis, que não tivemos hipótese de ler – eu disse “então a gente assina assim sem ler, nem nada?” e ele disse que havia um advogado que não podia estar lá no momento, mas que podíamos ligar-lhe pelo telefone. Falámos com uma pessoa que, supostamente, seria o advogado que estaria a gerir o sistema e que estaria do nosso lado. Mostraram-nos qual era o projeto – era um prédio em Barrie que eu até fui ver e parecia ser um bom investimento. Só que era uma trapaça e as promessas que esse Senhor fez, eram só para nós desembolsarmos o dinheiro e nada mais.

A partir daí não conseguia encontrar-me com ele pessoalmente e, uma vez, liguei-lhe e disse que tinha vendido o negócio e que me queria encontrar com ele. Aí ele prontificou-se logo. Eu disse-lhe que ainda estava à espera do dinheiro que ainda não tinha recebido e ele respondeu “não se preocupe que vai receber o dinheiro, só que não é como a gente quer. Às vezes demora um pouquinho.” A pessoa ficou sempre naquela dúvida, naquela esperança… até que recebi uma carta a dizer que podia declarar a perda total do meu investimento. Curiosamente, antes disso eu recebi uma outra carta (no dia 28 de dezembro de 2018), escrita em português, onde estava tudo explicado ao pormenor. Ou seja, tudo o que nos devia ter sido dito antes de fazermos o investimento, apareceu escrito naquela carta, que não tem sequer remetente, praticamente um ano depois. A minha interpretação é que eles começaram a ver que não íamos receber nada e quiseram salvaguardar-se, para depois nos dizerem “você sabia”.

E agora?

“Agora… nós somos um peixinho, muito pequenino, no meio de tubarões. Infelizmente andamos uma vida a poupar, a pensar na reforma e acabámos por perder tudo. Vou ver o que se pode fazer. Vamos ver se nos juntamos e fazemos barulho para conseguirmos abrir os olhos do governo para alguém nos proteger. Porque o que mais me admira é – se nós não podemos mexer nos RRSP até termos 65 anos, como é que é possível que o governo tenha deixado que isso acontecesse e eles tenham conseguido ficar com este dinheiro?”


Autor(a): MB
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