GTA

VOSMI – Victims Of Syndicated Mortgages Investments

As histórias na primeira pessoa

Mais uma história. Mais uma vida que ficou mais triste. Mais um testemunho de alguém que prefere não ser identificado. Chamemos-lhe então Maria. Uma mulher que pensou que seria melhor recorrer a ajuda qualificada para garantir o futuro. Agora sabe que se enganou. Muito. “Sou viúva já há algum tempo e como ainda estava a trabalhar foi-me dito que não devia receber o dinheiro da reforma do meu marido, porque ia aumentar-me os impostos que pago. Disseram-me também que o melhor para mim seria investir esse dinheiro. E eu achei que era uma boa opção. Só que não sabia como havia de fazer. Houve alguém que me falou acerca de um financial advisor que era português e que me podia ajudar. Entretanto comecei a ligar o rádio e a escutar o programa português e nesse programa esse senhor vinha falar e dizia às pessoas que deviam investir o seu dinheiro porque era uma coisa muito segura, com juros a 8% e, portanto, trazia riqueza.

O senhor dizia também que, para nós planearmos bem a nossa vida, seria melhor contactarmos com ele, que ele depois vinha ajudar-nos. Entretanto pensei muito no assunto, por várias vezes falei com outras pessoas e todos me diziam que na nossa comunidade tínhamos este senhor que sabia muito bem o que estava a fazer. E que, inclusivamente, ele tinha recebido muitos prémios, porque era um dos melhores financial advisors que havia aqui no Canadá. Então resolvi telefonar-lhe e ele veio à minha casa. Falámos, perguntei-lhe como é que ele podia ajudar-me e ele respondeu: “olhe a senhora está nas mãos certas, porque isto é como tudo – se a senhora tem uma dor de dentes vai a um dentista, se tem uma dor de barriga vai ao médico de família, quando se tem um problema com a gestão de dinheiros tem que ter um financial advisor. É para isso que eu estou aqui. Para a ajudar em tudo o que precisar e assim poder garantir o seu futuro mais tarde”.

Na explicação dele eu fiz muitas perguntas, queria saber como é que isto funcionava e ele às tantas disse-me – “a senhora quando vai a um dentista também não lhe pergunta como é que ele lhe vai tirar o dente”. Acontece que eu estava com os meus olhos muito tapados e achei que tal como ele disse a gente tem de confiar e acreditar nas pessoas. Quando vamos a um médico é porque sabemos que ele é que nos pode ajudar e então achei que o financial advisor iria saber lidar com o meu dinheiro e dar-lhe o rumo mais certo. Então confiei nele e assinei os papéis – ele depois veio com um advogado e um notário – e eu pensei “Meu Deus, isto tudo”. Fiquei um pouco admirada, mas ele disse, “minha senhora, isto é tudo legal. Estes são os procedimentos normais”. Fiquei então com a convicção de que iria ter os tais 8% de juros e que depois poderia ir para a reforma. Investi o dinheiro da reforma do meu falecido marido. Agora já recebi a carta a dizer que já não havia dinheiro porque o prédio, onde o meu dinheiro tinha sido investido, tinha sido vendido por um valor bem mais baixo do que era esperado inicialmente. E, portanto, os 200 mil dólares que tinha investido (a reforma toda do meu marido) estão dados como perdidos. Entretanto, a empresa onde eu trabalhava fechou, eu tinha muitos anos de serviço e recebi um dinheiro que também investi. No total, entre o primeiro investimento e o segundo, foram cerca de 300 mil dólares. Do primeiro investimento só recebi o primeiro pagamento de juros. Esse dinheiro de juros também foi investido. O resto ele dizia que eu receberia no final de cada ano. Só que não recebi mais nada. Do segundo investimento ainda não sei nada – não sei se o meu dinheiro está perdido. Nem tenho coragem de falar com o financial advisor, porque eu não sei exprimir-me nestas coisas. Confiei nele e agora estou dececionada com tudo o que se está a passar. Antes de saber que o dinheiro do primeiro investimento estava completamente perdido, tinha contactado com o financial advisor e ele disse-me que não estava autorizado a falar, porque havia processos a decorrer em tribunal. Estou muito desapontada porque se este investimento não estava a correr bem ele tinha a obrigação de me avisar. Agora a minha vida está muito triste. Estou muito preocupada. Nunca pensei que no Canadá acontecessem este tipo de coisas. Eu pensei que aqui tudo se fazia “by the books”. Trabalhei toda a vida honestamente e nunca quis ter nada que não fosse meu. É muito triste passar por esta situação criada por pessoas que não medem as consequências daquilo que fazem para ganhar dinheiro à custa dos outros. Gostava que a comunidade fosse mais informada sobre este assunto. Estamos preocupados com a nossa situação e precisávamos que alguém nos desse uma orientação sobre isto. Agora a rádio, que nos seduzia para fazermos os investimentos, está muito calada e não informa ninguém sobre como podemos resolver a situação.” MB/MS

Redes Sociais - Comentários

Tags
Mostrar mais

Artigos relacionados

Back to top button

DONATE NOW

Close
Close