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VOSMI – Victims Of Syndicated Mortgages Investments – As histórias na primeira pessoa

Os nomes são fictícios, alguns ocultados, mas as pessoas e os factos aqui relatados não. A história que hoje vos trazemos é da vida de um casal que um dia acreditou que seria possível investir o seu dinheiro e, desse modo, garantir um futuro mais tranquilo. Esta é a história de um casal que ao fim de praticamente cinco anos percebeu que, afinal, aquilo que parecia ser a solução para uma reforma feliz e livre de preocupações, se transformou num verdadeiro pesadelo.

O início

Joaquim: Tudo começou com um anúncio na rádio. Ouvimos falar deste investimento que era apresentado como muito bom porque se investia em bens reais, com segurança e bom rendimento. Na época não havia melhor, porque além de se apresentar como seguro trazia juros. Por isso fomos convencidos que havíamos de fazer investimentos com esta pessoa. Eram mencionados juros de 8%. O que nunca foi mencionado foi a qualidade de hipotecas em que estávamos a investir. Nunca nos foi explicado o que eram syndicate mortgages.

Margarida: Depois de termos ouvido os anúncios na rádio, encontrámo-nos num local público. O senhor em causa é um consultor de investimentos muito conhecido na comunidade portuguesa, mas não queremos referir o seu nome porque ele já ameaçou que nos processava.

Joaquim: O encontro foi num resort onde a tal pessoa estava a promover o seu negócio. Foi aí que nos conhecemos e, para além da relação de negócio, estabelecemos mesmo uma relação de amizade e intimidade. Foi nessa altura que ele nos convenceu e, mais tarde, então investimos.

Margarida: Os flyers que ele distribuía asseguravam que o investimento era seguro. Nós confiámos. Até porque já considerávamos a pessoa em causa como amigo – era visita lá de casa, viajávamos juntos… não fomos ler as “letras pequeninas”, porque nós próprios na nossa profissão estamos habituados a lidar com o público e estamos habituados a explicar tudo aos nossos clientes. E isto não nos foi feito. Ele devia ter mencionado que não era seguro.

Que investimentos?

Joaquim: Eu acreditei que tratando-se de investimentos em bens reais – o chamado real estate – poderia ter plena confiança, já que, em princípio, são investimentos sólidos, bons.

Só que por detrás deste tipo de investimentos havia coisas que nunca nos foram faladas, porque se, na realidade, isso fosse explicado eu nunca tinha investido. Por exemplo, nós conhecemos as leis das mortgages, no entanto, estas hipotecas com que ele (o consultor financeiro) trabalhava eram totalmente diferentes. Ele só anunciava que o juro era fantástico – 8% -, mas não mencionava nenhuma das outras condições más que este investimento trazia. Por exemplo, no primeiro investimento em que eu entrei, desde o ano 2012 tinha problemas financeiros. E quando eu investi no mês de novembro/dezembro de 2015, o consultor dizia que “era a coisa melhor que ele tinha” porque o edifício, de vários andares (bom e grande) estava construído, só faltava acabar os interiores. Era uma verdade. Mas, depois de todo este tempo, este edifício está na mesma situação. Deste investimento recebi o juro adiantado por um ano e a sua continuação seria por poucos mais meses. Só que já se passaram quase quatro anos e o valor total perdido, só deste investimento, com os juros atrasados, passa de 300 mil dólares.

No passado mês de julho recebi uma comunicação da Olympia Trust – que foi a entidade que nos aceitou o dinheiro para investir naquele sítio – a informar que o meu investimento tinha sido reduzido para zero. Devo dizer que no total eu e a minha esposa investimos 2 milhões de dólares. Agora, depois do sucedido, estamos a procurar saber as situações e o que conseguimos descobrir não é nada bom, talvez pela má fama que a companhia já tem. Eles não conseguem construir nada e mesmo que consigam uma possível venda, sabemos que eles nunca vão conseguir fazer o dinheiro suficiente para cobrir todos os investimentos que foram feitos. Portanto, há muito, muito que desconfiar. São noites e noites e dias cheios de preocupações, porque tudo o que nós tínhamos para uma reforma mais saudável e tranquila, tudo isso está escuro. Muito escuro, sem visibilidade nenhuma para a frente.

As ameaças

Joaquim: O último encontro que tivemos com o consultor financeiro que nos convenceu a investir foi no passado dia 27 de julho, deste ano de 2019. Quisemos saber o que íamos fazer depois de receber aquela comunicação da Olympia Trust. A conversa dele foi a mesma de sempre – que nós não sabemos esperar, que a companhia perdeu o edifício para o primeiro investidor, pela primeira hipoteca, deixando todos os outros investidores sem receber nada. E disse ainda que a companhia original – a Fortress – que estava no processo de readquirir o edifício (não sei como…) e que vai acabar o edifício para que possa pagar a toda a gente. Isto não cabe na cabeça de alguém que saiba ver um “poucochito” à frente dos olhos. Neste mesmo dia tomámos a decisão que íamos processar quem fosse preciso. Eu disse “vou-te processar a ti, vou processar o Fortress, o mortgage broker, todos esses que estão incluídos” e ele respondeu “não tem problema nenhum. Você faça isso, porque não tenho nenhuns bens em meu nome, foi tudo passado para o nome da minha esposa e se você me processar a mim eu também o processo a si”. Esta foi a última conversa que nós tivemos.

Margarida: Recentemente comecei a procurar juntar as pessoas (portugueses) que fizeram investimentos com o mesmo consultor financeiro. Enviei uma mensagem para procurar saber se nos podíamos juntar para fazer um processo conjunto, já que fomos todos iludidos da mesma forma e pela mesma pessoa. Houve alguém que mandou esta minha mensagem para ele. E ele mandou-me uma mensagem a dizer que eu estava a iludir as pessoas e elas não querem participar nisto (ora já tenho uma lista de 34 pessoas…). E terminou dizendo “tem muito cuidado. Pensa bem nisto porque tu vais ser processada por mim e outras pessoas.” Isto é uma ameaça por escrito.

E agora, o que fazer?

Joaquim: Estamos ainda a pensar como vamos fazer, mas não queríamos deixar sozinhas as outras pobres pessoas que foram vítimas, quase todas reformadas, e que estão completamente perdidas e em situações precárias, porque o que investiram está perdido e, na maioria dos casos, eram as poupanças de uma vida. Eu quero estar ao lado destas pessoas e fazer o melhor que eu possa para as ajudar.

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