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O público tem que dizer aos políticos “Já chega para nós”!

A violência com recurso a armas foi um dos fenómenos que mais fez estremecer Toronto e esteve no centro das preocupações da cidade em 2018. Num dos lugares que tem sido considerado melhor para viver, os cidadãos começam agora a ver a sua segurança ameaçada, com o número de tiroteios a escalar para valores recorde ao longo dos últimos anos. Mas as duas questões mais difíceis de responder mantêm-se no ar: Porquê? O que fazer?

O Milénio Stadium foi conhecer o ponto da situação junto a Mike McCormack, presidente da Associação da Polícia de Toronto.

Milénio Stadium – O número de tiroteios em Toronto tem aumentado. Como podemos explicar esta subida e que fatores podem estar relacionados?
Mike McCormack – Há muitas razões para o aumento da violência com recurso a armas. Há mais armas de fogo na rua, há mais atividade de gangues, mais violência, menos polícias e menos fiscalização. Fatores socioeconómicos podem contribuir para a violência armada também, mas o que temos visto é um aumento assustador nos últimos quatro anos. Por exemplo, em 2014 nós tivemos 242 vítimas. No ano passado tivemos 565, o que representa um aumento de 133%. E tivemos 50 homicídios, o que representa um aumento de 28%. Tivemos tiroteios em parques infantis, fora das escolas, tivemos dois filhos baleados, uma avó que foi atingida. Nos centros comerciais e em bares. Há uma predisposição muito maior, essas pessoas que estão envolvidas na cultura de armas, eles tiram as suas armas e disparam em qualquer lugar. Portanto, isso não está a acontecer apenas em certos bairros, isso é uma situação para a qual todos nós em Toronto devemos estar alerta. Devemos estar preocupados.

MS – Qual é o seu ponto de vista sobre as estratégias atuais da cidade para diminuir a violência com recurso a armas?
MM – Receio que as estratégias atuais da cidade não existam e que não tenhamos uma que esteja, efetivamente, a funcionar. E quando vemos uma força policial ou um serviço da polícia que caiu 20% nos últimos cinco anos, nós perdemos 800 polícias, a cidade cresceu e nós vemos a quantidade de violência que ocorreu. Nós não temos os recursos de policiamento necessários. E isso é algo que tenho vindo a dizer há muito tempo. O meu medo é que continuemos a cortar no número de polícias e não ter a quantidade de agentes da autoridade que precisamos. Assim, vamos continuar a experienciar essa violência.

MS – Pensa que uma estratégia de banimento de armas resultaria, em Toronto?
MM – Não, de modo nenhum, eu não acho que funcionaria. Já é ilegal portar e usar uma arma de fogo. Se alguém vai pegar numa arma e disparar na cabeça de alguém, eu não acho que o que está em causa é se há ou não uma proibição de armas. Acho que aquilo que nos está a passar ao lado neste tipo de discussão são abordagens realistas, que sabemos que funcionam. Na cidade de Nova Iorque, eles têm a menor taxa de homicídios desde a Segunda Guerra Mundial. Eles têm a menor taxa de morte de peōes em acidentes de trânsito, porque aumentaram a fiscalização no trânsito, aumentaram a sua presença policial. E o que vimos são todos os indicadores de violência a cair e comunidades mais seguras a crescer na cidade de Nova Iorque. Então, nós sabemos o que funciona. O problema é apenas a relutância dos políticos na cidade de Toronto em aplicar algo que eles sabem que funciona.

MS – Apesar do porte de arma ser ilegal, será que o acesso a armas de fogo é fácil?
MM – Sim, a maioria – ou muitas armas – chegam pelos Estados Unidos. Temos uma das fronteiras maiores e mais desprotegidas do mundo. Então, sim, existe a capacidade de obter armas de fogo, o que definitivamente tem um impacto.

MS – Estes números crescentes que vimos em 2018 são um padrão que podemos esperar que continue daqui para a frente, em 2019?
MM – Infelizmente, eu penso que sim. Isto não é um problema de agora, não é uma coisa que aconteceu num ano, isoladamente. Vimos esse aumento ao longo do tempo, e não vejo nada que o serviço da polícia esteja a fazer agora que vá diminuir esses números.

MS – Apesar de esses números estarem a aumentar, ainda vemos muitos artigos nos media a dizer que Toronto continua a ser uma cidade segura para se viver. Deveríamos nós, como cidadãos de Toronto, ficar alarmados com o pico no número de tiroteios? E o que podemos fazer sobre isso?
MM – Eu acho que sim, toda a gente deveria ficar alarmada com o aumento dos tiroteios. E dizer que ainda somos uma cidade segura… bem, quantas pessoas precisam de ser baleadas antes de dizermos que não é? Tenho a certeza que não é muito consolador para a mãe que tem dois filhos que foram baleados no parque infantil ou aquele rapaz inocente que foi baleado, o adolescente que foi baleado… O importante é que o que estamos a ver são tiroteios em áreas públicas, como o centro da cidade, onde você vai a um bar. Deveríamos estar preocupados? Sim, deveríamos preocupar-nos com isso. Porque dizer que ainda somos uma cidade segura em comparação com Chicago, essa não é uma abordagem realista sobre como resolver a violência armada. Não devemos olhar para os piores cenários e dizer “não somos tão maus como aquele tipo“. O que eu acho que temos que fazer é que o público tem de entrar em contacto com os políticos e dizer “já chega para nós, queremos ver comunidades seguras, queremos ver a quantidade certa de polícias lá fora e queremos ver algumas ações do presidente da cidade e do chefe da polícia, o que eles realmente farão sobre isto”, é o que vocês precisam de fazer para se envolver e acabar com essa violência. Nós estamos com uma baixa de 800 polícias e só estamos a colocar 150 polícias para toda a cidade durante um dia, isso é um grande problema. Acho que precisamos de resolver isso, caso contrário essa violência continuará.

Telma Pingelo/MS


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