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Duas escritoras de renome e dois leitores atentos

O Núcleo de Leitura da Casa do Alentejo existe desde setembro de 2008 com o objetivo de debater obras em língua portuguesa. Onze anos depois, já lemos muitos autores, à razão de um por mês. Sabemos que o mundo dos leitores se divide entre os aficionados da literatura dita “light” e a outra, que exige maior concentração e por vezes necessita de ajuda para se entender. Já lemos de ambas as categorias.

Emanuel Melo é um amigo que me declarou o seu apreço pela gigante da literatura portuguesa que foi Agustina Bessa-Luís, falecida a 3 de junho de 2019, no Porto, aos 96 anos. Emanuel, autor publicado em antologias, conheceu Agustina pela mão da falecida Dra. Laura Bulger, que era íntima da escritora. Ele tinha 26 anos e Agustina 62. Convidei-o para nos dar uma palestra sobre Agustina, considerada pelo Núcleo como uma escritora difícil de ler.

Emanuel aceitou participar no nosso encontro de 1 de novembro, mas fez questão de trazer o amigo Michael do Carmo Baptista, estudante de doutoramento em Literatura Comparada na Universidade de Toronto e, como Emanuel, um leitor atento de Agustina. Mas ainda antes desse dia, Michael já tinha vindo até nós pela mão de José Pedro Ferreira, do Instituto Camões, que nos trouxe também Inês Pedrosa, a escritora portuguesa que participou no Festival Internacional de Autores (IFAO) com duas obras traduzidas para inglês.

A apresentação de Inês Pedrosa na visita ao Núcleo, a 29 de outubro, teve duas vertentes. Uma sobre a sua própria carreira como escritora, que começou no jornalismo, até ao seu último livro; a outra sobre a cena literária em Portugal e no mundo, que pouco favorece as mulheres escritoras. 

Por esta e outras razões, Inês diz-se feminista, tendo afirmado: “O meu feminismo é de emancipação e não de policiamento, como o movimento ‘Me Too’. Há ainda uma cultura de assédio, mas não vamos por isso atacar os homens. O mundo está policiado e infantilizado. A maturidade afetiva – um tema que me atrai muito -, não depende da idade, mas o adolescente está infantilizado. O mundo tem, no entanto, evoluído para melhor, e os romances servem para transmitir o positivo e acrescentar ao conhecimento da natureza humana”. A escritora tratou, por isso, o assunto da infantilização dos adolescentes na sua última obra, O CASO VIOLETA.

As mulheres, os maiores leitores de romances, são, como escritoras, as menos traduzidas e as menos galardoadas com o Prémio Nobel em Literatura, na injusta proporção de 15 para 101 homens. Em 1997, o próprio Saramago telefonou para Agustina a dizer-lhe que o prémio deveria ter sido entregue a ela! Assim se explica que as mulheres que mais marcaram a literatura mundial não o tenham recebido – o caso da Agustina – sobre quem Michael dialogou com Inês durante mais de quatro horas, apesar de se terem apenas acabado de conhecer no Festival de Autores.

Ambos são leitores atentos e fãs incondicionais da grande escritora, tendo Inês sido também amiga dela. Michael, ao contrário de Inês e de Emanuel, por ser muito mais jovem, não a chegou a conhecer pessoalmente mas sabe tanto sobre ela e a sua escrita que impressionou Inês. Ele disse-nos depois que o seu gosto por Agustina teve muito a ver com a morte da avó, e o conhecimento da língua e cultura portuguesas deve-o também às tias-avós.

Emanuel e Michael encantaram-nos com as suas apresentações sobre Agustina. A sua participação foi um dos momentos altos na história do Núcleo. Sendo que ambos dominam melhor o inglês, mostraram-nos que, se eles conseguem lê-la e apreciá-la, nós também podemos. Como disse o Michael e muito bem: “A Agustina deixou-nos mais de 70 obras de vários tipos, romances, ensaios, peças de teatro, história, em que fez uma análise da condição humana e portuguesa. É verdade que a escrita de Agustina é difícil, porque a vida também o é”.

Ilda Januário/MS

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