Comunidade

Trudeau deveria canalizar compaixão para indocumentados

Joana Leal

O Comité dos Trabalhadores Indocumentados está indignado com as recentes declarações de Justin Trudeau em que compara antigos combatentes islâmicos do Iraque e da Síria aos imigrantes portugueses, gregos e italianos.
O primeiro-ministro do Canadá defendeu este mês, que à semelhança destes imigrantes, também os antigos combatentes vieram para o Canadá à procura de uma vida melhor.
Em declarações ao Milénio Stadium, Manuel Alexandre, presidente do Comité dos Trabalhadores Indocumentados, lamenta a comparação de Trudeau e considera que foi infeliz. “Estes combatentes são terroristas. Nós somos imigrantes trabalhadores e exigimos um pedido de desculpa. É o mínimo que podemos pedir”, disse.
Manuel Alexandre falava quarta-feira numa conferência de imprensa na Dundas Street West em Toronto. “Já que o PM tem tanta compaixão pelos terroristas, gostávamos que dedicasse 50% dessa compaixão aos nossos indocumentados. Pessoas que trabalham arduamente e que contribuem para o PIB do país”, disse.
O líder do Comité exige ainda que “o Governo pare imediatamente as deportações” e que “avance com o projeto piloto que já deveria ter arrancado há muito”. Na sua perspetiva o país deveria dar prioridade aos casos de indocumentados que têm registo criminal limpo e que pagam impostos.
Manuel Alexandre diz ainda que os portugueses estão a ser alvo de descriminação porque nos últimos anos foram um dos grupos étnicos com menor número de residências permanentes. “Em 2015 só 820 portugueses é que obtiveram residência permanente. É assustador se compararmos com os indianos (55 mil), os filipinos (50 mil), os paquistaneses (30 mil) ou até mesmo os chineses (20 mil). E em 2014 foi parecido, só 635 mil portugueses é que tiveram residência permanente”, revela.
O líder do Comité alerta ainda para a escassez de mão-de-obra em alguns sectores. “São sobretudo empregos que os canadianos não querem. Todo o género de trabalho na construção civil; mecânicos; cozinheiros; etc.”, explica.
Manuel Alexandre não tem dúvidas de que este é o caminho a seguir. “Temos que fazer pressão junto dos políticos, precisamos de envolver a sociedade civil nesta questão. A comunidade portuguesa tem que se mobilizar através das redes sociais e os próprios clubes e associações também podem dar o seu contributo”, sugeriu.
No sábado o Comité dos Trabalhadores Indocumentados organizou uma manifestação fora do Ministério Federal e Provincial da Imigração ( no 99 da Ingram Avenue). “Quisemos dar a conhecer aos ministros os dissabores de enfrentar a nossa comunidade. Nós estamos aqui de pedra e cal e não vamos parar de lutar”, afirma.
Segundo a organização, no local estiveram cerca de 70 pessoas. Na manifestação esteve presente Laura Albanese, ministra da Cidadania e da Imigração de Ontário. Numa breve intervenção a ministra remeteu o problema para o governo federal mas disse estar solidária com a causa.
Manuel Alexandre ficou satisfeito com a adesão mas por outro lado mostrou-se desapontado. “Estávamos à espera de menos pessoas por isso estou satisfeito. O que me deixa muito triste é a ausência do ministro federal. Quer dizer que o governo não quer saber dos problemas dos portugueses. Vão aos nossos eventos e elogiam o nosso trabalho mas quando precisamos deles são muito vagarosos”, declara.
O frio não assustou os manifestantes que entoaram vários slogans durante uma hora e meia. “os indocumentados pagam impostos”; “os indocumentados têm registo criminal limpo”; “os indocumentados não roubam empregos aos canadianos”; “os indocumentados não têm benefícios mas estão a ajudar a construir um país”; “os indocumentados são pessoas que querem trabalhar e fazer parte do Canadá” e “tornem o projeto piloto uma realidade”, foram algumas das frases que os manifestantes repetiram no local durante uma hora e meia.
Nos próximos meses Manuel Alexandre promete continuar a lutar pelos cerca de 500 mil indocumentados que se estima que existam no país. “Vamos continuar a enviar cartas ao primeiro-ministro até que ele resolva esta questão. Se for preciso voltamos a Otava”, garante.

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