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“Temos razões para ter medo do Sr. Trump”

Arthur Ross, professor do departamento de Ciência Política e Administração Pública da Ryerson University

 

Foi bandeira de campanha de Donald Trump. Continua a ser um dos principais temas que o presidente dos Estados Unidos da América (EUA) mantém na ordem do dia. Argumentando questões de segurança nacional Trump insiste na construção de um muro na fronteira com o México.

O Milénio Stadium traz-vos a opinião de um académico, especialista em ciência política e imigração, para nos enquadrar melhor este assunto e ajudar-nos a perceber as suas consequências.

 

MS: Os EUA querem construir um muro para impedir a entrada de imigrantes ilegais no país. Acha que é mesmo necessário?

Arthur Ross: Os EUA não precisam de um muro, o Sr. Trump acha que sim, mas ele está a fazer campanha política. Todas as evidências revelam que o número de ilegais que atravessou a fronteira para os EUA diminuiu e ao contrário das suas declarações, onde refere que o muro é necessário para parar a entrada de drogas, a maioria delas entra de forma legal, tanto por via terrestre como marítima.

Além disso, ele afirma que aqueles que vêm para os EUA a partir do México e da América Central são responsáveis por elevadas taxas de criminalidade – o que é simplesmente errado. O que ele está a tentar fazer é afastar as atenções dos problemas políticos, o que significa que a sua administração está bastante confusa. Ele está a enfrentar um Congresso que é agora, em parte, controlado pelos Democratas. Para além disso, Trump está a ser investigado por ter alegadamente influenciado as eleições da Rússia. Noutras palavras, ele está em grande dificuldade e está a tentar distrair os americanos ao insistir que eles precisam de um muro.

MS: Mas o muro foi uma promessa eleitoral.

AR: Foi uma promessa eleitoral e ele está a tentar cumpri-la. A maioria das sondagens mostra que os americanos não apoiam a construção do muro e que acham que não é necessário de todo. Na campanha ele também mencionou que o México iria pagar o muro, o que é fruto da imaginação dele. O México não está preparado para pagar este muro e ao mesmo tempo os EUA estão a arriscar a sua segurança financeira e correm o risco de entrar em deficit excessivo. Agora Trump está a pedir $5,6 mil milhões para avançar com o muro.

MS: Qual é a mensagem que ele quer transmitir?

AR: Medo… para quem vem de determinados países, seja do Médio Oriente, do México ou de outros países da América Central. Ele basicamente tentou denegrir os afro-americanos e os latino-americanos e defende que eles são uma ameaça para os EUA porque atravessam a fronteira ilegalmente. Os EUA têm um problema de imigração e precisam de reformar o seu sistema, mas um muro não é necessário.

MS: Acha que temos razões para ter medo?

AR: Nós temos razões para ter medo do Sr. Trump. Não tenho a certeza se temos razões para ter medo de pessoas que estão a tentar atravessar a fronteira. A maioria delas está desesperada e eles não vêm só do México, chegam das Honduras, do Guatemala, El Salvador, Nicarágua, países que estão em estado muito crítico. A maioria são mulheres e crianças, não representam qualquer ameaça, estão apenas desesperados para deixar um país que não lhes oferece segurança nem esperança. Para eles os EUA representam emprego e segurança. Os migrantes do Mediterrâneo vão à procura do mesmo quando entram ilegalmente na Europa, é um problema mundial.

MS: Os imigrantes ajudaram a desenvolver os EUA a vários níveis.  Não é estranho que agora eles tenham seguido noutra direção?

AR: Certamente esta direção é contrária à história dos EUA, que naturalmente foi e é um país construído por imigrantes. A diferença é que o Sr. Trump criou dois grupos – os bons e os maus imigrantes. Há alguns meses ele disse: “Precisamos de imigrantes da Noruega e não do Médio Oriente”. Acontece que os noruegueses têm um dos melhores níveis de vida do mundo – não é um país que vá enviar um grande número de imigrantes para os EUA. Ele disse claramente que queria imigrantes brancos e cristãos e que não queria imigrantes do Médio Oriente que fossem muçulmanos e da América Central que sejam, no seu ponto de vista, inaceitáveis porque são diferentes.

MS: Acha que outros países vão seguir o mesmo caminho?

AR: Infelizmente outros países já começaram a erguer barreiras. O Governo espanhol já construiu um muro que separa Marrocos de Ceuta para impedir a entrada de imigrantes no país. A Itália está a tentar evitar que os barcos salvem migrantes no mar Mediterrâneo. Os países dos Balcãs, como é o caso da Eslováquia, construíram um muro para impedir a entrada de migrantes na Grécia e na Sérvia.

MS: Mas a Europa defendia a diversidade…

AR: Muitos países continuam a acreditar na diversidade, infelizmente o grande número de refugiados do Médio Oriente, Afeganistão e Iraque testou a paciência de muitos europeus. Por exemplo, há alguns anos a Alemanha aceitou 900,000 refugiados sírios e isso causou uma reação política. O mundo aplaudiu Angela Merkel por ter uma política aberta e generosa, mas o país teve problemas em absorver um número tão elevado de refugiados em tão pouco tempo. Muitos outros países estão a reagir de formas semelhantes.

 

MS: A imprensa compara Trump a Hitler. Acha que os dois têm semelhanças?

AR: Acho que é justo dizer que ele é racista. Ele despreza aqueles que vêm do Médio Oriente, da América Central e da América do Sul. Ele fez vários comentários públicos onde dizia que eles não eram desejados e está a apelar para um pequeno número de americanos que partilha as suas crenças. Acho que é excessivo dizer que ele é o novo Hitler, mas ele é claramente alguém com visões perigosas sobre a igualdade.

MS: Como especialista em imigração, qual é o modelo certo a seguir no caso dos EUA e da Europa?

AR: No caso dos EUA a solução passaria por criar um sistema mais metódico. O sistema deles colapsou, é por isso que muitas crianças estão a ser separadas das famílias e a ser colocadas em prisões. É o facto de ser quase impossível passar a fronteira que faz com que tantos o façam de forma illegal, a solução não é um muro. Os números de ilegais que atravessaram a fronteira do México ou da América Central para os EUA diminuíram drasticamente nos últimos anos.  A ameaça não é uma boa solução, o assunto tem de ser resolvido de uma forma mais organizada, como um grande número de Democratas está a sugerir. Por exemplo deveria existir uma avaliação preliminar dos pedidos de refúgio na fronteira para que os indivíduos pudessem saber se são elegíveis como refugiados sem terem de esperar dois ou três anos.

Mais importante ainda, têm de existir tribunais que possam realizar audiências rápidas. Nem toda a gente vai ser admitida, mas é possível criar um tipo de sistema que distinga aqueles que têm um motivo realístico para serem refugiados e aqueles que são migrantes económicos cujo pedido seria rejeitado.

No caso da Europa a solução varia de país para país. A opinião pública nesses países está a tornar-se cada vez mais hostil em relação à admissão de mais imigrantes. É um problema muito complicado. Os canadianos e a maioria dos europeus são privilegiados por desfrutarem de um alto padrão de vida que é motivo de cobiça por outros povos.

Há aproximadamente 55 milhões de pessoas que estão desesperadas por encontrarem um país que as acolha e isso tornou-se um assunto político. Vai haver pressão constante no futuro em todos os países que puderem integrar imigrantes, nomeadamente no Canadá e nos EUA.

MS: Há pouco falava da paciência dos europeus. E em relação aos canadianos, os refugidos testaram a paciência dos contribuintes?

AR: Acho que os canadianos são muito generosos. Nós mostrámos isso quando nos pediram para recebermos mais refugiados sírios. Acho que há perigo para os imigrantes que atravessaram ilegalmente a fronteira canadiana. Eles fintaram o sistema e entraram pelo Quebec ou Manitoba e desde então que o Partido Conservador nacional vem explorando a ideia de que a imigração está fora de controlo e que estamos a permitir que eles entrem no Canadá ilegalmente. Mas essa ideia não está correta. Eles atravessaram a fronteira legitimamente. O Canadá assinou a Convenção das Nações Unidas para os refugiados, o que significa que eles têm o direito de fazê-lo e que nós temos o dever de ajudá-los. Acontece que os números elevados de refugiados têm criado pânico e esse é um assunto que vai ser discutido nas próximas eleições federais. Por outro lado, o Partido Conservador vai tentar explorar este assunto para minar o apoio dos canadianos ao Partido Liberal. Não está claro como os canadianos vão reconhecer qual dos partidos está certo.

MS: Há duas semanas recebemos uma nova refugiada. O Canadá e a Arábia Saudita enfrentam uma batalha política atualmente, acha que se tratou de uma estratégia política?

AR: Acho que não até porque a jovem Rahaf Mohammed al-Qunun foi recomendada pela Comissão das Nações Unidas para os Refugiados que dá prioridade à segurança das mulheres. A decisão do Canadá em aceitá-la como refugiada é coerente com a política canadiana que protege mulheres vulneráveis. Mas a pergunta faz sentido até porque também não estou certo se o Canadá não tentou embaraçar o governo da Arábia Saudita ao utilizar esta jovem de 18 anos para chamar a atenção para os sérios problemas que as mulheres enfrentam naquele país.

MS: Acha que a extrema direita vai ganhar cada vez mais força no mundo?

AR: Infelizmente há sinais disso em quase todos os países da Europa. Certamente, na Polónia e na Hungria há uma política de não admitir nenhum imigrante do sul do continente europeu ou do Médio Oriente. Basicamente, existe uma política de portas fechadas. Há partidos políticos que são muito hostis à imigração e nas últimas eleições eles ganharam mais apoio. Estamos a enfrentar tempos delicados em que aqueles que acreditam em fronteiras abertas, que defendem que todos os países têm a responsabilidade de ajudar a aliviar a crise internacional de refugiados e argumentam que temos a oportunidade e recursos para ajudar aqueles que estão à procura de uma vida melhor são diariamente questionados. Acho que a grande questão aqui é perceber quantos vão ser admitidos e esse é um assunto com o qual todos os países desenvolvidos vão ter de lidar.

No Canadá e em muitos países europeus não podemos simplesmente abrir a fronteira para todos aqueles que desejam vir. Isso teria uma repercussão negativa nas políticas de imigração e como resultado haveria uma crise política com a qual o governo seria forçado a lidar.

MS: Apesar de tudo, quando abordamos o ministro federal de imigração ele garante que não há pressão nas fronteiras. 

AR: Ele está muito consciente do facto de que aqueles que cruzam a fronteira irregularmente, particularmente do norte do estado de Nova Iorque para o Quebec, representam um problema. Há pouco tempo ele enviou alguns de seus funcionários para várias cidades americanas e ele próprio foi até à Nigéria para deixar claro que o Canadá tem o compromisso de aceitar refugiados, mas não é um país que aceita simplesmente qualquer um.

MS: No Canadá as políticas de imigração mudaram muito nos últimos anos?

AR: No Canadá tornámo-nos mais selectivos, o que é positivo. Estamos também a tentar admitir imigrantes com elevado nível de formação que entram através do Programa Express Entry. São imigrantes que já têm um trabalho à sua espera no Canadá, o que aumenta as probabilidades de virem a ser bem sucedidos.

Cada nação toma as suas próprias decisões e é governada por partidos políticos que têm diferentes visões sobre a imigração. Não podemos abrir a fronteira a todos, mas ao mesmo tempo temos compaixão por aqueles que ajudaram a construir o Canadá. Somos um país de imigrantes e estamos gratos pelas suas contribuições, até porque eles são fundamentais para contrariar a diminuição da taxa de natalidade e o envelhecimento populacional.


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