Comunidade

Sindicato dedica fim-de-semana aos pensionistas e à família

Uma vez por ano a LiUNA homenageia os seus reformados, homens que trabalharam duro anos a fio para construir um dos países mais avançados do mundo. O encontro no Downsview Park é uma oportunidade para rever amigos e antigos colegas.

João Freitas trabalhou 40 anos na construção civil e está satisfeito com a sua pensão. “antigamente era muito difícil conseguir uma vaga numa empresa que pagasse bem, mas apesar das dificuldades valeu a pena. Estou reformado há cinco anos, na altura tinha 63 anos, tenho as duas reformas, a do governo e a da união, mas se vivêssemos só com a do governo andávamos todos a pedir esmola. Já vi alguns antigos colegas que não esperava encontrar, a maioria italianos, e é bom ver que estão vivos e de boa saúde”, informou.

Alzira Freitas acompanhou o marido e ainda se recorda das preocupações daquele tempo. “Às vezes o trabalho atrasava e sem telemóveis nós pensávamos sempre no pior, vivíamos com o coração nas mãos porque não sabíamos se eles tinham sofrido um acidente. Ele era membro da 183 e estamos muitos orgulhosos por poder pertencer a esta família, os benefícios são maravilhosos. Agora na reforma ele continua a trabalhar (risos)”, partilhou.

Luís Oliveira acabou de se reformar e veio pela primeira vez ao evento. “Comecei com a Local 27, na altura o Luís Câmara [atual tesoureiro Local 183] ainda estava com eles, em 1982 mudei para a 183 porque percebi que era melhor. Comecei a trabalhar com 16 anos na jardinagem, comigo éramos sete irmãos e em Thunder Bay não havia muito trabalho por isso viemos para Toronto. Trabalhei em carpintaria, mas dava poucos créditos, então decidi ir para as pontes e para os prédios. A construção é mais livre do que o trabalho numa fábrica, fazemos bons amigos e dá muita satisfação ver o produto final. Agora quero gozar a vida e passar mais tempo com os meus netos, mais do que passei com os meus filhos…”, disse.

Manuel Augusto trabalhou 35 anos na construção e garante que na altura tinha muita força. “Quando temos 20 anos achamos que podemos tudo, mas agora estamos cansados e começam a aparecer os problemas de saúde. Moro perto e gosto de vir a este encontro todos os anos porque encontro pessoas que já não via há muitos anos. É uma forma de matar saudades daquele tempo e de recordar os bons momentos”, referiu.

Hoje o maior sindicato de construção civil da América do Norte tem um dos melhores fundos de pensões do Canadá, mas nem sempre foi assim. “Hoje os nossos membros fazem muito mais dinheiro e os benefícios e as reformas são melhores. O plano de pensões só começou em 1968, nalgumas áreas em 1972, os que trabalham mais duro foram os que receberam menos”, explicou Joseph Mancinelli, vice-presidente da LiUNA para o Canadá.
Os imigrantes continuam a ser a principal mão-de-obra deste sector e o sindicato, em conjunto com o governo, conseguiu chegar a um acordo. O programa é experimental e vai permitir que alguns indocumentados fiquem com uma residência permanente. O Milénio Stadium tentou obter uma reação do Ministro Federal da Imigração, mas Ahmed Hussen recusou-se a entrar em detalhes.

Segundo um comunicado divulgado no dia 5 de julho na página oficial do governo, o programa abrange 500 trabalhadores, no sector da construção civil, na GTA. Em declarações ao nosso jornal, Manuel Alexandre, do Comité dos Trabalhadores Indocumentados (UWC), criticou o timing do governo. “Estamos em ano de eleições e estes 500 trabalhadores são apenas um rebuçado. Estamos satisfeitos porque pelo menos 500 trabalhadores vão poder ficar legais, mas infelizmente o número de portugueses indocumentados é muito maior. Continuamos sem perceber a teimosia do Primeiro Ministro Justin Trudeau porque a nossa economia precisa destes trabalhadores”, lamentou.

A UGT (União Geral de Trabalhadores) esteve presente no evento pela segunda vez e elogiou o trabalho da LiUNA. “A LiUNA representa uma fortíssima componente agregadora dos trabalhadores e de defesa dos interesses de quem trabalha, sobretudo aqui em Toronto e na província de Ontário onde trabalham muitos portugueses. Em Portugal temos um combate efetivo à precariedade e é preciso implementar o acordo de concertação social que fizemos com o governo, esperemos que a próxima votação resolva esta chaga de vez”, informou Carlos Silva, secretário-geral da UGT.

Filho de um trabalhador da construção civil, Jack Oliveira, Business Manager da LiUNA Local 183, não esquece as suas raízes. “Este é o dia em que agradecemos àqueles que construíram os alicerces deste sindicato e por mais que nos esforcemos nunca vamos conseguir pagar o que eles fizeram por nós. Hoje sou líder sindical, mas ainda me lembro de estarmos à espera do meu pai até às 23 horas para jantar porque a empresa decidia colocar cimento e não havia telemóveis”, contou.

António Marcos está reformado há um ano e garante que se fosse pelo governo o dinheiro não chegava. “Estou no Canadá há 29 anos e quase toda a minha vida trabalhei seis dias por semana.
A reforma da união é muito boa, desde que tenhamos os créditos todos, mas a do governo é uma miséria. Os benefícios cobrem quase todas as despesas de saúde e com a construção da nova sede em Vaughan vai ser ainda melhor porque vamos poder tratar de tudo no mesmo local. Eu tenho apneia do sono e com os benefícios da 183 comprei uma máquina que me ajuda a controlar a doença”, avançou.

A LiUNA tem mais de 6,000 pensionistas e segundo a organização, passaram pelo Downsview Park cerca de 1,600.

Dia da Família

Na natureza os progenitores alimentam e cuidam das crias até elas aprenderem a voar sozinhas. com o ser humano é parecido, a família ajuda-nos a dar os primeiros passos e acompanha-nos na jornada da vida.

Em declarações ao Milénio Stadium, Joseph Mancinelli e Jack Oliveira falaram sobre a importância da família nas suas vidas. “Cresci nesta organização e o meu pai era Business Manager e Vice-presidente como eu sou e então está no nosso ADN. Os nossos antepassados lutaram por direitos humanos que hoje damos garantidos, a geração do meu pai teve de lutar por um copo de água no local de trabalho, crescer nesse ambiente faz com que não possamos esquecer esses sacrifícios”, referiu Mancinelli. “Eles são tudo o que temos na vida, eu sou sempre o primeiro a dizer que sou muito afortunado porque a minha grande fortuna é a minha família, a minha esposa e os meus filhos”, afirmou Oliveira.

Cristina London, visivelmente emocionada, falou sobre os benefícios de saúde da LiUNA. “Tenho uma amiga, cujo marido também trabalha para a 183, que sofre de fibromialgia. Ele esteve três anos no hospital e o seguro de saúde pagou tudo porque a medicação para esta doença não é coberta pelo governo”, contou.

A LiUNA dedicou um fim-de-semana inteiro às famílias dos seus membros e as crianças tiveram a oportunidade de alimentar animais, fazer slide e escalada. Jaiden Loder veio com as irmãs e estava entusiasmada por experimentar slide de novo. “Gosto muito de slide porque é divertido, fiz no ano passado e gostei muito da experiência. Hoje vou comer muita comida e vou divertir-me com os meus pais e com as minhas irmãs. Agora estou a comer um gelado, mas depois vou comer um churro”, explicou.

Kia ganhou uma nova família e não podia estar mais satisfeita. “Agora sou irmã da Jaiden, antes éramos primas, mas depois eles adotaram-me. É espetacular ter uma família grande que nos apoia, agora estou na fila para fazer slide, mas depois também quero comer um gelado e um churro”, contou Francois Lambart trouxe os dois filhos que adoraram os insufláveis e que pareciam ter uma energia infinita. “O tempo está extraordinário e eles estão muito felizes. Tenho dois filhos, ela tem três anos e meio e ele tem cinco anos e meio. Eles já disseram que querem experimentar tudo a que têm direito e que querem almoçar hambúrgueres [risos]. O seguro de saúde da LiUNA faz uma grande diferença no nosso orçamento familiar e para além disso eles ajudam muito a comunidade”, justificou.
Maria Pereira tem um filho com necessidades especiais e durante o fim-de-semana aproveitou para sair de casa. “O meu marido já fez várias operações e ainda continua a descontar para a união. É a primeira vez que venho cá, nem sabia que isto existia, ele não gosta muito de sair por isso vim com amigos. Quero aproveitar a boa música, a comida e o sol. Não sei o que faria sem estes benefícios, eu tenho várias doenças e o meu filho tem necessidades especiais, estou muito grata à união”, partilhou.

Na fila para as pinturas faciais encontrámos Lúcia Luz. “Vim com a minha filha e ela queria fazer uma pintura na cara. Vamos aproveitar que é tudo de graça, quando ela acabar vamos ver os animais e depois vamos almoçar. O meu marido desconta, mas os benefícios são muito bons, temos óculos, dentista, consultas… Sou casada há 25 anos e tenho dois filhos, tive muita sorte com ambos, eles são o melhor que Deus me deu.

José Lopes veio com a esposa e aproveitou para passear. “Espero encontrar amigos que já não vejo há muito tempo e com este sol é sempre bom sair de casa. Trouxe a minha esposa, a Margarida, e vamos aproveitar porque hoje é tudo de graça. A família é muito importante e até no trabalho tem de haver solidariedade e camaradagem entre os colegas, nem sempre concordamos em tudo mas temos de nos ajudar uns aos outros”, disse.

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O menu era variado e incluía sobremesa e café. Manuel de Paulos, do Europa Catering, estava preparado para servir num único dia entre 40 a 50,000 refeições. “Já faço isto há alguns anos e a LiUNA cada vez tem mais membros. Temos salsichas italianas, bifanas, vitela e peito de galinha à milanesa”, informou.

No fast food a Pizza Hut e o Harveys também marcaram presença no Downsview Park e Peter Arminious, do Harveys, aceitou falar connosco. “Só vamos ter números oficiais no final do dia, mas normalmente servimos cerca de 13,000 hambúrgueres durante o fim-de-semana, o nosso primeiro ano foi um desastre porque não tínhamos experiência, mas com os anos temos vindo a aperfeiçoar (risos)”, avançou.

Francisco Delgado, da empresa “I love churros”, garante que tem os melhores churros da cidade e num só dia serviu quase 4,000 churros. Vasco Peneda, da Imperial Coffee and Services Inc., num dia serviu 4 mil cafés e a competição não o assusta. “No Canadá temos muitas marcas de café, mas nós trabalhamos com marcas muito boas e por isso é que somos escolhidos pelos nossos clientes”, disse.

Pelo palco passaram vários políticos e o Primeiro-Ministro, Justin Trudeau, deixou um recado aos conservadores. “Nem todas as escolhas são iguais. Temos visto os conservadores a jogaram jogos de divisão e do medo e a colocarem canadianos contra canadianos. Isto é algo que não podemos ter e temos que nos unir como país”, disse no seu discurso.

Doug Ford, Premier de Ontário, passou pelo parque no sábado e John Tory, presidente da Câmara Municipal de Toronto, apareceu no domingo. “Temos planos muito ambiciosos, sobretudo ao nível de transportes e espero que a província não os atrase porque precisamos que obras estejam concluídas o mais rápido possível”, divulgou.
As Forças Armadas também estiveram presentes e muitos foram os curiosos que experimentaram o equipamento. B. Walsh, das Forças Armadas canadianas, disse-nos que os sacos que os soldados levam para a guerra são pesados e que normalmente contém mudas de roupa e equipamento importante para sobreviver no terreno.
Durante o evento a LiUNA sorteou vários prémios e no final entregou dois Chevrolet, um azul e outro laranja.

Joana Leal

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