Comunidade

Quando os filhos continuam com as empresas

A identificação do sucessor e mesmo a motivação da geração mais nova para assumir o negócio de família são os maiores desafios para os líderes das empresas familiares e em Portugal o problema está na formação de quem virá a seguir. Dados da KPMG Portugal recolhidos em 2019 mostram que 43% das empresas nacionais, lideradas por famílias, assume que quer passar a gestão para a próxima geração, mantendo o rumo dentro do seio familiar.

Ao pensar no futuro, 78% das empresas familiares canadianas desejam proteger os seus negócios como o ativo familiar mais importante. Segundo um estudo da PwC Canada desenvolvido em 2018, cerca de 60% das empresas familiares canadianas querem manter a família ligada ao sucesso dos seus negócios e deixar um legado. Quando se trata de planear a sucessão, apenas 19% destas empresas têm um plano delineado e 71% admite que já discutiu a questão com outros familiares.

Esta semana o Milénio Stadium ouviu os fundadores e proprietários de três empresas familiares bem conhecidas da comunidade portuguesa que reside em Toronto. Escolhemos empresas de setores diferentes que em comum têm o facto da sua continuidade ser assegurada pela próxima geração.

 

Carlos Pires com os filhos Nilton e Denis - Milenio Stadium - Toronto

Churrasqueira Bairrada

A Churrasqueira Bairrada, fundada em 1989, continua hoje nas mãos do fundador que se recorda bem das dificuldades quando abriu o primeiro dos seus restaurantes. “Posso dizer que já vinha com a ideia no avião (risos), quando emigrei para Toronto em 1973 não sabia falar inglês, mas tinha muita vontade de abrir o meu próprio restaurante. Trabalhei 14 anos na construção civil, juntei dinheiro e quando abrimos na College Street a comida portuguesa era pouco conhecida e o primeiro ano foi muito difícil”, contou Carlos Pires ao nosso jornal.

Pires diz que o seu lema de vida é “lutar, trabalhar e vencer” e lamenta que as novas gerações não tenham a mesma força de vontade. “Nasci em Oiã, uma freguesia do concelho de Oliveira de Bairro, no distrito de Aveiro, e estudei apenas até à quarta-classe. Éramos 11 irmãos e alguns emigraram para a Venezuela e outros para o Brasil e tiveram sucesso com padarias e bares. Os novos imigrantes hoje não vêm dispostos para trabalhar, ninguém quer fazer horas extra. Eu começo a trabalhar cedo e nunca tenho hora para sair”, explicou.

Hoje com 73 anos, o empresário assume que vendeu um dos seus restaurantes em Mississauga “na altura certa” e hoje mantem três localizações em atividade: St Clair, Dundas e College. Ambos os filhos cresceram nos restaurantes e mantêm a paixão pelo ramo. “O Nilton e o Denis começaram como gerentes, mas sempre lhes transmiti que um gerente tem de dar o exemplo aos seus funcionários, o que implica ser dedicado e dinâmico. Quando o meu filho mais velho (Nilton) começou a trabalhar comigo dei-lhe 30% do restaurante em Mississauga, achei que era um incentivo para ele se esforçar. Entretanto fechámos esse espaço porque no ano passado tivemos uma proposta de compra irrecusável. O Denis formou-se em Administração de Empresas e penso que com o conhecimento que adquiriu vai ser capaz de fazer com que a empresa cresça”, referiu.

O empresário acredita que os filhos vão continuar com a Churrasqueira Bairrada e apesar da sua idade avançada continua a apoiar na empresa. Questionado pelo Milénio Stadium se os filhos tinham escolhido voluntariamente continuar com a empresa da família, Pires admite que foi um processo muito pacífico. “Quando comprei o restaurante de Mississauga o Nilton já trabalhava comigo e o Denis quando acabou a universidade teve duas propostas de trabalho, mas disse que preferia trabalhar na empresa da família. Nunca fiz pressão para que continuassem com a nossa empresa, mas quando eram jovens fiz questão que me acompanhassem no restaurante para perceberem o que a vida custa. O nosso objetivo sempre foi ter preços baixos, servir bem a nível de quantidade e tratar bem o cliente, espero que continue a ser assim nos próximos anos”, informou.

Quando tinha quatro restaurantes a Churrasqueira Bairrada empregava cerca de 65 pessoas, mas a pandemia e o encerramento do restaurante de Mississauga obrigaram a reduzir funcionários e hoje empregam apenas 20 pessoas. “Fizemos lay-off a 45 funcionários e o CERB também nos trouxe algumas dificuldades porque alguns funcionários preferiram ficar em casa a receber o subsídio federal de $2,000 mensais. Não exijo dos meus filhos porque eles já são crescidos, mas sempre tentei dar o exemplo para os estimular. Hoje sou avô e não vejo nenhum dos meus netos a continuar com esta empresa porque o mundo está muito diferente e eles parecem já ter outros interesses profissionais quando crescerem. Tentei transmitir aos meus filhos a mesma educação que recebi e acho que eles como empresários têm a possibilidade de continuar a crescer, mas agora tudo depende deles”, adiantou.

 

os filhos continuam com as empresas - Milenio Stadium - Toronto

Macedo Winery

A Macedo Brothers começou em 1971 com um supermercado fundado pelos irmãos António e Francisco Macedo. Mais tarde o irmão mais novo, David Macedo, juntou-se à empresa familiar e em 1972 foi a vez de um outro irmão, João Macedo, se juntar ao Macedo Brothers Supermarket. Em 1977 a empresa começou a vender uva e em 1985 os irmãos decidem vender o supermercado, mas David Macedo decide continuar a vender uva e mosto no 30 da Ossington Avenue. A família Macedo é natural da ilha Terceira, nos Açores, e David Macedo emigrou para o Canadá com apenas 13 anos. Em 1998 abre a segunda empresa no 50 da Caledonia Park Road e em 2012 criaram a Macedo Winery, um espaço onde vendem vinho engarrafado de Portugal, Itália, Argentina, Canadá e Califórnia. Em 2019 abre a Downtown Winery, uma adega onde os mais jovens podem beber um copo de vinho num ambiente descontraído.

Em entrevista ao Milénio Stadium, Ivone Macedo, esposa de David Macedo e contabilista na Macedo Wine, explicou-nos que esta é a altura em que a empresa tem mais trabalho e contou-nos que a adega surgiu graças a uma mudança no mercado. “As comunidades portuguesa e italiana que residem em Toronto estão muito envelhecidas e os novos imigrantes não têm esta cultura do vinho que os europeus tinham. Para além disso os mais novos já não fazem o seu próprio vinho.

Nos nossos melhores anos, quando a comunidade portuguesa era mais jovem, chegámos a encomendar cerca de 100 trelas de uva por ano, agora importamos da Califórnia apenas metade porque os hábitos dos nossos clientes mudaram”, disse.

Em 2011 a Macedo Winery começou a importar vinhos de Portugal das regiões do Alentejo e da Beira Interior e em breve prepara-se para importar também da região do Douro. Em 2008 as duas filhas entraram para a empresa depois de estudarem no Culinary Institute of America em Napa Valley, São Francisco, Califórnia. O interesse de Aimee e Daisy Macedo surpreendeu os pais porque esperavam que ambas apostassem noutras áreas profissionais. “Sempre quisemos que elas estudassem, mas não nos passou pela cabeça que fossem ambas para esta área. Pela minha própria experiência, sei que para uma mulher é difícil conciliar a vida profissional com a maternidade. Mas claro que apoiamos porque esse é o papel da família”, avançou.

Mais recentemente as duas irmãs, que têm apenas um ano e meio de diferença, concluíram na George Brown o WSET de nível 2, um certificado em vinhos e bebidas espirituosas. Hoje são a continuidade da empresa familiar e Aimee Macedo é diretora da Downtown Winery, o último projeto do grupo, enquanto que Daisy Macedo ocupa a direção da Macedo Winery.

Ivone Macedo antecipa mudanças neste setor a curto prazo e defende que é preciso ser inovador para sobreviver. “Cada vez menos pessoas fazem o seu vinho em casa e acredito que as adegas são o futuro. Os portugueses e os europeus já não emigram para o Canadá e os que vivem cá estão envelhecidos. Nós sempre transmitimos as nossas tradições aos nossos filhos, mas os novos imigrantes que vêm de outros continentes não têm esta cultura do vinho. Julgo que o futuro deste setor passa por adegas como a Macedo Winery e a Downtown Winery. São espaços recentes que precisam de mais tempo para se consolidarem no mercado, mas estou confiante que vamos ter sucesso. A Downtown Winery demorou mais algum tempo a abrir do que esperávamos porque este tipo de licença é difícil de conseguir”, antecipou.

A Downtown Winery aceita reservas para pequenas festas até 25 pessoas e para além dos vinhos é possível petiscar neste bar onde não falta a célebre sardinha portuguesa. A Macedo Wine tem 10 funcionários a tempo inteiro e os valores da empresa são a excelência do atendimento ao cliente e um produto de grande qualidade. A próxima geração da família compromete-se a dar continuidade aos valores do grupo Macedo.

 

Cynthia e Jason Prazeres trabalham ambos na empresa fundada pelo pai, Jack Prazeres - Milenio Stadium - Toronto
Cynthia e Jason Prazeres
Jack Prazeres com a esposa - Milenio Stadium - Toronto
Jack Prazeres com a esposa

Senso Group

Jack Prazeres fundou o grupo Senso em 2011, uma empresa especialista em material de construção civil e aluguer de equipamento. Hoje os dois filhos trabalham na empresa e o empresário garante que não fez pressão para que isso acontecesse. Cynthia Prazeres tem 30 anos e é formada em Biologia pela Carleton University e Jason Prazeres tem 27 anos e estudou Economia na Universidade de Toronto. “Quando eles acabaram a universidade não sabiam o que queriam fazer. A Cynthia não gostou do seu curso e começou a trabalhar no Senso provisoriamente, já lá vão sete anos. Os dois adoram o que fazem e a Cynthia está mais envolvida com as vendas e o Jason está na contabilidade. O Jason só começou a trabalhar connosco em 2016. Nunca fiz pressão para que nenhum dos dois viesse para o Senso, mas foi o que acabou por acontecer”, contou.

Questionado sobre os desafios de trabalhar diariamente com a família, Prazeres assegura que é uma mais valia. “É muito mais fácil porque às vezes nem precisamos de falar, basta apenas um gesto e é mais do que suficiente para nos entendermos. Os nossos funcionários dizem que gostam do ambiente familiar porque há mais respeito e entreajuda. Mas temos uma regra, em casa não falamos de negócios porque já chegam as horas que passamos juntos durante o dia”, informou.

Sobre o futuro da liderança o grupo Senso tem três candidatos de peso: “Nunca pensei nisso, mas tanto os meus filhos como o gerente Mário Nunes são excelentes opções para assumir o meu lugar quando me reformar (risos). Se bem que acho que a reforma a 100% nunca vai acontecer. Talvez nos próximos três anos reduza as horas de trabalho diárias e as responsabilidades…”, adiantou.

Independentemente de quem assumir os destinos da empresa, Prazeres vai continuar disponível para aconselhar e ajudar na tomada de decisões. “Sou apologista de que duas cabeças juntas pensam melhor do que uma. Claro que nem sempre acertamos, mas quando pensamos em conjunto a margem de erro diminui. Para já estamos com três localizações, se incluirmos os nossos escritórios em Mississauga, mas acho que um dia imagino o Senso a crescer para cidades como Milton, Guelph ou Innisfill, talvez mais duas localizações, quem sabe. Mas a pandemia veio mudar tudo e estamos a contar com um primeiro semestre de 2021 muito difícil para este setor”, avançou.

Os valores do grupo Senso são o cumprimento dos prazos de entrega, a qualidade dos produtos, bons preços, material em stock e honestidade. “Costumo dizer que se o cliente não comprar cá vai a outro lugar qualquer. Por isso temos a obrigação de ser honestos e de informar bem o cliente sobre o que está a adquirir. Por isso é que apostamos muito na formação dos nossos funcionários. A entrega dos produtos nos prazos estipulados também é muito importante, se bem que é cada vez mais difícil numa cidade como Toronto porque uma entrega que antes demorava três horas agora demora seis porque temos muitas ruas encerradas”, enumerou.

Desde que os filhos entraram na empresa o empresário reconhece melhorias significativas em algumas áreas. “A Cynthia e o Jason ajudaram a melhorar o nosso posicionamento nas redes socias, apostámos mais em informatização e melhorámos o marketing. Acredito que esta inovação permitiu melhorar os nossos serviços e captar mais o interesse do cliente na nossa empresa. Tenho duas netas e não sei se elas vão dar continuidade a esta empresa, mas acredito que as pessoas devem escolher um trabalho numa área que gostem e onde se sintam realizadas”, revelou.
O Senso está localizado no 150 da Rockcliffe Court e no 6 da Hyde Ave em York.

Joana Leal/MS

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