Comunidade

As danças carnavalescas: o que são afinal?

Graças ao horário e à lista de associações em Toronto onde iriam decorrer as danças carnavalescas publicados neste jornal, não tive dificuldade em planear assistir a este banquete carnavalesco para os sentidos. Soube que seriam oito grupos de danças a percorrer sete associações (com na Terceira, cruzam a ilha), entre as 19h de sábado e as três horas da manhã. Fui à Casa do Alentejo para assistir ao espetáculo organizado pela Irmandade terceirense de Sto. António.

O meu ciclo circadiano de madrugadora não me teria permitido ficar acordada até às três da madrugada sem que o meu domingo ficasse estragado. Portanto, dei a mim mesma o prazo de quatro horas para ver as danças, ou seja metade do programa. Tudo começou a horas mas estas danças antigas seguem um ritmo de outrora. Com mais de 40 elementos, cada dança durava, tradicionalmente, para cima de uma hora; agora com menos elementos, duram “apenas” cerca de uma hora, com 15 minutos de intervalo entre cada grupo. Baseadas como são nos longínquos autos de Gil Vicente, consistem em três partes: uma apresentação musical e de dança, o “assunto” – a parte teatral entremeada de música e dança -, e a despedida musical. O bailinho é uma versão mais recente e ligeira, inspirada na revista, e sempre travestida no assunto.

A audiência, vestida com roupa normal, encheu o salão nobre da Casa sentada em volta de mesas cheia de doces, salgados e sanduíches. Ela participa nas danças apenas pelo deleite, expresso pelo aplauso, e o gozo pelo riso, à medida que se vai desenrolando o “assunto”, inteiramente dito em verso num delicioso sotaque terceirense. Sabemos que na base do Carnaval está a inversão da pacata ordem social: homens vestem-se de mulher, e vice-versa, e interagem brejeiramente. Ou faz-se crítica social, criticam-se origens regionais e étnicas, e põe-se em destaque um problema de atualidade de maneira cómica e exagerada.

Por exemplo, o assunto do Bailinho da Banda do Senhor Santo Cristo passa-se nos tempos medievais. O rei quer casar a sua filha hiperfeminina no vestir mas muito masculina na estatura. O rei chama os seus cavaleiros nobres para ela escolher o que mais lhe agradar, o que é feito, depois da vénia, exibindo o tamanho da sua espada; as espadas, desembainhadas com largos gestos, vão da grande à pequena… e à flácida.

Para além desta brejeirice inesperada, que não foi de mau gosto, os cavaleiros, de armadura e saiote, pareciam autênticos tal a boa confeção das roupas e adereços e a qualidade da música e da dança, aliás comum a todos os grupos. Um outro grupo, constituído por cerca de 80% por jovens nascidos aqui, Grupo de Jovens das Tradições da Terceira tratou com imensa graça o problema do fosso das gerações entre um pai imigrante, trabalhador na construção, e um jovem alto e encorpado que, protegido pela mamã, tem dificuldade em arranjar emprego, e passa os dias agarrado ao computador e ao telemóvel. É decidido que ele vai mesmo trabalhar nas obras com o pai. Com grande engenhosidade, apareceu no palco o adereço “camião” em que foram para as obras. O primeiro dia de trabalho do jovem resultou desastroso para todos, acabando com o pai a expulsá-lo do local das obras antes que houvesse sérios ferimentos causados pelas pesadas “ferramentas” de trabalho.

Para completar este quadro breve das danças terceirenses, diria apenas que estes grupos têm uma equipa diligente a trabalhar por detrás dos bastidores, sendo praticamente todos voluntários. Estas danças tiveram o apoio dos Amigos da Terceira.

O Carnaval é tempo de comédia, a Páscoa tempo de tragédia. Ficaremos portanto a aguardar, com expetativa, as Danças pascoais, ditas de Espada, já em preparação: outro tesouro que ainda se cultiva pela raiz, anualmente, na nossa comunidade.

Ilda Januário/MS

 

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