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Ana Paula Ribeiro resume funções no Canadá na coordenação do ensino de português, com nota positiva

Humberta Araujo

Milénio Stadium – O trabalho da doutora Ana no Camões está a chegar ao fim. Quais foram os desafios mais importantes que encontrou ao chegar ao Canadá, e quais as estratégias que teve de adotar?
Ana Paula Ribeiro – Quando esta Coordenação do Ensino Português assumiu as suas funções no Canadá, sob a tutela do Camões, Instituto da Cooperação e da Língua, em outubro de 2010, tentámos, numa primeira fase, compreender a realidade do ensino de português e as características do público a que se dirigia, para, numa segunda fase, delinear um plano de ação que fosse ao encontro das necessidades, tanto do corpo docente como dos alunos que, na grande maioria, estudavam a língua dos seus pais ou avós na perspetiva de língua materna, com manuais pouco adequados à nova realidade, o que originava desmotivação e gradual desinteresse pela preservação da língua. A nova estratégia delineada incluía: formação de professores; fortalecimento das relações com as diferentes Direções Escolares que ofereciam o ensino da língua portuguesa para que este fosse preservado ou mesmo alargado; incentivo da leitura em português entre os mais jovens, sem ignorar o público adulto; promoção da língua portuguesa e das culturas portuguesa e lusófonas entre as diferentes comunidades de língua portuguesa e a população canadiana, em geral; uma maior credibilização do ensino de português com a sua atualização e qualificação e a certificação das aprendizagens em língua portuguesa. Cerca de 7.200 alunos, com idades entre os 4 e os 18 anos, estudam a língua portuguesa em todo o Canadá, em escolas de diferentes Direções Escolares e em escolas comunitárias. O grande desafio é conseguir chegar a todos estes alunos e a todos os professores envolvidos neste processo de ensino da língua portuguesa, sendo o Canadá o segundo maior país do mundo.

Milénio Stadium – Nesta perspectiva, presumo que a formação de professores, modernização de materiais didáticos e os protocolos assinados com os sistemas públicos de ensino, foram das estratégias mais significativas?
APR – Considerámos, desde logo, prioritário dar-se início a um plano de formação de professores em todo o país com formadores vindos de Portugal, de França e dos Estados Unidos, mas também com docentes que lecionam em universidades canadianas, com o objetivo de transmitir uma nova abordagem no ensino do português como língua segunda ou língua estrangeira, propondo, ao mesmo tempo, a utilização de novos materiais de ensino da língua, mais adequados à realidade do público atual e centrados no desenvolvimento da comunicação e na interação. Entre 2011 e 2017, foram oferecidos mais de 10.000 manuais, atuais e numa perspetiva de ensino de uma língua segunda, para serem utilizados pelos alunos das escolas abrangidas por diferentes Direções Escolares e das escolas comunitárias e privadas, por vezes, num sistema de reutilização.
O Plano de Incentivo à Leitura no Ensino Português no Estrangeiro, desenvolvido e proposto pelo Instituto Camões, pretende contribuir para a difusão da língua e da cultura portuguesas recorrendo à sua literatura, através de ações de incentivo à leitura de obras de autores de língua portuguesa. Foram oferecidas várias mini-bibliotecas a diferentes escolas com ensino de português, um pouco por todo o país, e a algumas bibliotecas públicas. Muitas escolas têm recebido, desde 2011, a visita de escritores infanto-juvenis que se deslocam de Portugal, estimulando-se e apoiando-se o trabalho dos docentes na preparação prévia dos seus alunos para estas visitas.
Tendo consciência que cerca de 5.500 alunos estudam português inseridos em programas oferecidos por diferentes Direções Escolares, seja num sistema integrado ou extracurricular, considerámos prioritário estabelecer uma relação forte com as mais importantes. Assim, foram assinados protocolos de cooperação com sete Direções Escolares, o que nos permite um trabalho de colaboração, a nosso ver, muito relevante.

Milénio Stadium – Relativamente às escolas nas organizações comunitárias, como as encontrou e o que é que acha que deixa de positivo para os/as docentes e as crianças?
APR – As escolas comunitárias têm usufruido de todo o apoio que já referi e o trabalho de proximidade que tem sido realizado tem sido muito positivo. Gostaria só de referir que temos, neste momento, três escolas associadas do Instituto Camões: a Escola do First Portuguese, em Toronto, a Escola Luís de Camões, em Otava, e a Escola Portuguesa de Manitoba, em Winnipeg.

Milénio Stadium – Há que falar também da cooperação com outras instituições, nomeadamente a Alliance Française ou o Goethe-Institut. Na prática, o que espera (esperou) deste relacionamento?
APR – Este relacionamento e colaboração tiveram início com a abertura de um Centro de Língua Portuguesa Camões que funcionou, numa primeira fase, nas instalações do Consulado de Portugal em Toronto, e que hoje se encontra em funcionamento na Universidade de Toronto. Este é um Centro autossustentável e gerador de receita, que oferece aulas de português europeu e de português do Brasil a adultos e que permitiu colocarmo-nos como parceiros da EUNIC Canadá, lado a lado com outros institutos culturais europeus presentes em Toronto – Alliance Française, Goethe Institut e Istituto Italiano di Cultura – e, em parceria, organizamos eventos, especialmente na área da literatura e da língua, que dão uma maior visibilidade e projeção da língua e da cultura portuguesas.

Milénio Stadium – Já quase de partida, surge uma nova organização para professores. Qual o objetivo da mesma?
APR – Foi, de facto, criada uma Associação de Professores de Português no Canadá que foi apresentada no passado dia 28 de abril. Esta associação visa unir os professores de português de todos os níveis de ensino, que se encontram espalhados por todo o Canadá. Espera-se que a comunicação e o trabalho em colaboração sejam fortalecidos.

Milénio Stadium – Relativamente ao Centro de Língua, agora realojado na Universidade de Toronto, surgiram algumas críticas, nomeadamente, no que diz respeito à sua dimensão e possibilidade de competir com o programa de ensino de português naquela Universidade de Toronto. Como é que vê essas críticas?
APR – Nunca ouvi essas críticas que só podem vir de quem desconhece a realidade e o contexto em que este Centro de Língua funciona. Este é um Centro que veio fortalecer o Programa de Português da Universidade de Toronto. São oferecidas aulas a adultos que não são alunos da universidade, numa forma de promoção da nossa língua muito mais abrangente, e o Centro, que se localiza junto ao Departamento de Espanhol e Português, serve de biblioteca para todos aqueles que têm interesse pela língua portuguesa e pela literatura lusófona. Além disso, muitas das atividades culturais que são programadas pelo Centro de Língua dirigem-se a um público geral, sendo que a universidade disponibiliza diferentes espaços para as nossas atividades. Este Centro nunca poderá, pois, competir com o Programa de Português, mas sim fortalecê-lo e dar-lhe mais visibilidade. Os Centros de Língua do Instituto Camões localizam-se, por norma, em universidades. Congratulo-me, pois, por este, sendo o único Centro de Língua Portuguesa no Canadá, ter sido recebido por uma das mais prestigiadas universidades do país.

Milénio Stadium – Fazendo um balanço, como vê no futuro o ensino da língua no Canadá, e quais serão os grandes desafios para quem a vem substituir, e para aqueles e aquelas que querem continuar a ensinar a língua portuguesa?
APR – Foi percorrido um longo caminho e acredito que muito trabalho foi feito em prol da promoção da língua portuguesa. Esse caminho não termina aqui. Muito há sempre por fazer, o que, de resto, é um bom sinal, pois significa que temos uma língua viva e ativa e uma cultura rica que temos de preservar, divulgar e promover no Canadá.

Milénio Stadium – Vai sentir saudades de Toronto e qual é agora o próximo passo profissional?
APR – Regresso por motivos familiares. A família é, para mim, muito importante e sinto necessidade de voltar a estar junto dos meus dois filhos, da família e dos meus amigos. Há que, por vezes, avaliar o momento exato para se tomar uma decisão, mesmo que seja difícil de tomar. Depois de quase oito anos neste país, levo comigo muitos momentos inesquecíveis e deixo muitos amigos que sei que irei revendo em Portugal sempre que aí forem de férias. Volto ao ensino do português como língua estrangeira, que é a minha área, e retomo a criação de manuais de ensino de português para adultos.

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