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A hora do Manata

Um pequeno grupo de conterrâneos viciados, no melhor sentido da palavra, na beleza e na calma do High Park, chegava ao parque alguns minutos antes das 8h. Religiosamente, às 8h em ponto, o grupo partia sem esperar por ninguém. Quem não viesse nesse domingo, poderia vir no seguinte. Mas quem nunca faltava era Josué Manata mesmo quando, na época de Natal, tinha de abrir a ourivesaria, a Manata Jewellry, ao domingo.

Fizesse frio ou calor, a correr ou a caminhar a passo estugado, o grupo subdividia-se segundo o ritmo de cada um, para fazer a volta de uma hora – do estacionamento do Café Grenadier, passando pela marginal do lago Ontário e regresso ao ponto de partida. Apenas uma chuvada forte, um nevão ou o chão escorregadio punham cobro a esta prática dominical. Mesmo assim, até no grande nevão de 1999, em que o Mayor Mel Lastman apelou ao exército para limpar as ruas, o Josué não desistiu do passeio, enterrando-se na neve com o Adelino da Silva!

Chegados à beira do lago, o grupo atravessava a pequena ponte para Etobicoke a fim de contornar o rochedo do Sheldon Lookout na entrada do miradouro, donde se pode admirar a majestade do lago e, a leste, a cidade de Toronto. Regressava-se ao estacionamento do parque, o ponto de encontro, seguindo a curva sinuosa do Grenadier Pond, reservatório de chuvas alimentado por um ribeiro que desagua, subterraneamente, no grande lago. O Grenadier pode ou não espelhar as margens e a folhagem em todo o seu esplendor, consoante a brisa que lhe encrespa as águas, mas a presença dos patos e dos cisnes é uma constante.

O percurso era sempre o mesmo, mas as estações e as condições meteorológicas davam-lhe uma aparência diferente. Após uma hora em franca caminhada ou corrida, entrávamos no café-restaurante, ou na esplanada, para o pequeno-almoço. Antes das 10h, todos regressavam a casa, cansados, mas com a alma renovada por mais um encontro com a natureza.

Havia quem se queixasse que 8h da manhã era demasiado cedo para já estar no parque. As queixas aumentavam antes da mudança da hora por estar ainda muito escuro. Resistiu-se sempre à tentação de mudar a hora do encontro, já que o encanto do parque é bem maior na alvorada.

O grupo existe desde 1994, por iniciativa de Jorge Cação e Rui Martins, então estudantes de Medicina, e chegou a contar com cerca de 30 participantes. Mas a alma do grupo passou a ser Josué Manata, o homem da hora exata que consertava qualquer relógio, como sugeria o anúncio da rádio. Poderiam vir três, seis ou nove madrugadores, raramente chegava à dúzia, mas a verdade é que, uma vez adquirido o hábito do exercício semanal no High Park, o maior pulmão da cidade com 161 hectares, se torna difícil resistir ao seu chamamento. Deixei de poder participar há alguns anos, mas o grupo ainda existe, restando meia dúzia de entusiastas.

Escrevo estas linhas no dia em que teve lugar o velório de Josué Manata, falecido a 9 de novembro. Atingido pela doença de Parkinson, teve de se aposentar antecipadamente e entregar a responsabilidade da sua adorada ourivesaria ao filho Gary. Gradualmente, deixou também de poder cumprir o ritual sagrado do passeio no parque e nas margens do lago, apesar do apoio da irmã Lucinda e do cunhado Manuel Estevão. O High Park era o seu lugar predileto e, se realmente o espírito sobrevive à morte do corpo, deverá ser entre a família e o parque que o do Josué em paz descansa e se deleita.

Ilda Januario/MS

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