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10% dos consumidores de canábis ganham dependência

Depois do Uruguai, o Canadá prepara-se para legalizar a canábis a 17 de outubro. O uso recreativo desta substância já é permitido em nove estados norte-americanos e em Portugal a canábis foi descriminalizada em 2001.

Para o governo canadiano a legalização vai diminuir o acesso das crianças a esta droga. “É muito fácil para os nossos filhos obter marijuana e para os criminosos colherem os lucros. Hoje, mudámos isso”, escreveu Justin Trudeau, PM do Canadá, no seu Twitter, quando a lei foi aprovada em junho deste ano.

Outro dos argumentos apontado pelo Governo Liberal é que a legalização vai reduzir o crime associado ao tráfico. Segundo o Statistics Canada, no mercado negro esta substância representa 6,2 mil milhões de dólares.

A pouco tempo da legalização para uso recreativo fomos falar com um especialista sobre este tema polémico que tem feito corer muita tinta nos media nos últimos meses. Ilann Nachim é formado pela Universidade de Toronto e é médico especialista em dependentes químicos. Apesar de lidar de perto com esta droga, Nachim deixa algumas críticas ao governo. “Era preferível termos seguido o exemplo de Portugal e termos começado pela descriminalização da canábis e de todas as drogas no geral. Vários estudos concluem que o processo de Portugal correu bem e o Canadá poderia ter retirado ilações a partir de um caso de sucesso”, disse.

Canadá é um dos países com maior número de consumidores jovens de canábis do mundo

De acordo com o Statistics Canada, no Canadá 4,2 milhões de jovens consomem canábis para uso recreativo e cerca de 56% deste universo admite que consome a droga diaria ou semanalmente. O especialista sustenta que esta é uma realidade preocupante. “O Canadá é um dos países com maior número de consumidores jovens de canábis do mundo, penso que no último ano a percentagem foi na ordem dos 25%. Como médico e cidadão sabemos que os jovens estão a formar os seus cérebros até aos 20 e poucos anos, a ciência ainda não tem um número exacto, o que sabemos é que a substância afecta o cérebro e a aprendizagem, o que é motivo de preocupação para todos nós”, explicou.

Apesar de ser considerada uma droga leve, a canábis causa adição. “Nós temos evidências de adição e eu próprio trato consumidores com dependência de canábis. Vários estudos concluem que 9% ou 10% dos consumidores ganham dependência. É uma percentagem inferior à dos dependentes das chamadas drogas pesadas, como a heroína ou a cocaína”, refere.

Os principais consumidores de canábis são os homens, que normalmente não reconhecem que têm um problema.“Sabemos que os homens são os maiores consumidores e que a substância agrava o quadro clínico dos usuários com ansiedade e depressão, embora a maioria deles não o reconheça. Aliás essa é uma das características dos usuários, normalmente eles não reconhecem que têm dependência e parte do trabalho do clínico é alertá-los para sintomas de dependência”, justificou.

Os médicos não aconselham a utilização da canábis na gravidez ou em pessoas cujas famílias têm historial de crises psicóticas. Ao contrário do consumo de álcool, os médicos não têm um número que defina o uso recreativo. “No álcool cada país tem um número que serve de referência, mas com a canábis ainda não sabemos. Não recomendamos o consumo diário nem para controlar problemas médicos. O melhor é não usar de todo”, sublinhou.

Um dos assuntos que está na ordem do dia são os efeitos da canábis durante a condução. Segundo a comunidade médica os consumidores devem esperar entre seis a 12 horas até que os efeitos da susbstância se deixem de manifestar no organismo. O governo federal anunciou esta semana que vai disponibilizar $161 milhões para que a polícia adquira equipamento para detector a presença da droga na saliva dos condutores. As empresas garantemque o equipamento vai estar pronto dentro de 4 a 6 semanas, mesmo a tempo do arranque da legalização.

Produto de rua contaminado com bactérias fecais

Com a proximidade da legalização, o número de lojas que vende canábis aumentou em todo o país. Segundo o Statistics Canada, nestes locais um grama de canábis deverá rondar os $8.18 e o produto terá um elevado grau de qualidade. “Os produtores vão ser controlados pelo Health Canada, o que significa que o produto vai ser testado para bactérias, fungos e metais pesados. Os laboratórios controlam também a concentração de duas das principais substâncias da droga – o THC (tetrahidrocanabinol) e o Canabinol (CBN). Muitas vezes o produto de rua está contaminado com bactérias fecais que têm riscos para a saúde”, disse.

Vários estudos sugerem que a canábis é eficaz no tratamento de doenças neuropáticas e oncológicas, tal como Nachim nos explica. “Há evidências científicas que provam que a canábis pode ser benéfica no controlo da dor, da falta de apetite, na diminuição dos enjoos, na regularização do sono, na melhoria do sistema digestivo e na melhoria de sintomas associados à quimioterapia”, sustenta.

O médico compara o atual debate em torno da canábis com o que aconteceu com o álcool nos anos 20 nos EUA. “O álcool chegou a ser proibido nos EUA e nessa altura muitas pessoas compravam no Canadá e exportavam ilegalmente. Quando se tornou legal as pessoas tinham de ir ao médico para conseguirem uma receita para adquiri-lo”, avançou. Nachim acredita que a droga poderá ajudar no tratamento de doenças que até aqui os fármacos tradicionais não respondem. “O canabinol, uma das substâncias da canábis, tem resultado em crianças com epilepsia. Tem um potencial enorme, não duvido que um dia vá ser utilizado como os opioides que produzem efeitos semelhantes ao ópio e à morfina”, avançou.

Canadianos gastaram $5.7 mil milhões em canábis em 3 meses

Ao contrário de outros fármacos e de outras drogas, é difícil ter uma overdose de canábis. “É quase impossível sofrer uma overdose de canábis, é preciso fumar mais de 100 cigarros de canábis numa hora para parar de respirar. Mas é óbvio que tem outros efeitos”, garantiu. A canábis está também disponível no mercado em óleo, que apesar de demorar duas horas a actuar no organismo, tem um efeito que se pode prolongar entre 8 e 12 horas. Já a vaporização actua em cerca de um minuto e o efeito perdura entre 2 a 4 horas. No Colorado, nos EUA, a legalização do óleo criou problemas porque como a susbstância demora algum tempo a atuar, algumas pessoas aumentaram a dose e foram parar ao hospital.

Nachim deixa um conselho aos potenciais interessados. “Se optarem por consumir canábis informem-se sobre os prós e os contras desta substância e tomem uma decisão consciente porque todas as drogas causam adição”, reforçou.

Cada província vai receber 75% das receitas geradas com a canábis e quem for apanhado a vender a droga a menores pode enfrentar 14 anos de prisão. E, tal como no tabaco, os produtores de canábis terão de lidar com fortes restrições à publicidade. As embalagens não podem ter imagens apelativas ao consumo e terão uma única cor.

A procura pela canábis tem aumentado e o governo estima que a droga gere cinco mil milhões de dólares na economia. Para além de criar postos de trabalho o dinheiro deverá ser reinvestido para tratar dependentes. Nos EUA a legalização fez que com que o consumo de álcool diminuísse e estatísticas recentes indicam que os canadianos gastaram $5.7 mil milhões em canábis entre abril e junho deste ano, um aumento de 1.2%.

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