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No Canadá uma mulher é morta a cada seis dias pelo companheiro

Abrigo Centre regista mais de 700 casos de violência doméstica por ano

Em pleno século XXI a violência doméstica continua a existir até no Canadá e, segundo alguns estudos, mais de 80% dos agressores conhece a vítima. De acordo com as estatísticas uma mulher é morta a cada seis dias pelo seu companheiro, um problema que também afeta a comunidade portuguesa.

“Quando o Abrigo Centre abriu as portas há 29 anos foi para trabalhar sobretudo com a comunidade portuguesa. Hoje 80% dos nossos clientes continuam a ser oriundos de países que falam a língua portuguesa e recebemos, por ano, mais de 700 denúncias de violência doméstica. Sabemos que em 80% dos casos a vítima conhece o agressor. Pode ser o marido, um vizinho ou um familiar. Há casos em que o agressor é um colega de trabalho ou o próprio chefe”, disse Cidália Pereira, dos serviços de aconselhamento do Abrigo Centre.

Embora seja sempre difícil traçar perfis, nos exemplos mais comuns a vítima tem uma relação afetiva com o abusador e depende emocionalmente dele. “As vítimas vão dos 8 aos 80 anos, com pouca ou com muita escolaridade. A vítima pode depender financeiramente do agressor e o abuso pode existir até no namoro, não tem de ser apenas numa relação longa. Às vezes as vítimas não denunciam porque têm medo de perder os filhos e de ficarem sem estatuto legal no país”, contou a técnica.

Com formação superior e com independência financeira, Francisca, nome fictício, contraria os exemplos clássicos e aceitou partilhar a sua história ao nosso jornal. “Eu casei com 18 anos, era muito jovem e estava muito apaixonada. Depois da lua de mel falei com os meus pais e disse-lhes que ele era agressivo e ciumento. O meu pai explicou-me que na sua família não existiam divórcios e a mãe achava que precisávamos de ir mais à igreja. Eu trabalhava e estudava na universidade. Acabei por desistir porque ele tinha ciúmes dos colegas e dos professores. Depois engravidei e ele continuou a beber e a ser agressivo”, confessou.

Passou 17 anos numa relação onde sofria vários tipos de violência e garante que no seu círculo de amigos poucos sabiam a verdade. “Há coisas que nunca tive coragem de contar, nem à minha família… Dói muito e fico com raiva de mim própria por ter aceitado. Trabalho com casos destes e sabia da fórmula, mas eu tinha fé…”, lamentou.

Apesar dos esforços das associações, a separação nem sempre é bem vista e as vítimas acabam por acreditar que os agressores vão mudar. “Sentia-me muito pequena, muito sozinha, mas tinha que manter as aparências e para os outros eramos uma família bonita. A certa altura ele começou a beber e a sair muito. Começou também a ter problemas no trabalho e eu sustentava a casa sozinha. Um dia ele disse que queria ir para o Canadá e que ia ser tudo diferente. Nós viemos e ele até arranjou um trabalho bom, mas não passou muito tempo até ele voltar a reclamar”, explicou.

Embora a violência física seja uma das mais debatidas, também existe a psicológica, a sexual e a financeira que muitas vezes são tão ou mais dolorosas do que a física. “Se eu conversava com um vizinho é porque namorava com ele; se usava batom chamava-me p***; não podia pintar as unhas e usar decotes e saias curtas… Um dia disse-me que não me ia deixar dormir que era para ir bem cansada para o trabalho. Era melhor trabalhar 18 horas fora de casa do que passar 4 horas naquele inferno…. Dizia que me ia matar, usava muitas vezes a frase você vai ver. Há dias ouvi alguém dizer essa frase… Ele batia-me, mas acho que a violência psicológica ainda é pior”, lamentou.

Quanto ao perfil do agressor, em alguns casos já cresceu com a violência dentro de casa e também pode apresentar algumas dependências. “Há estudos que indicam que as crianças copiam aquilo que vêem. Alguns homens imitam o comportamento do pai e exercem o poder e o controlo sobre a mulher com recurso à violência. Pode ser uma pessoa completamente diferente dentro e fora de casa com dependência do álcool, das drogas e do jogo”, exemplificou.

As vítimas devem reunir provas e apresentar uma queixa na polícia contra o agressor. O Abrigo Centre acompanha as vítimas ao longo de todo o processo e ajuda-as a recomeçarem. “Estes casos são sempre difíceis de provar porque é sempre a palavra de um contra o outro. Sobretudo quando se trata de provar violência psicológica, por exemplo. E quando as vítimas recordam a sua história emocionam-se e acabam por se esquecer de alguns detalhes. Depois as autoridades ficam confusas e não entendem quem está a dizer a verdade. Nós não pressionamos ninguém, tentamos apenas ajudar a vítima”, referiu.

Joana Leal/MS

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