Editorial

Mãe, minha Mãe

A história e a genética juntaram-se para fazer das pessoas do mundo o que elas são hoje. Pretas, brancas, amarelas e numa quantidade inumerável de formas e aspetos, que contribuíram para a composição das sociedades mundanas. Ao olharmo-nos ao espelho, consultamos os 5 “Q’s” para nos questionarmos e conseguirmos uma justificação para aquilo que somos e para a forma como nos parecemos.

A maioria está feliz com aquilo que vê quando se olha ao espelho, contudo, são muitos os que não estão satisfeitos. E quem devemos culpar pela nossa aparência? Muitos de nós olham para trás, para os nossos antepassados, para os nossos pais e avós, à procura de respostas acerca da nossa fisionomia, maneirismos e outras características que nos tornam únicos. Às imperfeições atribuímos a culpa à história familiar, enquanto que as perfeições são o resultado da nossa criatividade individual e em nada relacionadas com a procriação dos nossos antepassados.

Sem dúvida que existe espaço para atribuir a culpa às gerações anteriores, e pessoalmente, eu culpo o passado por todas as imperfeições que, quando comparadas, não se adaptam às perceções de normalidade. Claro que não existe tal coisa tal coisa – ser normal ou ser perfeito -, por isso viva com o que tem.

Celebrar o Dia da Mãe leva-me de volta à minha infância e aos sacrifícios feitos simplesmente para conseguir sobreviver. Nos anos 50 e 60, numa aldeia pequena de Portugal que não proporcionava condições para se criarem os filhos, as mulheres procriavam de forma excessiva, sabendo que não poderiam providenciar o conforto necessário às suas crianças. E os homens não se importavam com a quantidade de crianças nascidas, porque não teriam de tomar conta delas. A pobreza e a falta de condições sanitárias resultavam muitas vezes na morte das crianças e das mães. As crianças nasciam em casa, muitas vezes sem qualquer ajuda, nem assistência médica durante o processo do nascimento. Então a questão que se coloca é: como é que a mãe e a criança crescem normais nestas condições?

Dizer “Feliz Dia da Mãe” não compensa o facto de que muitas são ignoradas por longos períodos de tempo e outras são negligenciadas e deixadas em instituições enquanto esperam pela morte. O Dia da Mãe é todos os dias, tendo em conta que elas nunca deixam de o ser.

Mãe, por vezes, eu desejo não ter herdado algumas das suas características, mas agora percebo que é isso que faz cada pessoa ser única, e por isso, neste dia que é seu, aqui estão os meus pensamentos:

  • A culpa não é sua por, aos onze anos, ter tido necessidade de abandonar a sua casa para ir trabalhar longe e nunca mais regressar. Não havia comida suficiente para todos os irmãos e irmãs.
  • A culpa não é sua por ter tido sete filhos sozinha, dos quais dois morreram e dois dias depois de dar à luz já estar a trabalhar no campo.
  • A culpa não é sua por ter tido que trabalhar duro toda a sua vida para poder sustentar a sua família, com pouca valorização por parte dos outros.
  • A culpa não é sua que as preocupações e o isolamento se tenham espalhado pela sua vida, porque a escolha é sua.

… E mãe, há tantas coisas por dizer:

  • Eu perdoo todas as tareias recebidas em criança.
  • Eu perdoo não ter ouvido vezes suficientes a palavra “amo-te”.
  • Eu perdoo não ter sobrado tempo para estimar os seus filhos enquanto crianças.
  • E perdoe-me por não lhe ter prestado mais atenção e por não dizer o suficiente que me preocupava.

Mãe, não tenho outros heróis além de si, e é tudo o que preciso. O espelho não importa, porque nunca mostra o nosso coração.

Amo-te Leontina.
Feliz Dia da Mãe.

Manuel DaCosta

History and genetics have combined to make the people of the world who they are. Black, white, yellow and a myriad of shapes and looks contribute to the composition of the worldly societies. Looking in the mirror, we consult the 5 “w’s” to question and provide justification of who we are and how we look.

Most are happy with what they see in the mirror, however, many are not satisfied. Who should we blame for our looks? Most of us look back our ancestry of parents and grandparents for answers about our physiology, mannerisms and the other characteristics that make us unique. Imperfections are blamed on past familiar history while perfections are the result of our individual creativity and nothing to do with past procreation by our ancestors.

There’s certainly room to spread blame going back generations and personally I blame the past for all imperfections which don’t measure up to perceptions of normality when compared to others. Of course there is no such thing as normal or perfect so live with what you have.

Celebrating Mothers’ Day always takes me back to my childhood and the sacrifices made to simply survive. Small town Portugal in the fifties and sixties did not provide conditions to raise children. Women procreated excessively knowing that they could not provide the comfort that children needed. Men couldn’t care less how many children were born because they didn’t have to take care of them. Poverty and lack of sanitary conditions often resulted in death of many children and mothers. Children were born at home, often without any assistance, including medical assistance, during the birthing process. So the question is how did mother and child grow up to be normal under these conditions?

Saying “Happy Mothers’ Day” does not satisfy the fact that many of them are ignored for long periods of time and others are placed in institutions to be neglected and waiting to die. Mothers’ Day is every day as they never stop being.

Mom, I sometimes wish I hadn’t inherited some of your characteristics, but I now realize that it is what makes each person unique, and so on your day these are my thoughts:

  • It’s not your fault that you had to leave your home at eleven to go work far away and never to return home. There was not enough food for all brothers and sisters.
  • It’s not your fault that you had seven children alone, that 2 passed away and were working the fields 2 days after giving birth.
  • It’s not your fault that you had to work so hard your entire life to provide for your family with little appreciation from others.
  • It’s not your fault that isolation and worries permeate your life now because it’s your choice.

… and mom so many things to say:

  • I forgive all the beatings received as a child.
  • I forgive for not having heard the words “I love you”, enough.
  • I forgive for there not being any time left to appreciate your children as children.
  • Forgive me for not paying more attention to you and saying I care more often.

I have no other heroes but you mom and that’s all I need. The mirror doesn’t matter because it never shows our heart.

I love you Leontina.
Happy Mothers’ Day.

Manuel DaCosta

Redes Sociais - Comentários

Tags
Mostrar mais

Artigos relacionados

Não perca também

Close
Back to top button

 

Quer receber a edição semanal e as newsletters editoriais no seu e-mail?

 

Mais próximo. Mais dinâmico. Mais atual.
www.mileniostadium.com
O mesmo de sempre, mas melhor!

 

SUBSCREVER

Close
Close