Editorial

Então, você é de onde?

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Cartoon by Stella Jurgen

Numa cidade como Toronto, quando se conhece alguém pela primeira vez, a questão acima é inquirida com frequência. E porquê esta questão? Em primeiro lugar, porque as pessoas são curiosas e em segundo a curiosidade pela origem das pessoas alimenta uma combinação de visões racistas, curiosidade cultural ou cria uma opinião baseada na sua importância pessoal em relação ao país de origem.

O mundo está a girar a um ritmo acelerado, independentemente da pandemia global que não tem fim à vista. Na corrida para vencer outros países que tentam o mesmo, a expansão extraterrestre continua com a chegada do Perseverance Rover da NASA a Marte. Se a NASA consegue cumprir este feito, por que raio não podemos ter um processo de vacinação sem obstruções que estão a contribuir para a morte e desespero de muitos? Bom Dia Sr. Trudeau?

A teia de aranha que a cultura é hoje é um tópico explorado e debatido esta semana, na edição do Milénio Stadium. As populações movem-se devido à imigração, a perseguições ou à procura de uma melhor qualidade de vida e assim a identidade cultural do mundo está a ser desafiada de várias formas. Obviamente que a segregação de sociedades continua a providenciar barreiras à liberdade de expressão de muitos e, portanto, desponta na diluição de elementos culturais em várias partes do mundo. Outro fator é a religião, o fanatismo e o racismo que perpetuam como prática em vários países. A divisão entre os ricos e os pobres continua a ser um espinho que impede a igualdade do ter e não ter, garantindo o isolamento da identidade cultural dos mais pobres.

No Canadá, é a Toronto e Ontário que a maioria dos portugueses chama de casa e, sendo assim, será o foco da transição de uma transformação cultural exemplar, tal como a conhecemos. As áreas fora de Toronto estão muito mais avançadas na transição de uma cultura especifica para abraçar outros costumes, integrando-se assim na sociedade canadiana. O foco dos portugueses em Ontário é um exemplo da infusão de circunstâncias, atuais e futuras, que criarão uma confusão inumerável daquilo que hoje chamamos de “a experiência portuguesa”. Num mundo de múltiplas etnias e tradições, quem é que pratica a cultura portuguesa? Os imigrantes que desejam ser integrados noutras sociedades serão continuamente desafiados pelas oportunidades da sociedade na pertença ao país em que vivem. No Canadá, Toronto é a capital de casamentos mistos. Todas as etnias, claro que com algumas exceções, estão a escolher parceiros de outras raças e tradições, tendo como resultado crianças que nascem em casas confusas onde são faladas três ou mais línguas. 45 porcento da segunda geração de imigrantes que são casados e/ou vivem juntos estão a fazê-lo com alguém de outra raça ou etnia. Na terceira geração essa percentagem chega aos 68.

Considerando apenas estas duas estatísticas, podemos assumir que, a menos que se seja muçulmano, que por acaso tem as taxas mais baixas de casamentos inter-raciais por causa das crenças religiosas, a identidade cultural desaparecerá independentemente das tentativas dos provedores de tradições que apelam à proteção e promoção da identidade cultural, sem admitir que se está a tornar uma batalha perdida.

Os casamentos interétnicos podem ser uma experiência positiva e podem engrandecer as vidas dessas pessoas ao introduzir um novo nível de diversidade que de outra forma não poderia ser encontrado. A preservação da cultura só pode ser alcançada se abraçarmos as mudanças que estão por vir, que irão desafiar o nosso processo de pensamento padrão. Isto permitir-nos-á abraçar a mudança em benefício da próxima geração. A cultura portuguesa não se baseará na comida, no vinho e no folclore. Será muito mais do que isso, o que incluirá um processo de pensamento extremamente pessoal acerca da nossa história e daquilo que nos diferencia dos outros. No futuro, não podemos permitir que a insensibilidade ou a ignorância sejam os professores da nossa cultura. A honestidade sobre quem somos e uma mensagem com significado irão conduzir os nossos filhos e netos à mesa, para consumir o melhor que este belo país a que chamamos Portugal tem para oferecer. Não precisamos de assimilação cultural, mas é fundamental que aceitemos e respeitemos as alianças entre as pessoas que respeitam a visão de outros, independentemente das suas preferências sexuais, cor ou práticas culturais. O futuro irá ensinar-nos uma lição que nunca pensámos ser obrigatório aprender. Espere e veja.

Fique bem.

Manuel DaCosta/MS


in english

So, where are you from?

In a city such as Toronto, the above question is constantly asked when you meet a person for the first time. And why this question? Firstly people are nosy but secondly curiosity about people’s backgrounds feeds a combination of racist views, cultural curiosity or creates an opinion based on your personal importance and the country of your origin.

The world is turning at a rapid pace in spite of a global pandemic which has no end in sight. Extra-terrestrial expansion continues with the landing of NASA’s Perseverance Rover on Mars racing to beat other countries trying to do the same. If NASA can achieve a feat of this magnitude, why on earth can’t we get a vaccination program to proceed without the bumps which are contributing to death and despair amongst so many. Hello Mr. Trudeau?

The spider-web which culture is today is a topic being explored and discussed in this week’s Milenio Stadium. As populations move due to immigration, persecution or looking for a better quality of life, the world‘s cultural identity is being challenged in many ways. Of course segregationist societies continue to provide barriers to freedom of speech and expressionism of many thus the dilution of cultural elements in many parts of the world. Other factors such as religion, bigotry and racism are still practiced in other countries contributing to divisionary human rights situations. The division between rich and poor remains a thorn preventing equality of the have’s and have not’s thus ensuring the cocooning of cultural identity of the poorest.

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Cartoon by Stella Jurgen

Toronto and Ontario is where most Portuguese call home in Canada and it’s therefore where the focus will be for the transitioning of cultural transformation as we know it. Areas outside of Ontario are much further along in the conversion from a specific culture to embracing other customs thus entrenching themselves into Canadian society. The focus of Portuguese in Ontario is as an example of the current and future infusion of circumstances which will create a confused myriad of circumstances of what we now might call “the Portuguese Experience’. Who fully practices Portuguese culture in a world of multiple ethnicities and traditions? Immigrants who wish to integrate in other ethnicities within other societies will be continually challenged to assimilate in the country they live in and becoming part-time Luso Canadians. Toronto is the mixed-marriage capital of Canada. Every ethnicity , with of course some exceptions, are choosing partners from other races and backgrounds resulting in children often  born into confused homes where three or more languages are spoken . 45 per cent of second generation immigrants who are married and /or living common-law are doing so with someone of a different race or ethnicity.

By the third generation it raises to an incredible 68 per cent. Considering these two statistics alone we can assume that unless you are Muslim, who happen to have the lowest rates of interracial marriages because of religious beliefs, cultural identity will disappear regardless of attempts by the purveyors of traditions that trumpet the protection and promotion of cultural identity while not admitting that it’s becoming a loosing battle. Interethnic marriages can be a positive experience and enhance people’s lives by introducing a level of diversity not found otherwise. The preservation of culture can be achieved only by embracing the on-coming changes which will challenge our standard thought process. This will allow us to embrace change for the benefit of generations to come. Portuguese culture will not be about food, wine and folklore. It will be about much more which will include a very personal thought process about our history and what differentiates us from others. We cannot allow insensitivity or ignorance to be the teachers of our culture in the future. Honesty about who we are and meaningful messaging will bring our children and grandchildren to the table to consume the best of the offerings of the beautiful country we call Portugal. We do not need cultural assimilation but we do need to accept and respect alliances between peoples who respect the vision of others regardless of sexual preferences, colour and cultural practices. The future will teach us lessons we never thought were required learning. Wait and see.

Be well.

Manuel DaCosta/MS

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