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Subir o Evereste sem sair de Portugal

O atletismo está a atravessar uma fase estranha. A expressão “novo normal” toma conta dos nossos dias, que são talhados por comportamentos contra-natura, que nos obrigam ao distanciamento uns dos outros.

Na corrida, falta-nos o calor e nervoso miudinho que nos faz vibrar antes da cada prova. É certo e sabido que o atleta supera-se quando é capaz de fazer mais e melhor e não tanto quando se equipara com o atleta A ou B. Não é à toa que se diz que nós somos o nosso maior obstáculo. Mas a competição faz parte e, quer se goste ou não, estamos todos com muitas saudades de cruzar uma linha de meta e sentir aquela injeção de adrenalina.

No entanto, o ser humano tem a capacidade de se reinventar até nas circunstâncias mais adversas. E criou novas provas. Mas como se correm provas sem provas?

Nos últimos meses têm-se multiplicado os “challenges”. A aplicação Strava, que quase se pode chamar de rede social da corrida e do ciclismo, permite criar rankings de classificação por zonas demarcadas em mapa (os chamados segmentos). E as organizações de provas viram aqui, e muito bem, a oportunidade de criar um desafio para satisfazer a sede de competição e provas.

Subir o Evereste sem sair de Portugal - milénio stadium - toronto

Como funciona?

É mapeado um percurso e, durante um período de tempo que a organização determina, os atletas vão até à zona do percurso e só têm de estar registados na aplicação e fazer o treino com o relógio GPS ativo. Evitam-se aglomerados e não deixa de ser uma competição.

Casos destes têm-se verificado um pouco por todo o país, com alguns exemplos de destaque. Em Santo Tirso, onde tem lugar a famosa prova de trail STUT (Santo Thyrso Ultra Trail), nasceu o Desafio Olimpo. Durante um mês, quase 200 atletas tentaram a sua sorte.

Em Santa Maria da Feira, os conhecidos Trilhos Termais criaram uma versão “challenge”. Ao longo de três semanas, os atletas debateram-se pela coroa virtual nas Caldas de São Jorge.

Às vezes, o desafio nasce de uma ideia maluca.

O SCE Atletismo António Leitão decidiu fazer uma dobradinha. Conhecem o conceito de “Everesting”? Simples, é correr ou pedalar o equivalente à elevação acumulada do Monte Evereste.

No fim de semana de 25 e 26 junho dois atletas deste clube desafiaram-se nas Escadas do Codeçal, no Porto, a fazer os 8848 metros do Evereste. Demoraram cerca de 25 horas a subir e descer 216 vezes um total de 46 mil degraus.

Noutro cenário e neste fim de semana, cerca de nove atletas foram até à Serra da Freita e entre a Frecha da Mizarela e o Miradouro gastaram 18:31:51 horas a somar os 8848 metros de elevação. Entre eles estava Hélio Fumo, que em modo de treino acompanhou os atletas em parte da conquista do pico. De assinalar que se bateu o recorde nacional para este tipo de desafio, em ambos os sexos.

Num registo diferente, há o caso de atletas como Ricardo Bomtempo que, a título pessoal, criou um conceito que carinhosamente apelidou de “Que estupidez!!!” em que encaixam os desafios mais bizarros. A destacar: uma meia maratona no escadório do Bom Jesus em Braga, que se traduz em subir e descer 16 vezes os 530 degraus. Ou a travessia da estrada N14 durante a noite para chegar a casa a tempo do pequeno-almoço com a família. Nas palavras do Ricardo: “O teu cérebro tende a ser congruente se te comprometes contigo falhas muito. Se te comprometes com alguns próximos falhas menos mas falhas. Eles aceitam não te julgam. Se te comprometes com audiência geral, os que gostam, os que não gostam, os que aceitam e os que te julgam, não falhas.”.

Basta uma certa dose de criatividade e loucura q.b. e, mesmo sem provas, teremos sempre a capacidade de nos testar.

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