Milhares de açorianos pagam promessas ao Santo Cristo em Brampton

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A religião faz parte da essência dos açorianos. Habituados desde cedo a enfrentar a insularidade e tudo o que a palavra acarreta, estas gentes tiveram desde cedo que entregar a vida a alguém superior. A fé surgiu como a salvação em momentos de medo e de adversidades em que era difícil encontrar forças para enfrentar a vida.

Milhares de fiéis participaram no passado fim-de-semana nas festas do Senhor Santo Cristo de Brampton. O culto surgiu no século XVII e remonta ao início do povoamento da ilha de São Miguel, nos Açores. No Canadá imigrantes de todo o país reúnem-se todos os anos na igreja de Nossa Senhora de Fátima em Brampton.

Nélia Bulhão é micaelense, mas há 19 anos que vive no Canadá. “Em São Miguel sempre fui à missa e às festas do Santo Cristo com a minha família. Depois emigrámos e já vivemos em Brampton há 19 anos, mas continuamos a reviver as nossas tradições”, contou.

As comemorações do ecce-homo são a maior festa religiosa do sul de Ontário e a segunda maior de Portugal, logo a seguir às comemorações das festas de Nossa Senhora de Fátima. Muitos são aqueles que fazem promessas a este santo milagreiro. “Fui submetida a duas operações ao coração há seis meses e nessa altura pedi ao Senhor Santo Cristo que me ajudasse e hoje vim pagar a promessa, porque não é só pedir”, confessou.

A festa surgiu em 2006 em Brampton e como já é tradicional na sexta houve uma missa de cura e benção especial para os doentes, no sábado houve a mudança de imagem e no domingo seguiu-se a procissão. Directamente de São Miguel veio o padre Hélder Cosme da paróquia de São Roque, em Ponta Delgada. Alguns dos participantes começaram a vir a estas festas com a família. “Sou muito devota ao Senhor Santo Cristo desde criança. Venho todos anos com a minha mãe pagar as minhas promessas”, disse Bernardete Galego ao nosso jornal.

Emigrantes querem voltar às festas a São Miguel

A procissão juntou as filarmónicas de Nossa Senhora da Luz, dos EUA e a Banda Lira Portuguesa de Brampton. Em São Miguel as festas realizam-se na última semana de maio e alguns dos fiéis espalhados pelo mundo prometem lá ir um dia. “Quando lá fui tinha 11 anos, portanto já foi há algum tempo (risos). Mas vou no próximo ano, já está prometido, e a minha mãe vai comigo”, admitiu Bernardete Galego.

Tal como nos Açores, a imagem possui uma coleção de capas. A veste serve de proteção aos ombros ensanguentados de Cristo e tem como características principais a predominância de veludo vermelho e de bordados feitos em fio de ouro. Os símbolos remetem ao universo religioso, como é o caso das folhas de videira, dos cachos de uva e das espigas de trigo.

A maioria foi oferecida por devotos como forma de agradecimento a promessas feitas numa hora de grande aflição e no caso de Brampton a imagem do Senhor Santo Cristo tem seis capas para além da da própria imagem.

As capas podem ser admiradas na igreja de Nossa Senhora de Fátima em Brampton junto ao altar da imagem do Senhor Santo Cristo. E apesar da distância, a festa açoriana tem muitas semelhanças com a de Brampton, tal como nos contou Armanda Borges. “Há dois anos estive nas festas de São Miguel e devo dizer que estas estão muito parecidas. Se bem que lá nos toca mais, não sei se será por causa das saudades…”, esclareceu.

Foram vários os grupos da paróquia que acompanharam a imagem do Senhor Santo Cristo de perto e muitos fiéis não conseguiram conter a emoção num momento tão especial. Apesar da grande variedade de santos que a igreja católica tem, o ecce home tem um simbolismo diferente. “O Senhor Santo Cristo toca-nos muito, não sei se será por fazer parte das nossas raízes. Sou crente e acredito muito no poder que ele tem”, admitiu Armanda Borges.

Romeiros marcam presença em Brampton

Os romeiros são tão antigos como o culto do Senhor Santo Cristo em São Miguel que surgiu pouco depois de um terramoto que fez várias vítimas humanas na ilha. Em grupo vários romeiros rezam e agradecem ao Senhor Santo Cristo os seus milagres e a sua boa vontade. Os romeiros são homens que se fazem acompanhar por um bordão, um lenço de lã, um xaile, um terço e uma cevadeira, uma espécie de saco.

Antes de emigrar, Carlos Vieira nunca foi romeiro, mas no Canadá acabou por aderir a pedido da esposa. “É uma tradição muito importante que obriga a muitos sacrifícios. Sou romeiro há 12 anos no Canadá e pretendo continuar a ser nos próximos anos”, informou.

O Santo Cristo dos Milagres volta agora a estar no seu altar na igreja de Nossa Senhora de Fátima de Brampton onde permanecerá até ao próximo ano.

Source:Joana Leal/MS
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