As neves do Monte Kilimanjaro

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Ilda Januario
Doutora em Literatura

CROSSROADS INTERNATIONAL é uma organização internacional que tem como objetivo incrementar os direitos das mulheres no mundo. Com 28 projetos em 8 países, 7 dos quais africanos, é todos os anos apoiada por centenas de voluntários, muitos deles do Canadá. O ano passado, um desses voluntários foi a advogada Cidália Faria.
Cidália veio para o Canadá em criança, fala português e tem desempenhado, desde 2000, a função de “crown attorney”, advogada de defesa da coroa. Dezoito anos mais tarde, Cidália, esposa e mãe de dois filhos, decidiu, no seu ano sabático, ir trabalhar em prol dos direitos das mulheres da Tanzânia, como prolongamento do trabalho que faz no Ontário. Foi para a região de Kilimanjaro, com 2 milhões de habitantes. Kilimanjaro é a montanha mais alta de África, cujo pico coberto de neve tem derretido lentamente devido à mudança climática.
Aceitei o convite de Cidália para estar presente no Verity Club, no passado dia 28 de março. Aí, ela homenageou 5 visitantes da Tanzânia que vieram como observadores do sistema judicial canadiano, nomeadamente, do programa especial que se ocupa da violência doméstica – INTEGRATED DOMESTIC VIOLENCE COURT ou IDVC – o único existente no Canadá. Carine Guidicelli, canadiana francófona, Diretora de Relações Externas da Crossroads, e Elizabeth Minde, advogada e Diretora da KWEICO, o primeiro abrigo para mulheres na Tanzânia, já o tinham observado em funcionamento: um juiz para cada família, avalia a importância das relações familiares segundo o crime cometido.
Ao entrar no Club, a primeira pessoa que vi foi Bernard, da comitiva da Tanzânia, embrulhado num sobretudo de lã, que nunca retirou ao longo da apresentação e do convívio que se seguiu. Mais tarde, confessou-me que, sendo a sua primeira visita ao Canadá, não esperava sentir tanto frio e ter que comprar cachecol e luvas. Presentes estavam também outros convidados do sistema judiciário do Ontário e da CROSSROADS INTERNATIONAL, tendo sido aceites donativos para reforçar o projeto.
Na Tanzânia, explicou Cidália (corroborada depois por Carine e a Mama Minde), a partir da primavera de 2017, trabalharam em conjunto com parceiros locais, inteligentes, experientes e totalmente comprometidos – desde magistrados a trabalhadores sociais e de abrigos, polícia, voluntários -, em mudar a situação na região, e que reina em tantas partes do globo, onde mulheres e raparigas estão sujeitas a discriminação e violência em virtude do sexo e posição social e familiar desfavorecida. Num momento de convívio, perguntei a uma das visitantes se as celebridades da Tanzânia tinham aderido ao movimento contra o assédio sexual, como acontecera na América do Norte com a iniciativa MeToo. Respondeu-me que, infelizmente, ainda não é o caso.
O ambiente hospitaleiro e entusiasta que reinou foi uma experiência gratificante que aqui resumi. Ao deixar a sala, no fim do evento, notei que o Bernard ainda não tinha tirado o sobretudo. Logo pensei que, se ao entrar fazia frio, sendo já noite, mais ele sentiria o frio ao sair. Ofereci-lhe o meu cachecol, num gesto espontâneo, consentâneo com o espírito que acabara de partilhar. Um calor bom que, ao contrário do efeito estufa, não vai contribuir para derreter as neves de Kilimanjaro. Vai sim, aproximar ainda mais gentes e continentes contra a violência doméstica.

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