Um em cada 10 canadianos é pobre

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Otava quer reduzir a pobreza em 50% 

O governo de Trudeau anunciou este mês que a redução da pobreza é uma das grandes metas para as próximas décadas. O projeto de lei que foi apresentado na Câmara dos Comuns em Otava prevê uma redução deste flagelo na ordem dos 20% até 2020 e de 50% até 2030.

Segundo as estatísticas oficiais, um em cada dez canadianos é pobre. O número de pessoas que têm rendimentos baixos é mais significativo sobretudo em dois grupos da população. Cerca de 1,5 milhões de mulheres vivem na pobreza e 80% dos indígenas vivem no limiar da pobreza.

Em matéria de pobreza, em 2017 o Canadá ocupava a 24.ª posição de um ranking de 38 países que a OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico) comparou. Uma posição preocupante se tivermos em conta que a média de pobreza na OCDE ronda os 11% enquanto que no Canadá é de 11,9%. Portugal surge na 21.ª posição e os EUA em 35º, apenas a dois lugares do final. O Milénio Stadium tentou obter uma reação do Canada Without Poverty, mas até ao fecho desta edição não obtivemos nenhuma resposta.

Ambos os países da América do Norte, que incluem o G8, o grupo das maiores economias do mundo, apresentam problemas na distribuição de riqueza. Contudo, os números pioram quando analisamos a América do Sul. Chile, México, Brasil e Costa Rica revelam índices de pobreza assustadores.  Por outro lado, Dinamarca e Finlândia são os países onde existe menos pobreza.

 

 

Embora não traga nenhuma verba específica para combater o problema, o Ministro para o Desenvolvimento Social, Jean Yves Duclos, explicou que o novo projeto de lei cria uma linha telefónica oficial e um comité independente.

Num comunicado enviado às redações, o governo sublinha que vai investir ao longo de dez anos $40 mil milhões em casas acessíveis e que introduziu medidas para garantir a segurança dos grupos mais vulneráveis. Um milhão de idosos foram retirados da pobreza e o Canada Child Benefit ajudou quase 300,000 crianças.

De acordo com os últimos censos, em 2015 quase 1,2 milhões de crianças viviam na pobreza no Canadá, o que corresponde a 17%. A nível de cidades, as crianças mais pobres vivem em Windsor, Saint John e Londres. Por outro lado, Calgary, Saguenay e Quebec, que apresentam maiores níveis de desenvolvimento, são as cidades onde existem menos crianças pobres. Em Toronto, o custo médio de assistência infantil para uma criança é superior a $21.000 por ano. No gráfico constatamos que Nunavut é a província onde existem mais crianças carenciadas em todo o país, cerca de 34,4%, e Manitoba surge logo abaixo com 29%.

Questionado pelos jornalistas sobre a proximidade das eleições federais, que se realizam em outubro do próximo ano, o Ministro para o Desenvolvimento Social recusou que o anúncio fosse apenas para conseguir votos e garantiu que as metas são realistas. “Se os números forem alcançados vamos retirar 2,2 milhões de canadianos da pobreza, pelo menos de acordo os dados de 2015”, explicou.

Duclos disse ainda que este projeto de lei vai obrigar o próximo governo a seguir os objetivos da redução da pobreza, senão vão ter de responder perante os eleitores. O nosso jornal falou com uma família portuguesa que vive no Canadá há menos de um ano e que enfrenta graves problemas económicos. A família aceitou falar connosco com a condição de não ser identificada e para simplificar a história vamos dar-lhe o nome fictício de Paula.

A história de Paula é comum há de muitos imigrantes, veio para o Canadá há procura de uma vida melhor e ainda não domina o inglês. Natural dos Açores, Paula casou jovem e engravidou aos 18 anos. Mais tarde acabou por ter outro menino e à mesa faltou comida muitas vezes. “Lá morávamos com familiares e dividíamos despesas. Vivíamos com um apoio de 300 euros e passávamos fome muitas vezes. Estávamos os dois sem trabalho e com duas crianças pequenas decidimos vir para o Canadá”, contou.

Mas no Canadá a vida não foi fácil e os custos elevados com o arrendamento não ajudam. “Nós estamos ilegais e por isso não nos podemos candidatar aos apoios do governo. Eu não trabalho porque o meu ordenado ia ser gasto com a creche dos meus filhos (3 e 8 anos). O meu marido ganha cerca de $20,000 por ano, não chega para pagar a renda, as contas e a alimentação. Sem a ajuda do Abrigo não sei onde estávamos”, explicou.

O casal tem menos de 30 anos e a família mora num apartamento com dois quartos e sem mobília em Davenport, a área onde residem mais portugueses no Canadá. A renda inicial era de $1,700, mas graças ao patrão do marido que conhecia o senhorio, baixou para $1,300. A fatura da eletricidade é à parte e ronda os $100. Os telemóveis são pagos com a ajuda de um familiar.

Lá em casa é raro comerem carne ou peixe. “Cozinho mais com enlatados, massas e sopas. A carne e peixe são muito caros e às vezes o dinheiro não chega para comprar iogurtes para os meninos”, disse.

As crianças ainda não têm roupa de inverno e este Natal vai ser difícil. “Eles passam frio porque os casacos e as botas de inverno são muito caros. O nosso Natal vai ser dentro do possível, talvez não vamos ter dinheiro para o bacalhau”, lamentou.

Estes casos não surpreendem o Abrigo, uma instituição que trabalha com grupos vulneráveis. Valeria Sales é coordenadora de programas do centro e garantiu-nos que por dia recebem em média dez a 12 famílias que precisam de ajuda para sobreviver. “Recebemos pedidos de ajuda de portugueses e de outros grupos étnicos. Alguns não conseguem pagar a renda, outros não têm o que comer. É muito difícil, mas nós tentamos ajudar dentro das nossas limitações. No Natal entregamos prendas às crianças e temos cerca de 1,500 vouchers, cada um no valor de $25 para distribuir pelas famílias carenciadas. Não é muito, mas já ajuda no orçamento familiar”, informou.

A 17 de Outubro foi assinalado o Dia Internacional para a erradicação da pobreza. O primeiro ministro Justin Trudeau fez um discurso no Parlamento onde recordou os avanços que o país tem feito na conquista de melhores condições de vida. “Um país de sucesso é onde todos podem trabalhar arduamente e construir um futuro melhor para a sua família. Nos últimos três anos fizemos história e investimentos significativos em todo o país e o nosso objetivo é continuar a trabalhar. A nossa taxa de desemprego é a mais baixa dos últimos 40 anos e os nossos salários têm aumentado mais rápido do que na última década”.

Source:Joana Leal/MS
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