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Pandemia tornou as famílias mais fortes

À medida que os países começam a levantar algumas restrições à volta do mundo e em que algumas províncias canadianas saem aos poucos de confinamentos, que tipo de família é que vamos ter depois da segunda vaga da pandemia? O risco de transmissão do vírus obrigou-nos a limitar os nossos contactos sociais, com a família e com a sociedade em geral. As festividades foram vividas de uma forma diferente e até que a maioria da população seja vacinada ainda não sabemos bem como será o futuro.

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Crédito: DR.

A propósito do Dia da Família, que se comemora na próxima segunda-feira (15 de fevereiro), o Milénio Stadium falou com duas famílias portuguesas que emigraram para Ontário na década de 70- a família Mafra e a família Ribeiro. Estes são apenas dois exemplos entre muitos de famílias cuja vida mudou radicalmente desde que o coronavírus chegou ao Canadá em março de 2020. Mas, apesar de tudo, nem todas as mudanças foram negativas.

José Mafra tem 62 anos e é um conhecido empresário português do ramo de turismo aqui em Ontário que trabalha sobretudo entre a Blue Mountain e o Mount de St. Louis. A mãe foi a responsável pelas primeiras excursões turísticas na Nazaré, em Leiria, e Mafra, depois de emigrar para o Canadá, percebeu que a sua vida também ia passar pelo turismo. Mas no ano passado, a vida deste empresário mudou radicalmente.

“Estacionei o autocarro a 8 de março e depois só voltei a conduzi-lo durante três semanas em agosto. Tinha um contrato para transportar em janeiro 56 pessoas para o Blue Mountain, mas acabou por ser cancelado por causa da COVID-19. Esta semana voltei a conduzir o autocarro para transportar uma equipa de cinema para a baixa de Toronto e para Bradford para a gravação de um filme. Mas tive que que reduzir o número de passageiros para 12 em vez de 56 para cumprir com as regras da distância social para limitar os contágios”, contou ao nosso jornal.

Mafra tinha uma empresa de nove autocarros, mas felizmente conseguiu vender parte da empresa antes da pandemia. “Felizmente vendi as minhas licenças a uma empresa do Quebec e agora só mantenho um autocarro. Em agosto ainda tinha expectativas de que o turismo pudesse continuar, mas agora já não sei”, disse.

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Família Mafra. Crédito: DR.

O setor de turismo é um dos setores mais afetados com a pandemia. Os despedimentos nas empresas aéreas têm estado na ordem do dia devido às restrições que impedem as pessoas de viajar. A esposa de José Mafra trabalhava para a Lufthansa há 33 anos, mas há duas semanas foi informada pela empresa que tinha que se reformar antecipadamente. “Eles contrataram pessoas mais jovens para pagarem salários inferiores e oferecem menos benefícios e agora ela, com outros colegas que estão na mesma situação, entregou o caso a um advogado para tentarem conseguir uma indemnização”, admitiu.

A comunicação social tem dado conta de que a saúde mental dos canadianos piorou com a pandemia. Mafra já passava algum tempo na sua Coudelaria, mas agora passa ainda mais tempo com os cavalos. “Com a pandemia é muito raro estar em casa, foi uma forma de lidar com a nova realidade.  Passo muito tempo com os cavalos e aquilo que era um hobby faz agora parte do nosso ganha pão. Já a minha esposa passa muito tempo em casa com o nosso netinho”, explicou.

Ashley Mafra, filha do casal Mafra, era chefe de cabine na Air Canada, mas trabalhou pela última vez no verão num dos voos para o Brasil. A pandemia obrigou os canadianos a serem criativos e a antiga chefe de cabine fundou a Deliver Me Charcuterie, uma empresa que entrega caixas personalizadas com charcutaria, queijos, frutas, vegetais e doces. A empresa está disponível no Facebook e no Instagram, faz entregas em Ontário e trabalha apenas com charcutaria e queijos importados de países como Portugal, França e Itália.

A mãe de José Mafra tem 84 anos e vive em Portugal. Gerir a situação à distância não tem sido fácil, mas o apoio da família tem sido essencial. “A minha mãe era muito ativa e apesar de morar numa casa com vista para o mar e de contar com o apoio dos meus irmãos, em julho foi diagnosticada com uma depressão grave, mas, entretanto, passou a consumir menos informação e agora já está mais animada. Já não a vejo há um ano, quando receber a vacina vamos visitá-la, nunca tive tanto tempo sem ir a Portugal…”, lamentou.

Ao contrário da mãe, Mafra confessou-nos que prefere ver notícias todos os dias porque se não o fizer fica ainda mais preocupado. José tem saudades de ir a um restaurante, dos ensaios do Rancho Folclórico da Nazaré, de conversar com pessoas e de revisitar lugares. Mas apesar de tudo a pandemia tornou a família mais forte. “Agora temos mais tempo uns para os outros e isso fortaleceu os afetos, o amor, a amizade e a entreajuda. Não é que não fossemos próximos da Ashley e do Diogo, mas antes estávamos mais absorvidos com as nossas rotinas profissionais. Por exemplo antes falávamos pelo telefone uma vez por semana, mas agora falamos todos os dias e não é só connosco porque tenho amigos que me dizem exatamente o mesmo”, afirmou.

Questionado pelo nosso jornal como vai ser o Dia da Família, Mafra diz que vão almoçar com a Ashley porque o Diogo acha que pode ser perigoso. “E também vou ajudar de manhã na entrega das caixas da Deliver Me Charcuterie (risos)”, adiantou.

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Família Ribeiro. Crédito: DR.

Com a família Ribeiro a vida depois da pandemia foi um pouco diferente porque o genro de Jorge Ribeiro tem uma profissão essencial. “O marido da Patrícia é pediatra e eles vivem em Long Island, Nova Iorque, e lá não é como no Canadá. O Andrew não pode trabalhar a partir de casa e tem de dar as consultas no seu consultório, mas a Patrícia está em teletrabalho. Em março apanhámos um grande susto porque o meu genro testou positivo para a COVID-19 e foi internado com uma pneumonia num dos pulmões. Felizmente acabou por ter alta ao fim de três dias, mas hoje ainda tem sequelas e queixa-se de dores no corpo. A minha filha e os meus netos também apanharam o vírus, mas tiveram sintomas ligeiros”, disse Jorge Ribeiro ao Milénio Stadium.

Patrícia, que já trabalhou no “Saturday Night Live”, na NBS, depois de se dedicar à maternidade tornou-se personal coach. Para esta mãe, como para tantas outras mulheres, o teletrabalho tem sido difícil de conciliar com três rapazes de 8, 10 e 12 anos. “Com as escolas encerradas os pais têm de conciliar o teletrabalho com a parentalidade. E no caso da Patrícia percebo que não tem sido fácil porque era sente-se exausta, stressada, ansiosa e frustrada”, contou Jorge Ribeiro.

Jorge tem 70 anos e é diabético. Com a doença crónica, a pandemia obrigou a ter ainda mais cuidado com as rotinas. “Já antes da pandemia tinha cuidados extra, mas quando fui a Portugal um mês em agosto tive de ter cuidados redobrados. Agora desinfetamos com vinagre todas as frutas e vegetais que compramos e já não vamos a restaurantes. Ao contrário da maioria das pessoas que diz ter engordado com a pandemia, eu perdi 10 kg. Claro que passei também a usar máscara porque percebo que faço parte do grupo de risco…”, garantiu.

Jorge tem ainda um outro filho mas Andrew, a esposa e a filha fazem todos parte da mesma bolha e por isso sempre mantiveram contacto durante a pandemia. Jorge diz que a vida de casal mudou com a pandemia. “Eu a Maria adaptámo-nos e agora como passamos mais tempos juntos acho que somos mais tolerantes um com o outo. Falamos muito mais com a Patrícia ao telefone porque agora ela não nos pode visitar de três em três meses. Agora passo muito mais tempo na internet, nas redes sociais e no YouTube, mas tenho saudades de andar de bicicleta, visitar os meus clientes, conversar com pessoas e ir almoçar ao restaurante todos os dias”, contou.

Tal como José Mafra, Jorge Ribeiro, que é filho único, também tem a mãe de 93 anos a morar em Portugal. “O lar onde a minha mãe está teve um surto de COVID-19, mas felizmente ela não apanhou o vírus. Ela já tomou a 1.ª dose da vacina, mas claro que até que possa tomar a 2.ª estamos sempre preocupados”, afirmou.

O Dia da Família foi introduzido em Ontário pela primeira vez em 2008 e a província passou a ter nove feriados civis.

Joana Leal/MS

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