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O fim da General Motors de Oshawa

Fábrica chegou a produzir 1200 carros por dia

A General Motors (GM) vai suspender a produção em cinco fábricas na América do Norte, quatro nos EUA e uma no Canadá. O anúncio foi feito na semana passada e no Canadá a decisão afecta directamente 2,600 postos de trabalho. Mas para a Unifor, o maior sindicato do sector privado do país, o encerramento da fábrica de Oshawa acaba com cerca de 20 mil postos de trabalho indiretos.

O sindicato que representa 310,000 trabalhadores, quase 30,000 do setor automóvel, não aceita a decisão da GM e vai continuar a pressionar o governo para que a multinacional recue na decisão. “Fomos completamente surpreendidos porque em 2016 negociámos com a GM, em boa fé, o contracto coletivo de trabalho e ficou definido que eles iam investir $500 milhões na fábrica onde iriam ser produzidos os novos modelos da marca. Antes tinham investido quase $600 milhões num departamento de pintura e com todo este investimento não prevíamos uma decisão destas”, explicou Paulo Ribeiro, representante nacional do sindicato há 12 anos.

Para o sindicato a única solução passa por manter a estrutura em funcionamento. “Trata-se de garantir o futuro das próximas gerações. Não estamos dispostos a negociar as reformas antecipadas nem em aumentar o número de semanas para a qualificação do subsídio de desemprego”, garantiu.

O sindicato reuniu com o Primeiro Ministro Justin Trudeau e fez dois pedidos: que exigisse à GM que antivesse a fábrica em funcionamento e que falasse com o presidente dos EUA para que juntos criassem uma estratégia vantajosa para ambas as partes. No entanto o governo provincial não demonstrou a mesma abertura e na última semana o presidente da Unifor, Jerry Dias  e o Premier de Ontário, Doug Ford, trocaram vários twits ofensivos. “O Ford deitou a toalha ao chão e lavou as mãos como Pilates. Ele nem teve a decência de fazer um telefonema ao nosso sindicato ou ao nosso Primeiro Ministro, optou antes por dizer que a fábrica vai encerrar e que não há nada a fazer”, adiantou.

A restruturação da multinacional da indústria automóvel implica uma redução de 15% no número de trabalhadores nos EUA e no Canadá até ao final de 2020, o que significa que 14 mil trabalhadores deverão perder os seus postos de trabalho.

No primeiro semestre de 2018 a GM de Oshawa vendeu cerca de 194 mil carros. Quando o grupo anunciou a decisão argumentou que os modelos que a fábrica produzia estavam em queda e que agora o mercado está sobretudo voltado para os SUV’s e para as pick-ups. No entanto o sindicato tem uma interpretação diferente. “Agora é a fábrica de Oshawa, mas não sabemos se fica por aqui, além do mais a fábrica poderia ser adaptada para produzir outros modelos. O setor automóvel é líder em exportações no Canadá, representa mais de $6 mil milhões por ano. Como motor da nossa economia não o podemos deixar escapar”, sublinhou Paulo Ribeiro ao nosso jornal.

Alguns dos trabalhadores têm origem portuguesa. Na fábrica o ambiente é pesado e a notícia caiu como um balde de água fria a poucas semanas do Natal. Albert Fernandes estás prestes a fazer 54 anos e lamenta que a GM pense apenas em lucro. “Trabalhei aqui 33 anos na linha de montagem de portas e tenho pena que eles queiram concentrar tudo na China só porque a mão-de-obra é mais barata. Eles vão sacrificar a qualidade e vão continuar a vender os carros ao mesmo preço, é uma pena que o lucro esteja acima das responsabilidades sociais”, informou.

Fernandes tem duas filhas que estudam no ensino superior e ainda não acabou de pagar a hipoteca da casa por isso a reforma antecipada não está nos seus planos. “Ganhava $35 por hora e nos últimos dez anos não tive qualquer aumento salarial. O meu irmão também trabalhava cá e alguns dos nossos colegas têm filhos a caminho. Mas ainda acredito que a GM possa mudar de ideias”, adiantou.

Mapril Ganhão já está reformado, mas recorda com nostalgia os anos que passou no departamento de cargas da fábrica. “Entrei em 1977 e reformei-me em 2007, foram 31 anos de dedicação.  O ambiente de trabalho era muito bom, mas sempre foi difícil negociar benefícios”, contou-nos.

Em 2005 a GM começou a despedir em Ontário e eliminou 3,900 postos de trabalho nas fábricas de St. Catherine e de Oshawa. “Fazíamos um carro por minuto o que dava uma média de 1200 por dia. Chegámos a ter três turnos. Nos meus últimos anos de trabalho alguns dos meus colegas foram despedidos e acabámos por ficar a fazer o trabalho deles e a ganhar o mesmo”, disse.

No Parlamento o primeiro-ministro Justin Trudeau lamentou as consequências da estratégia da construtora de automóveis. “Estamos dececionados com a decisão da GM sobre a fábrica em Oshawa como parte da reestruturação global. Os nossos pensamentos estão com aqueles cujos empregos vão ser afetados e as suas famílias”, afirmou.

A fábrica de Oshawa abriu em 1907 e foi várias vezes premiada pela sua qualidade. Aqui eram produzidos alguns dos modelos mais icónicos do grupo, é o caso do Chevrolet Lumina, Camaro e Silverado, do Buick LaCrosse e Regal, do Cadillac XTS e do GMC Sierra.

Até 2019 mais três fábricas vão ser encerradas fora da América do Norte. Com uma quebra de vendas registada no mercado interno, desde 2016, a empresa planeia abandonar a produção de alguns modelos históricos e investir na produção de veículos elétricos. Com a restruturação da empresa, a General Motors espera uma redução de custos de $6 mil milhões.

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