Canadá

A polémica estátua de um navegador português no Canadá

Uma estátua de homenagem ao navegador português Gaspar Corte-Real está em análise pelo Governo canadiano para ser retirada, uma posição que o historiador português Gilberto Fernandes compreende, porque corresponde a uma “narrativa colonialista, eurocêntrica e de supremacia branca”.

A contestação gerada contra estátuas de personalidades ligadas à escravatura surgiu na sequência de manifestações desencadeadas em todo o mundo

No Canadá desde 1965, a estátua foi oferecida por Portugal e está colocada no St. John’s, o parlamento provincial de Terra Nova e Labrador, para homenagear o navegador. No entanto, as autoridades estão a ponderar a retirada da estátua, no quadro da revisão histórica, semelhante ao que sucede noutros locais do mundo.

Para o professor da Universidade de York, em Toronto, Gilberto Fernandes, responsável pelo Projeto de História Luso-Canadiana, a estátua simboliza “uma narrativa colonialista, eurocêntrica e de supremacia branca que está subjacente às instituições dominantes do Canadá”.​​​​

Em causa está o facto de ​​Corte-Real ter “escravizado até 57 indígenas”, mas também a circunstância de “se estar a celebrar um suposto ‘descobridor’ da América do Norte. Isso faz parte de uma narrativa colonialista, eurocêntrica e de supremacia branca que está subjacente às instituições colonialistas dominantes do Canadá que ao longo da história foram apagando a memória da presença dos povos indígenas neste continente, onde já se encontram há milhares de anos”, explicou, acrescentando: “As nossas instituições, as nossas leis, são criadas e fundamentadas pelas ideias que temos e as histórias que contamos sobre nós próprios”.

 

Vários grupos indígenas na Terra Nova e Labrador acreditam que Corte-Real, na expedição em 1501, poderá ter escravizado 57 indígenas, enviando-os para a Europa.

O monumento de Corte-Real está localizado em frente ao Confederation Building, tendo sido doado por Portugal em 1965, como “agradecimento pela hospitalidade” daquela região aos pescadores portugueses.

O historiador sublinhou que celebrar o explorador português como “descobridor” da Terra Nova “é estar a afirmar que na região era tudo selvagem”, ou inocupado, o que “é obviamente falso” porque existiam civilizações indígenas, para além de que os vikings já ali tinham estado há mais de mil anos.

A diplomacia do Estado Novo, responsável pela presença da estátua e de outros monumentos relacionados com a expansão marítima portuguesa na América do Norte, teve um papel fundamental na celebração oficial de Corte-Real na Terra Nova e Labrador, província canadiana desde 1949, na tentativa de afirmar o suposto direito histórico de Portugal em pescar bacalhau dentro das águas internacionais do Canadá.

Em 1963, com a expansão do mar territorial canadiano de três para 12 milhas, várias nações reclamaram direitos históricos a pescar nessas águas, uma vez que já o faziam antes da criação do Canadá enquanto federação (1867).

“A estátua fez parte desse projeto diplomático que vincou, realmente, essa presença histórica dos portugueses nessas águas desde o século XVI, o que é também muito mitificado. A forte presença portuguesa na pesca do bacalhau ao largo da Terra Nova e Labrador só se inicia após a segunda guerra mundial”, realçou Gilberto Fernandes.

Os supostos feitos dos navegadores portuguesas durante a época áurea da expansão marítima portuguesa foi várias vezes utilizada pela propaganda internacional do Estado Novo para fazer “alavancagem diplomática”, visto “ser um governo com fracos recursos, militares ou económicos, ou de outras formas de pressão política”.

Na ocasião, sob a égide de Salazar, o governo português “vivia sobre uma enorme pressão internacional”, principalmente nas Nações Unidas, “mas também de alguns países da NATO, inclusive do Canadá,” para desmantelar o seu império e pôr termo às Guerras Colonias. Muitas das vezes o Estado Novo “utilizou a história supostamente gloriosa dos ‘descobrimentos’” como forma de diplomacia pública e ‘soft power’, de modo a “influenciar políticas internacionais de outros países.”

Além da estátua de Corte-Real, em St. John’s, no este do Canadá, estão também localizados na América do Norte outros monumentos de homenagem aos descobrimentos portugueses, nomeadamente as estátuas de João Rodrigues Cabrilho em San Diego (Califórnia) e de Infante D. Henrique em Nova Bedford, Massachusetts, existindo ainda um museu dedicado à Pedra de Dighton em Taunton, Massachusetts.

Estes monumentos tinham sobretudo efeitos propagandísticos para o Estado Novo, mas também para as comunidades étnicas, especialmente as luso-americanas, que assim “elevavam o seu estatuto cultural e racial aos olhos dos americanos brancos num país cuja matriz racial está presente em tudo”.

“Nos Estados Unidos os portugueses eram, e até certo ponto continuam a ser, considerados um povo ambivalente a nível da sua identidade racial. Para as elites políticas, cívicas e culturais da comunidade luso-americana havia alguma mais-valia em elevar esses supostos heróis da expansão marítima portuguesa, porque assim afirmavam-se como europeus e logo como brancos. Povos auxiliares na formação das nações americana e canadiana”, concluiu.

A contestação gerada contra estátuas de personalidades ligadas à escravatura surgiu na sequência de manifestações desencadeadas em todo o mundo, depois da morte do afro-americano George Floyd, asfixiado por um polícia branco, em 25 de maio.

Os protestos antirracistas deram origem no mundo à vandalização de várias estátuas de figuras controversas, como as de Winston Churchill em Londres (Inglaterra), do navegador do século XV Cristóvão Colombo. Em Portugal as estátuas do Padre António Vieira (Lisboa) e do Cónego Melo (Braga) foram vandalizadas com inscrições a tinta vermelha.

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