2019 – Ano de eleições federais

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Muita coisa mudou para o primeiro-ministro canadiano, Justin Trudeau, desde que ele assumiu o poder há quase quatro anos. Que obstáculos pode ele enfrentar num ano de eleições federais? 

Pouco depois de ser eleito, Trudeau conquistou manchetes internacionais por nomear várias mulheres para o seu gabinete. A ascensão do jovem líder marcou uma nova era de política liberal progressista no Canadá, depois dos eleitores terem derrubado um governo conservador que esteve no poder durante quase uma década. 

O seu governo manteve algumas promessas desde então: reformulou o esquema de benefícios à criança, legalizou a cannabis recreativa e deu aos pais a opção de tirar uma licença parental prolongada, mas atrapalhou-se ao longo do caminho. Uma viagem desastrosa à Índia, promessas não cumpridas de reforma eleitoral, só para citar duas… 

Agora, entrando no seu quarto ano no cargo, sente-se um governo um pouco menos confiante e parecendo um pouco mais preocupado com a próxima campanha. Como exemplo, a conferência de imprensa de fim do ano do primeiro-ministro Justin Trudeau em Ottawa foi dominada por questões sobre as relações sino-canadianas, na sequência da prisão do CFO da Huawei, Meng Wanzhou, em Vancouver. Questionado pelos jornalistas por que razão ele não estava a exigir, publicamente, a libertação de canadianos detidos na China, aparentemente em retaliação, ele ofereceu um pouco de autorreflexão. Trudeau afirmou que agora entende que é sempre muito mais complicado estar no poder do que quando se está na oposição. Isso não é algo que os políticos digam com muita frequência. 

De facto, há várias questões que podem beneficiar os liberais em 2019, com o tipo de introspeção que Trudeau manifestou na conferência de imprensa do fim do ano. A economia está bem. O desemprego está no seu nível mais baixo das últimas décadas e a inflação está na meta – um pouco mais de 2%. O Canadá também conseguiu obter um acordo de comércio atualizado – apesar de ainda não ter sido ratificado – com os EUA e o México, após meses de incerteza que assustaram empresas dependentes da parceria norte-americana. 

Há, no entanto, alertas de uma possível desaceleração económica e maior volatilidade do mercado. As taxas de juros têm sido excecionalmente baixas na última década no Canadá, levando muitas famílias a acumular dívidas, principalmente com hipotecas, e grandes cidades como Toronto e Vancouver viram os preços dos imóveis dispararem. Espera-se que as taxas de juros continuem em alta lenta este ano, o que significa que as famílias endividadas que têm conseguido sobreviver até aqui, podem vir a enfrentar mais dificuldades financeiras. 

O preço do petróleo e a necessidade da construção de oleodutos no oeste do país têm dado dores de cabeça ao governo Trudeau há meses. Grupos de ambientalistas estão furiosos com o apoio do governo Liberal à Trans Mountain, um projeto de expansão de um oleoduto que eles vêem como uma evidência da dependência do Canadá do petróleo. Analistas dizem que novos oleodutos são necessários para entregar o petróleo do interior do país aos mercados, porque isso permitiria que as empresas vendessem o óleo por preços mais altos no exterior. Apesar do apoio do governo, a expansão da Trans Mountain está atualmente sob revisão após uma decisão judicial que anulou a aprovação federal do projeto. Os cidadãos de Alberta, uma província rica em petróleo, estão desapontados. A província, recentemente, ordenou cortes na produção de petróleo para ajudar a combater os baixos preços do chamado ouro negro. 

E não há uma pílula mágica que resolva disputas com governos provinciais e ambientalistas. 

Muitos canadianos apoiaram em 2015 o programa Liberal. Para a sua sobrevivência política em outubro, será necessário que os Liberais aceitem a realidade de hoje e apresentem uma estratégia que agrade à maioria dos eleitores.

Peter Ferreira

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