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Um olhar sobre a cidade

A cidade de Toronto tem vindo a ser invadida por tendas e locais de habitação ilegal nos últimos tempos. Uma mancha na paisagem da cidade, mas sobretudo uma mancha na sensibilidade humana – algo está, duplamente, mal.

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Créditos: DR.

São cerca de 10 mil pessoas sem um teto que se espalham pelas ruas, pelas pontes e pelos parques, à procura de um lugar a que possam chamar seu.

Nesta edição do jornal Milénio, conversámos com o arquiteto Ilídio Coito, Project Director no Waterfront Toronto, de forma a conseguirmos ver, através da sua perspetiva, esta ocupação dos espaços públicos por parte de quem não tem casa própria.

Milénio Stadium: Toronto tem um problema claro com a habitação. A Câmara de Toronto está a preparar um plano de affordable housing. Do conhecimento que tem desse plano: o que acha? Pode ser uma solução?

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Arquiteto Ilídio Coito, Project Director no Waterfront Toronto

Ilídio Coito: Pode ser uma solução ou vai ser uma solução? A questão é interessantíssima, porque nós sabemos que a oferta da habitação acessível, dentro da cidade, tem vindo a ser reduzida, devido ao aumento de custo da habitação normal – o que torna mais difícil que as pessoas com menos rendimento consigam essa habitação.

A Câmara de Toronto, com este programa de affordable housing – habitação mais acessível – tem vindo a criar alternativas, já não é de agora. Uma delas através da Toronto Community Housing, que é uma agência da Câmara, que tem promovido várias fases de reabilitação, de criação de novos fogos, novas habitações para pessoas com mais dificuldades. O programa em si faz com que haja uma cooperação entre as várias organizações que existem (os vários empreiteiros, os vários construtores, os developers) e que participem neste programa para aumentar a capacidade de affordable housing, ou seja, a habitação social. Neste momento, como há uma grande falta de habitação, a nível geral, estes empreendedores têm vindo a participar neste programa e a intenção é que aumente. Será isto uma solução? Vai ter que ser, porque é necessária. Nós sabemos que, por um lado, existem um número elevado de sem-abrigo, e outro fator passa pelas famílias que estão carenciadas por falta de habitação e estão numa grande lista de espera para terem acesso a essa moradia acessível. Esses são programas que a Câmara está a implementar para tentar resolver o problema e penso estão que num bom caminho. Especialmente agora nesta cooperação, neste diálogo e ligação, com vários empreendedores de forma a chegar a essa solução.

MS: Que alterações substanciais esse plano terá no ordenamento da cidade?

IC: O ordenamento da cidade tem vindo a sofrer alterações – por exemplo as grandes artérias têm vindo a aumentar a densidade, exatamente para se poder adicionar o maior número de fogos nessas grandes artérias. As artérias laterais, posso dar o exemplo da Dundas, da College, da Bloor, onde existiam os chamados zoning da habitação, eram mais restritas, e têm vindo a desenvolver algumas alterações para poder aumentar essa densidade. Nós começamos a ver já prédios com sete, oito, 10 andares, onde anteriormente eram apenas dois ou três. Isso mostra que o ordenamento da cidade facilita esse aumento de habitação. Para além disso, é também mais uma questão de saber onde é que é pode incidir esse aumento de habitação e onde é que é possível que aconteça. Assim, com esse conjunto de medidas, e com esse conjunto de exigências que se colocam também aos empreiteiros, por um lado ajuda-se a economia e os próprios empreendedores a terem mais sucesso, propriedades acessíveis, e por outro lado facilita a habitação que neste momento é uma carência enorme dentro da cidade.

MS: Uma das situações mais visíveis nas ruas e parques de Toronto é o aumento de tendas de sem-abrigo. O que estará a causar esta situação e que solução acha que poderá ser adotada para a resolver?

IC: Nós sabemos que as grandes dificuldades que existem em Toronto, e eu penso que isto é geral em todo o Canadá, e também noutras cidades, é o aumento do custo da habitação – e isso leva a que mais gente tenha menos capacidade de adquirir moradia dentro da cidade. Ora muitos dos sem-abrigo são colocados nessa situação talvez por falta de oportunidades, por falta dessa habitação acessível, algo que acaba por levar os sem-abrigo, claro, a tentarem resolver a própria situação… São os próprios que procuram soluções debaixo das pontes, ou zonas onde podem estar mais “confortáveis”, dentro do desconforto.

A Câmara de Toronto tem um programa que se dedica a aumentar a capacidade de resposta rápida – ou seja, de forma a que a pessoa dentro de 24 horas tenha a possibilidade de estar no local acolhedor. Há várias agências em Toronto que tentam dar a esses sem-abrigo uma cama. Portanto, a Câmara neste momento, juntamente com essas agências, tem vindo a criar mais camas. Mas claro que a resposta ainda não é suficiente. Há mais de 9 mil sem-abrigo em Toronto, no entanto a cidade só tem à volta de 7 mil camas para oferecer como resposta – ora, há aqui uma parte que fica sem possibilidade de resolução.

Mas existem locais de acesso rápido, que podem ser usados por qualquer pessoa, só que nem toda a gente aceita essa solução.

MS: Há ainda uma consequência visível do aumento do número de tendas e dos abrigos temporários que Khaleel Seivwright, carpinteiro de profissão, teve a ideia de construir– há uma óbvia alteração da paisagem da cidade. Este facto deve afetar particularmente um arquiteto…

IC: Por um lado, afeta toda a gente porque nós temos que considerar logo dois aspetos: um são as condições da vivência, da habitação, e outro é a segurança dessas pessoas. Aliás, podemos até adicionar a segurança dos próprios espaços onde estas tendas são montadas – têm que estar reunidas uma série de condições para que isso seja aceite. Em relação às “tendas” que esse carpinteiro criou, para tentar solucionar o problema, acho que a ideia é fantástica e se fosse um caso para ser analisado, ao ponto de sensibilizar os arquitetos a participarem nessa solução, e saber-se quais as condições, eu tenho a certeza que haveria muita energia que poderia ser utilizada para criar locais mais interessantes e mais agradáveis. Mas também temos que ser responsáveis e não podemos agora, de um momento para o outro, criar uma barraca em frente à nossa casa, porque achamos que é o mais viável – porque há formas, há espaços, há outras alternativas… Não estou a dizer que sou contra esta oportunidade, mas temos que ser conscientes, tem que haver uma certa responsabilidade social. Até a nível de imagem – não temos que esconder a nossa realidade, porque temos, de facto, uma comunidade de sem-abrigos que necessita de uma solução – mas também não podemos esquecer que temos essa responsabilidade social e não vamos começar agora a infringir os espaços que são públicos.

No entanto, agora que estamos a ver surgir estes espaços ilegais, a pergunta é: vamos encarar o assunto de frente e tentar criar uma solução, ou vamos simplesmente aliar-nos a ele e deixar fluir esse tipo de “soluções”? Acho que tem que haver uma certa regra. Eu acho que uma das grandes alternativas que está a ser criada, na cidade, encabeçada pela Ana Bailão, é criar uma habitação na parte de trás das casas, nas chamadas “lanes ways”, e criar um acesso, por cima da garagem, com um espaço para uma família por exemplo, para assim adicionar habitação à carência existente – para colmatar essa dificuldade.

Nós sabemos que, neste momento, em Toronto, há cerca de 300 mil oportunidades de adicionar uma unidade por cima da garagem e até ao momento só à volta de 30 mil é que estão criadas, ou seja, apenas 10% é que foram desenvolvidas. Eu acho que é de encorajar de alguma forma mais estes donos, que têm estas habitações e estas garagens, ou com incentivos, ou com redução das taxas, qualquer coisa que os incite a criar habitação. Em vez de estarmos agora a criar espaços fora e que possam afetar a responsabilidade social que temos que ter pelo espaço público.

MS: Como arquiteto que análise faz do estado atual da cidade de Toronto?

IC: Eu acho que a cidade é pacata, é interessante a forma como os espaços são desenvolvidos, porque é uma cidade com um historial recente, uma cidade que tem 150 anos. Nos últimos 20 anos eu diria que a cidade sofreu alterações enormíssimas, por isso esse ordenamento territorial dentro da cidade foi gigante: têm proliferado apartamentos e edifícios de porte alto, que tem modificado o skyline da cidade e tem, assim, criado muito mais densidade da população dentro da cidade – seja com restaurantes, bares, pontos de acesso, parques, zonas de lazer. Tem sido uma revolução nos últimos 15 – 20 anos. Para melhor!

Na minha opinião Toronto é uma cidade muito bonita, é uma cidade muito atraente, é uma cidade muito segura, muito cuidada. Acho que é uma cidade muito agradável para se viver. Nos últimos anos, a nível arquitetónico, têm surgido edifícios muito bonitos, muito atraentes, grandes projetos que têm sido feitos, e eu refiro-me por exemplo à zona da Waterfront, que tem tido assim um cataclismo enorme na procura, na oferta, mas também com qualidade de vida.

Catarina Balça/MS

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