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Restaurantes que fintam a crise com inovação

Restaurantes que fintam a crise-portugal-mileniostadium
O restaurante Praceta, em Santa Maria da Feira, tem resistido à pandemia. Não despediu nenhum funcionário e criou um serviço de entregas feitas por super-heróis e personagens da Disney.
(Maria João Gala /Global Imagens)

O leitão da Mealhada chega a Lisboa e ao Porto. O marisco de Matosinhos já tem uma aplicação para pedidos. As massas da Feira entram em casa pelas mãos de super-heróis. A comida alentejana subiu o país. E as francesinhas de Viana ganharam palco no Instagram. A maldita pandemia não travou as cozinhas de ideias. São restaurantes que se aguentam de pé, sem sacrificar empregos e sem nunca pararem, mesmo no meio do vendaval.

É quase meio-dia. A esta hora já as mais de 50 mesas do restaurante começavam a encher para acabarem a rebentar pelas costuras em pedidos que se acumulavam atrás do balcão. Num lugar em que a fama se senta em cima de 74 anos de trabalho, não é de admirar que não se desliguem os fornos nem se verguem a portas trancadas. Paulo Rodrigues ergue uma caixa de cartão comprida para mostrar lá dentro um leitão. Como essa, tantas outras prontas a entrar estrategicamente, deitadas, na mala do clássico Renault 4L amarelo incandescente em que investiu já durante a pandemia. É o amarelo do Rei dos Leitões, o amarelo de quem não se resigna a um revés que rouba poupanças e, para muitos, grita desespero. Aqui, as mesas estão vazias de gente, mas as bagageiras estão cheias. Aqui, reinventou-se.

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Paulo Rodrigues, dono do restaurante Rei dos Leitões, tem resistido à pandemia. Mantém todos os 15 funcionários a trabalhar, e investiu em carros para fazer entregas de leitão por todo o país, além de ter criado parcerias com restaurantes de Lisboa e Porto. (Maria João Gala /Global Imagens)

Foi de amarelo — não é a cor da esperança, mas bem podia ser – que o empresário, que há uma década trocou a banca pelo negócio de família da mulher Licínia, quis pintar o ano negro em que os desvios da A1 para a Mealhada se apagaram do mapa. Março de 2020, já lá vai um ano. As portas fecharam, “uma semana ou duas a coisa resolve-se”, acreditava ele. Não aconteceu. Nem esperou por milagreiros. Não podia ficar em casa, “ia morrer de tédio”. Um ano antes, recebia o título de Melhor Restaurante da Europa 2019, pelo Conselho Europeu de Confrarias Enogastronómicas. Não se agarra à história, ordenou o regresso ao trabalho, de todos, ainda em março. Já antes do vírus, fazia take-away e entregas pelo país. “Bragança, Lisboa, Porto. Mas nunca com esta intensidade.” Aos dois carros que tinha juntou mais dois 4L para mais e mais entregas. Têm estampado o afamado nome: Rei dos Leitões.

600 metros quadrados vazios, está lá ele, de calças cor da neve e casaco amarelo, “e o pessoal” a ver a bola, a jogar às cartas. Agora há tempo. Nem um único despedido, garante. “Tenho 15 funcionários, todos com contrato sem termo e o ordenado mais baixo são mil euros líquidos. Éramos menos há um ano. Ainda contratei na pandemia. Era desumano nesta altura mandar gente embora. Nas alturas de muito trabalho, eles também estiveram cá.” Os que faziam serviço de mesa, agora fazem entregas. Tinha gasto meio milhão em obras na cozinha pouco antes de o vírus bater à porta. Mesmo assim não se agarrou a apoios, nem sequer ao lay-off. Empréstimos nem vê-los, tinha “fundo de maneio”. Pode não vender oito a nove mil leitões por ano, como antes, mas ainda saem uns 120 por semana. Quebras? “Claro, mas diminutas, não chegam a 11%.” Agora, até ao Algarve vai levar leitões. “Já temos uma base de dados de clientes. Se recebemos uma encomenda de Guimarães, avisamos outros e acabamos a juntar uma carrada.”

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Restaurante O Nobre, Campo Pequeno uma sessão fotográfica com a chef Justa Nobre que fala das novas exigências e de que forma se adaptou para abrir durante a pandemia da covid 19. (Orlando Almeida / Global Imagens)

De cada vez que o telefone toca, vai anotando nomes por regiões num quadro. Começa no Norte, acaba no Sul. Quando juntam o suficiente, metem pés ao caminho. Se a encomenda “for boa”, nem cobram a entrega. Janeiro de 2021, novo balde de água fria a enganar-lhes a esperança. Mais infetados, trancas à porta dos restaurantes. Outra vez. Paulo pouco se importou. A máquina já estava oleada e fez parcerias com dois restaurantes. Primeiro, com o Solar dos Presuntos, em Lisboa. Depois, com Os Lusíadas, em Matosinhos. Já há muito que queria vender os seus leitões no Solar dos Presuntos, só agora lhe sobrou horas no relógio da azáfama de quem vive da restauração. Às quartas e sábados, há leitão por encomenda na capital. Sextas e domingos, em Matosinhos. “Entre 20 a 25 leitões para cada um. Já nos contactaram mais restaurantes, mas deixa de fazer sentido.”

Um negócio bebé que não parou

No meio do caos que ceifou vidas, roubou empregos, destronou negócios e desarrumou o Mundo, houve quem se erguesse sem sacrificar empregados e sem nunca apagar as luzes da cozinha. Até mesmo quem não somava dezenas de anos a amealhar em pés-de-meia. Inovou-se, muito. No Instagram, os vídeos venceram a distância. Os protagonistas? Tiago Cerqueira e Tânia Almeida, marido e mulher. Em performances dignas dos Oscars da Restauração, se eles existissem. E os clientes pedem mais em jeito de aplausos.

• No Canadá a história tem sido um pouco diferente, fique a saber mais, clique aqui.

Não deixaram cair o bebé que fizeram nascer há quatro anos, mesmo no centro de Viana do Castelo. Para lá do balcão preto do Cerqueira”s Lounge & Restaurant, debaixo dos candeeiros cobertos de plantas, os clientes esfumaram-se. As mesas esvaziaram. Mas a vontade de vencer, acelerada pela idade (têm 28 anos), não os deixou parar. Tiago promete, seguro do que diz, que é ali que mora a melhor francesinha de Viana. “Basta perguntar aqui na rua.” Segurou os nove empregados, com a ajuda do lay-off parcial, teve que “pensar nas famílias de quem está” com ele. Não podia esperar que o Governo os salvasse. E pela primeira vez desde que o Cerqueira”s deu os primeiros passos, lançou-se no take-away e nas entregas.

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