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Inflação a zero dá poder de compra a 3,5 milhões de portugueses

Economia

Funcionários públicos, pensionistas e trabalhadores com salário mínimo beneficiam. Perdem os recibos verdes e os patrões afetados pela pandemia.

Os funcionários públicos, os pensionistas e os trabalhadores que auferem o salário mínimo nacional foram as classes que ganharam poder de compra em 2020, saindo beneficiadas com a variação nula do índice de preços no consumidor. Há pelo menos 3,5 milhões de portugueses que ganharam poder de compra em ano de pandemia, mas todos os empresários e prestadores de serviços que viram os seus produtos desvalorizar ou tiveram quebras de produção também perderam.

Instituto Nacional de Estatística (INE) confirmou, em janeiro, que a taxa de variação homóloga do índice de preços no consumidor (taxa de inflação) foi nula em 2020. Isto quer dizer que o preço médio dos produtos e serviços se manteve estável, o que significa que “quem tenha tido algum aumento do rendimento, por muito marginal que seja, teve ganhos reais”, explica João Cerejeira, economista e professor da Universidade do Minho.

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Crédito: Markus Spiske

Ganho nos salários

A generalidade dos 700 mil funcionários públicos teve um ganho salarial de 0,3% no ano passado, sendo que aqueles cujos salários estavam abaixo dos 700 euros também tiveram um acréscimo de dez euros, correspondentes a cerca de 1,5%.

Cerca de dois milhões de reformados que recebiam até 2633 euros também foram aumentados e ganharam poder de compra. Os aumentos foram maiores para as pensões mais baixas, mas não foram além dos 0,7%, que, mediante a taxa de inflação nula, acabou por ser o ganho real em poder de compra. Da mesma forma, a subida do salário mínimo (de 600 euros para 635 euros) também implicou que 850 mil trabalhadores por conta de outrem ganhassem poder de compra.

Em sentido inverso, perderam os trabalhadores independentes, cujo bem ou serviço vendido desvalorizou, as respetivas empresas desses setores e os seus empresários. Os números do INE demonstram que a pandemia influenciou muito a variação de preços.

“Esta inflação nula é um sinal de quebra na procura e aumento da poupança, porque o consumo retrai”, constata João Cerejeira, que ressalva que a política monetária do Banco Central Europeu e a desvalorização do dólar também contribuíram para a taxa nula.

Os livros (-28,8%) registaram a maior deflação, seguidos dos transportes aéreos (-12,5%), dos combustíveis (-11%) e dos transportes navegáveis (-10,2%), o que sugere que a paralisação dos movimentos sociais desvalorizou os serviços diretamente relacionados.

Já a desvalorização do livro é uma incógnita desfeita por Duarte Pereira, dono da livraria Snob, em Lisboa: “Hoje, toda a gente vende livros, porque estamos rodeados de livrarias online e nas redes sociais”.

Ciclo recessivo preocupa

Embora, em janeiro, a inflação da Zona Euro já tenha regressado a valores positivos (0,9%), esteve cinco meses em terreno negativo durante 2020 e deixou preocupados os principais agentes políticos europeus. A Grécia (-2,4%), a Eslovénia (-1,2%) e a Irlanda (-1,0%) foram os países com maior deflação. Embora, à partida, a descida de preços possa parecer boa, a deflação é mais grave que a inflação. A redução dos preços leva ao adiamento de compras na expectativa de maiores baixas, o que prejudica a receita das empresas, que deixam de investir e contratar. Neste ciclo recessivo, sobe o desemprego, baixam os salários e as dívidas ficam mais difíceis de pagar. A ameaça da deflação esteve em cima da mesa após a crise das dívidas públicas (quando Portugal pediu ajuda externa) e volta a pairar sobre um grande número de economias europeias.

10,8% de taxa de poupança das famílias

Essa taxa aumentou de 10,5% para 10,8% entre setembro de 2019 e setembro de 2020. A quebra no consumo foi decisiva.

7,6% de queda do produto interno bruto

O PIB caiu 7,6% em volume durante o ano de 2020. O Governo apontava para uma contração de 8,5%, a União Europeia previa 9,3%, o Banco de Portugal 8,1% e a OCDE 8,5%.

Pandemia

O confinamento de março e abril do ano passado, bem como a limitação de outros negócios durante um período mais alargado, teve reflexo direto na descida dos preços, decorrente da diminuição da procura. É o caso dos setores do vestuário e do calçado.

Leia também: • Portugal deve receber 58,3 milhões de euros para atenuar consequências do Brexit

Envelhecimento

Nos países onde o envelhecimento é maior, há uma tendência para o aumento da poupança e da consequente diminuição do crescimento do consumo, que é moderado e, sobretudo, redirecionado. Isto atenua o aumento da inflação pelo lado da procura.

Desvalorização

O euro face ao dólar tem vindo a valorizar, o que faz com que as mercadorias importadas, que são pagas em dólar, também sejam desvalorizadas. O efeito da moeda mais forte é um dos principais fatores para definir a inflação de um país, pois baralha os preços.

JN/MS

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