Açores

Tio, obrigada pelas estórias

17 anos se passaram. Verifiquei o dia. Estava-se, como rezam as estórias, em fevereiro de 2001.  Ao longe, a fofinha ladra e, eu chamo por ti filho, tinhas então nove anos. Convidei-te, tio, para vires jantar a minha casa, para me contares a história. Tu eras o meu tio favorito. Havia entre nós um entendimento de silênios, uma doce cumplicidade. Tu eras  calmo, gostavas de festa, saboreavas a tua liberdade, amaste aqui e ali, e foste, um dia, abandonado também.  Por ela, a mulher dos sonhos e pela filha, que deixou de dar notícias depois das Américas, a qual criaste, pai solteiro. Ela, que te perseguiu como um fantasma, todos os dias da tua vida. Esperaste cartas, visitas e fotografias que o carteiro nunca deixou à tua porta. E, quando finalmente ela chegou, um dia, já tu eras outro e, ela era uma mulher que desconhecias, marcada pelos dissabores da vida. Não viste a menina de óculos e carrapito.  E depois, ela foi-se, e perdeu-se para ti, para sempre, nos confins da Califórnia.

Nunca pensei escrever uma crónica para ti, mas ela aqui vai tio, também de longe. Porém, agora as distâncias não importam, porque onde tu estás, o tempo não existe, os mares não separam e as cartas já não unem, porque tio, já ninguém escreve cartas…

Foi com emoção, que após semanas de procura no Kijiji, encontrei um leitor de cassetes da Sony, relíquia nos tempos que correm. Das muitas pequenas cassetes, que esperam um ouvido atento, foste a primeira que procurei, para tornar a minha estória, mais una.

Somos o fruto dos passados que vocês acarretaram. Herdámos as cicatrizes e as nódoas negras, que com os anos se aninharam, nos nossos corpos, sem pedir licença. Para a libertação de culpas, procuramos as estórias e o entendimento delas. Vasculhamos pelas alegrias, celebrações e os exemplos, para que possam aliviar este ADN, que herdamos e que transmitimos.

Sabes, deveria ter convidado o meu pai, o teu irmão, para jantar comigo e perguntar-lhe a sua história, que ele tentou retalhar, quando eu, nenhuma atenção lhe dava. Mas nunca o fiz, e o porquê, eu também o retalho.

Porém, hoje vivi-o, mesmo assim, através de ti. Sei que pediram esmola, que depois das cheias construíram a vossa casa de palha e pedra no Coucinho, no Porto Formoso, que saltaram durante seis dias os calhaus a chupar milheiros, enquanto a vossa mãe, de olhos verdes, gritava como uma louca, à procura do seu homem, que as vagas do mar das Calhetas, levou num dia de verão.

O meu avô, encontrou-o um militar que se banhava em Rabo de Peixe, e foram eles, os Baleias, que se juntaram para construir um caixão tosco, onde ele foi a enterrar, sem pompa nem circunstância, no cemitério da mesma freguesia.

Soube por ti que as mulheres foram servir, que iam de xaile a cobrir a cara para a missa da manhã, quando já tinham os noivos fora, e que a minha avó era a melhor parteira da ilha, reconhecida pelos médicos, e que ela acompanhava as mães e recém-nascidos durante uma semana, e que vocês ficavam em casa, sem ela. Os pagamentos, estes eram feitos de conduto de porco, quando a fartura batesse à porta das parturientes mais pobres.

Que tu, com os teus irmãos e irmãs, corrias descalço para o quartel à procura da sobra do jantar, e que a tia ostentou, toda a sua vida, uma cicatriz que resultou da queda que deu depois de ter levado um estalo de um militar; que na vossa passagem pela ilha Terceira foram brindados, com as esmolas perdias, pequenos brindeiros deixados nos muros, recheados de chouriço e deixados por doadores anónimos.

“É sinhô, uma esmolinha!” Era assim que a gente pedia. E quando não davam, o teu pai amanhou uma cantiga: “Soca vermelha, soca rajada, trinca o cú, aqui não dá nada!” Sabes lá, Humberta, o que se passou naquele tempo. Que miséra era aquela.”

Em mim estão as tuas estórias: a minha avó aflita a saltar as pedras do calhau, o meu avô a lutar contra as ondas e a olhar, pela última vez, a freguesia e a torre da igreja; o meu pai a pedir esmola e a carregar as pedras para construir a vossa casa; a minha tia de tigela vazia, com as lágrimas a cair-lhe, e o rosto a sangrar; os ranchos de mulheres e raparigas casadoiras a saltarem os calhaus para apanharem os “figos-da-rocha”, os quais acompanhados de umas fatias de pão-de-milho, enganavam o estômago; as vossas cantigas, as alegrias e os bailes; as guitarras e os homens e as mulheres a dançar. Soube ainda que o meu avô, “era mestre de fazer violas, que vendia para todas as ilhas, que ainda hoje, na ilha Terceira falam delas, e que existe uma na ilha do Pico.”

Ouvida a tua voz, tenho tantas perguntas para te fazer, tio Domingos. Mas nem tu, nem o teu irmão estão por perto…

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