Açores

Tiago Lopes: o homem que gere a crise

É o rosto do momento. Desde que se chegou à frente, dando a cara na gestão da crise sanitária nos Açores, pôs alguma serenidade na comunicação oficial, que estava dispersa e descontrolada. Por agora é o rosto da tranquilidade, transmitindo segurança e competência no que diz, todos os dias, a meio da tarde, em frente às câmaras de televisão e sempre no mesmo tom de voz nas respostas aos jornalistas. Mas quem é este enfermeiro que ocupa o cargo de Director Regional da Saúde? O Diário dos Açores traça o perfil de um homem que, curiosamente, criticou severamente a cadeira onde agora se senta.

Tiago Alexandre dos Santos Lopes tem 40 anos, mas já uma longa carreira no mundo da enfermagem, que começou com uma licenciatura pela Escola Superior de Saúde da Cruz Vermelha Portuguesa (2003).

Diz quem o conhece que foi sempre um bom aluno, pacato, estudioso e muito interessado pelas questões de saúde.

Foi neste sentido que resolveu obter uma Pós-Licenciatura de Especialização de Enfermagem de Reabilitação e uma Pós-Graduação em Gestão de Enfermagem em Unidades de Saúde, demonstrando uma tendência natural para se “ocupar do próximo”, “socorrer quem precisava”.

Resolve, em 2014, ingressar no Hospital da ilha Terceira como Enfermeiro Especialista em Enfermagem de Reabilitação na Unidade de Tratamento, colaborando, depois, na qualidade de Perito, com a Inspecção Regional de Saúde entre 2014 e 2015.

Uma primeira vitória aos 31 anos

É nesta altura que lhe lançam um desafio para o qual, segundo dizem os mais próximos, estava convencido que não teria muitas hipóteses: concorre a Presidente do Conselho Directivo Regional da Ordem dos Enfermeiros.

É o mais novo dos três candidatos que participam nas eleições, mas consegue vencer, derrotando os colegas Luís Ferreira e Luís Picanço.

“Recordo-me que encarou a vitória com a mesma serenidade que apresenta hoje”, conta ao nosso jornal um colega de então, “ e tratou logo a seguir de colocar em prática o que tinha prometido aos colegas durante o período eleitoral, que era, essencialmente, unir os enfermeiros na região e partir para uma jornada de reivindicações para dignificar a profissão”.

Ele próprio aceita com humildade os resultados das eleições: “Com 31 anos não tenho o currículo dos outros candidatos, mas a verdade é que já passei por várias instituições, no continente e nos Açores, em S. Miguel e na Terceira”, afirma logo a seguir a ser eleito, salientando que a sua experiência profissional lhe permite conhecer as “dificuldades” que afectam a classe e a profissão.

Diz que vai liderar uma equipa que “reúne a experiência dos mais velhos e a sabedoria e vontade dos mais novos” e co- loca imediatamente na agenda uma série de reuniões com a Secretaria da Saúde e responsáveis hospitalares. E parte na sua cruzada contra aquilo que considera estar errado no Serviço Regional de Saúde.

Críticas ao Serviço Regional de Saúde

Declara que as políticas de combate às listas de espera cirúrgicas na Região não têm surtido efeito e reclama “políticas efectivas” para combater aquilo que considera ser um “flagelo”.

“Já se tentou por várias vezes, foram os vales de saúde, foram os incentivos de combate às listas de espera cirúrgicas que não trouxeram os resultados que se pretendiam. No continente também temos experiências nesse sentido, mas há um aperto maior junto das unidades de saúde para fazer uma melhor gestão. A nível regional, as coisas parece que vão andando um bocadinho à bolina e não se implementam políticas efectivas para combater esse flagelo”, critica Tiago Lopes.

Torna-se uma voz inconformada em defesa do papel dos enfermeiros na região, acusando unidades de saúde e misericórdias de se aproveitarem do trabalho dos enfermeiros que fazem o programa estagiar L.

“As vagas de quadro não estão a ser preenchidas porque são ocupadas por estagiários”, denuncia então.

Mais tarde resolve ser mais activo junto da opinião pública na transmissão dos problemas dos enfermeiros e assina uma coluna regular no Diário dos Açores, onde expõe, em dezenas de artigos, todo o seu pensamento à volta do Serviço Regional de Saúde e o papel dos enfermeiros no sistema.

Era muito pontual na entrega dos seus artigos, gostava de conversar com os responsáveis da redacção para perceber se o seu estilo de comunicação era o mais assertivo e preocupava-se imenso com isso: comunicar sim, mas com clareza e credibilidade para que todos possam compreender, tal como revela agora nas conferências de imprensa diárias.

Uma outra característica de Tiago Lopes, enquanto profissional da saúde, é o modo como trata os doentes.

Não é expansivo, mas tem sempre a palavra certa e o gesto tranquilo, deixando marca a quem o conhece.

Um dos doentes que viveu uma experiência com ele foi José Manuel Santos Narciso.

O que dizem dele os doentes

É que Tiago Lopes também exerceu, como Enfermeiro Especialista, enfermagem de Reabilitação no Serviço de Medicina Física e Reabilitação do Hospital de Santo Espírito da Ilha Terceira e foi Enfermeiro Especialista em Enfermagem de Reabilitação da Unidade de Cinesiterapia Respiratória do Hospital do Divino Espírito Santo de Ponta Delgada, para além de enfermeiro Graduado no Serviço de Lesões Vértebro-Medulares do Centro de Medicina e Reabilitação de Alcoitão.

Santos Narciso, em 2009, esteve in- ternado no Hospital do Divino, vítima de Guillain Barré, ficando dois meses nos cuidados intensivos e na Medicina 4. Tiago Lopes foi quem o acompanhou na sua transferência para Alcoitão e lá fez a “transferência” de Santos Narciso para aquele hospital, onde esteve internado quase dois anos.

“Dele só posso dizer que tem uma personalidade distinta e humanista que imponha respeito e confiança. Antes de vir para o Hospital de Ponta Delgada, Tiago Lopes fez serviço no Centro de Medicina de Reabilitação de Alcoitão, e recordo-me do respeito e carinho com que os colegas e outros profissionais de saúde falavam dele lá em Alcoitão”, conta ao nosso jornal Santos Narciso.

“É das pessoas que, depois de conhecermos, nunca mais esquecem. Não é de muitas palavras, mas em tudo o que dizia conseguia uma carga de estímulo grande para o doente e para os familiares acompanhantes. Segui com muito interesse a sua firmeza no tempo em que esteve à frente da Ordem dos Enfermeiros e agora vejo, com respeito e admiração a forma como dá a cara, comunicando com seriedade e precisão, no meio desta crise”, sublinha José Manuel Santos Narciso.

E remata: “Para mim, Tiago Lopes é o exemplo de alguém que encara a política como serviço e que está no lugar certo porque tem tarimba e calo que só a profissão bem exercida pode dar. Para ele, bem como para quantos me trataram, só há uma palavra: gratidão”.

O maior desafio é agora

Quem conviveu com ele diz que é introvertido publicamente, não gosta muito dos holofotes, mas tem muito sentido de humor entre amigos e está sempre pronto a ajudar o próximo.

É dentro deste contexto que os que o rodeiam ficaram surpreendidos com a sua nomeação para Director Regional da Saúde, um cargo de confiança política, de que ele era um crítico.

“Acho que ele próprio também terá ficado surpreendido com o convite”, diz um enfermeiro que colaborou com ele, “mas se julgavam que ele fugiria ao desafio, aí está à vista de todos: penso que ainda inconformado com a saúde na região, mas seguro e competente no que está fazer, ao ponto de ter arrumado de vez com a Secretária a Saúde, que nunca esteve à altura”.

Agora tem outro desafio, provavelmente o desafio da sua vida: gerir todo o sector para travar ao máximo a entrada do coronavírus e tranquilizar, todos os dias, 240 mil cidadãos ansiosos.

Diário dos Açores

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