Açores

Médica acusa Centro de Saúde de do Pico de a impedir de trabalhar

Uma médica do Centro de Saúde de S. Roque do Pico escreveu uma carta aberta no “Jornal do Pico” acusando a Presidente do Conselho de Administração daquela unidade, Cláudia Cabrita, de a ter impedido de trabalhar no referido Centro.

Dirigindo-se aos seus pacientes daquele Centro, a médica Tânia Ferreira, com 18 anos de profissão, começa por explicar que devia ter entrado ao serviço no dia 14 de Outubro, mas foi informada, dois dias antes, pela sua empresa “que a Dra. Cláudia Cabrita, presidente do Conselho de Administração, não me queria em São Roque e que eu fosse colocada nas Lajes”.

“O meu contrato com a empresa é com o Centro de Saúde de São Roque e não no concelho das Lajes. Logo, não fui trabalhar para esse concelho. Perguntei eu a razão para tal decisão e foi-me dito pela Dra. Joana, responsável pela empresa Precise, que os senhores enfermeiros não se sentiam confortáveis com a minha presença, não me queriam no serviço, não porque não sou uma “boa médica”, mas sim porque sou exigente, porque estou habituada a trabalhar num Hospital em Lisboa”, escreve a médica.

Acusação aos enfermeiros

Tânia Ferreira faz a seguir uma denúncia: “Os enfermeiros de São Roque querem decidir as transferências para a Madalena ou para o Hospital do Faial, quando essa decisão é médica. A desculpa é: “os enfermeiros do Centro de Saúde da Madalena não têm nada para fazer”. Os doentes para serem transferidos têm que estar estabilizados, ainda antes de sair de qualquer Unidade Hospitalar. Sou eu que tenho de assumir as transferências e internamentos. A ORDEM no Centro de Saúde de São Roque é transferir, para que o internamento fique “mais leve e mais calmo”. Para que assim o serviço seja mais fácil na hora dos banhos, fraldas, alimentação e medicação. Desde que cheguei há 11 meses, nunca me deixei ser pressionada. Sou médica e responsável pelos meus atos, logo qualquer erro é-me imputado a mim. Sou eu que respondo em tribunal. Foi fácil perceber que tendo um computador com acesso à internet no internato, os senhores enfermeiros tratam da sua vida pessoal através do mesmo, desde o facebook, à gestão de reservas de hotéis, à compras de roupas, bem como, no tempo de horário de serviço, faz-se vendas por catálogo. Os enfermeiros que têm alojamento local, e neste caso só assisti a uma enfermeira, a ter esta atitude de utilização de tempo de serviço a favor deste “trabalho pessoal”.

Depois de acusar os enfermeiros de outros abusos, a médica revela que os doentes têm que trazer “a maioria da medicação de casa, já que o Hospital não a compra. São doentes internados!!! que vão à Farmácia comprar medicação. A Fármácia Picoense conhece o problema”.

Não há soro pediátrico

A médica denuncia ainda que “não existe um único soro pediátrico (1/3 a 1/6). Eu quando tento equilibrar o doente tem de ser com soro de adultos. Não temos uma intra-óssea, fundamental numa emergência pediátrica, nem temos uma zaragatoa para colocar na garganta das crianças para diagnóstico. Note-se ainda que o Centro de Saúde de São Roque não tem um ventilador portátil por avaria e nunca foi comprado nenhum, logo se for necessário transferir doente para outra Unidade de Saúde não há ventilador”.

Tânia Ferreira vai mais longe nas denúncias: “Das 8h às 20h, quando é adjudicado o serviço, dizem ter um enfermeiro presencial nas urgências e um no internamento, o que não corresponde à verdade, pois os enfermeiros de serviço encontram-se no internamento. Os enfermeiros à custa da USIP vão a vários cursos, SAV, SBS, suporte pediátrico, PTHLS, triagem de Manchester, tudo pago pela USIP, cursos esses bem caros, já que no continente são pagos por nós. Pergunto eu: para quê? Para o curriculum? Se os enfermeiros têm formação na triagem de Manchester porque não aplicam? A Dra. Cláudia Cabrita devia estar preocupada com esta situação. Nunca à chegada ao Serviço de Urgência, o carro de enfermagem é testado por nenhum enfermeiro. Deveria ter uma ficha, onde é colocada a hora e se estava a funcionar correctamente e quem fez o teste. O número de visitas por quarto não é controlado. Entram as visitas que querem em ambiente hospitalar. Muitas vezes em quartos com 3 camas”.

Comida pobre em proteínas

Escreve, ainda, na carta publicada no “Jornal do Pico”, que a “comida que vem da Santa Casa é pobre em proteína e é colocada num tabuleiro com uns orifícios usados nas prisões. O doente deixa cair sopa para o segundo prato, etc. Também nada disto tinha visto. Alguns dos doentes têm dificuldade em engolir, logo é mais fácil comer gelatina que beber água. Fui informada que não há dinheiro para gelatina e para se usar espessante. Já agora, dirija-se à farmácia e perguntam qual o preço do espessante? Não há dinheiro para gelatina mas gasta-se em espessante. É assim a gestão do dinheiro dos nossos impostos. Ao sábado e domingo, não temos condutor para ir à Madalena entregar o sangue, ao contrário dos outros dias. A bizarria continua com a ida do doente ao Centro de Saúde da Madalena para colheitas, retornando depois o doente a São Roque. Isto é normal? O aparelho de “rx” está obsoleto e no entanto não se adquire outro. Nem todos os dias há técnicos de “ECG”. São mais os dias que não temos, do que os que temos”.

“O horário, nas urgências, do Centro de Saúde que falo, é das 8h-20h em presença física, ou seja o médico está no centro. Depois das 20h até às 8h está de chamada e só deve ser chamado em urgência, tendo 45 minutos para chegar à urgência. Ao sábado, o médico está de presença física das 8h às 14h, e depois só de chamada para urgências. No domingo, o médico está só de chamada e de urgência. A população tem que perceber que o médico que tem à frente é humano e que precisa de descansar. Logo, se necessitarem ir ao Serviço de Urgência, não hesitem, desloquem-se nas horas em que o médico lá está. Se for em urgência não hesitem também serão atendidos”, escreve a médica.

Dinheiros desperdiçados

E acrescenta: “Dos 11 meses que aí estive, a SIV foi ativada principalmente para alcoólicos. A SIV só trabalha das 8h ás 24h. Se calhar, era preferível existir SIV das 16h ás 8h em dois turnos. Gasta-se dinheiro, mas era produtivo. Casos graves, com a necessidade da SIV, só recebi dois. A SIV é um meio caro de se manter e da forma como está serve para os enfermeiros e os bombeiros ganharem dinheiro e a população dormir descansada”.

E continua: “A “TAC” da Madalena não tem contraste. Logo, na maioria das vezes os doentes vão para o Centro de Saúde da Madalena e a seguir para a ilha do Faial. A “unidade” de São Roque tem duas camas de cuidados continua- dos e uma equipa que as gere. São camas usadas para reabilitar doente no pós operatório, pós-quimioterapia, enfim, são camas pagas conforme a reforma do doente (…) O Faial recusa-se a realizar o processo e a equipa de São Roque demoRa a dar o seu parecer, um parecer que se desbloqueia em 24 horas. Devido a este facto, o Centro de Saúde de São Roque está a perder dinheiro, já que o governo paga estes internamentos”.

E termina a carta: “As alegações e acusações que faço nesta carta, não são para prejudicar o Centro de Saúde de São Roque, mas sim para melhorar a assistência às populações que serve. Também posso referir, com o que aqui descrevo, não voltarei mais a prestar serviço para a USIP, porque me tornei uma persona non grata. A vós, gente simples, muitas vezes esquecidos, um abraço. Um bem-haja. Tânia Ferreira. Licenciada em Medicina na FML (18 anos de profissão), com pós-graduação em Medicina Tropical”.

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