Açores

Faial: Crise sísmica não é motivo para alarme

Continuava durante o dia de ontem a actividade sísmica ao largo da ilha do Faial. Desde o início do mês, mais precisamente desde 3 de Novembro, mais de mil sismos foram registados a cerca de 25 a 35 quilómetros a oeste do Faial, mas apenas alguns foram sentidos pela população.

O abalo mais forte até agora sentido teve magnitude de 4.2 na escala de Richter e foi sentido no Faial, Pico e São Jorge. Ocorreu às 4h36 de terça-feira, 12 de Novembro, com o epicentro a cerca de 30 quilómetros da freguesia do Capelo, concelho da Horta, segundo foi avançado pelo Centro de Informação e Vigilância Sismovulcânica dos Açores (CIVISA).

O fenómeno não é, contudo, motivo para alarme. Segundo a opinião do cientista Víctor Hugo Forjaz, é uma situação recorrente, que se repete ao longo dos anos na mesma área, e que poderá dar origem à formação de uma nova ilha. Para quando, não se sabe.

“Os elementos que eu tenho, recolhidos de várias entidades, dizem que se trata de uma crise tectónica, em que o fundo do mar está a sofrer reajustamentos, e que se localiza numa zona que é conhecida há muitos anos”, afirma, em declarações ao Diário dos Açores.

O vulcanólogo, que já não se encontra no activo, recorda ser “comum, de tantos em tantos anos, ocorrerem naquele mesmo local um elevado número de eventos, que não têm características vulcânicas, mas sim tectónicas”, e reitera não ser caso para alarmar a população.

“Apenas uma parte muito pequena destes sismos é que é sentida, por ser de fraca energia, entre 2,8 a 3 na escala de Richter. No Faial, as zonas mais afectadas são o Capelo, Salão e algumas vezes a Horta. Mas são eventos que não oferecem preocupações em termos de instabilidade e segurança”, garante.

No futuro, o surgimento de uma nova ilha poderá vir a ser uma realidade. “É uma zona onde se poderá estar a gerar uma nova ilha”, aponta Víctor Hugo Forjaz. “Isto talvez daqui a centenas de anos. Não podemos dizer quando”, refere.

Segundo recorda, “há mais de 30 ou 40 anos, já o professor Frederico Machado [especialista nas áreas da Geologia e da Geofísica] seguia estas crises sísmicas, que ocorriam sempre na mesma zona, com pequenas migrações para mais a norte ou mais a sul”.

“Se vier a surgir uma ilha, não é um acontecimento novo nos Açores. Isto já ocorreu há muitos, muitos anos. O surgimento das ilhas está sempre acompanhado de fenómenos sísmicos, apesar de serem de natureza vulcânica”.

Para o cientista, fazer naquela zona o levantamento topográfico do fundo do mar seria essencial. “Durante o verão, esteve nos Açores um navio oceanográfico português e nenhuma autoridade da protecção civil pediu que ele se deslocasse àquela zona, para fazer um levantamento sistemático dos fundos, de forma a fazer-se uma comparação com os dados de outros anos”, lamenta.

“Esta informação dar-nos-ia uma outra segurança”, acrescenta, salientando que “comparando os vários anos, poderíamos ter dados mais seguros e perceber a evolução topográfica ao longo do tempo do fenómeno”.

Víctor Hugo Forjaz frisou que “ninguém se pode pronunciar sobre a energia destes sismos, que se mede através da escala de Richter, mas não será natural que os sismos futuros alcancem valores muito superiores aos já registados. Claro que isto resulta de um seguimento cuidado do fenómeno ao longo dos tempos”.

“Exagero na informação transmitida”

Em declarações ao nosso jornal, o cientista foi ainda muito crítico em relação à forma como a informação sobre a actividade sísmica tem sido transmitida à população. Informar sem alarmar é o que defende. “Tem havido um grande exagero na forma como a informação é revelada”, diz, alertando que os comunicados “devem ser elaborados de forma a informar as pessoas, mas também a acalmá-las e a serená-las”.

“Para quê dizer que houve mais de mil sismos?”, questiona, considerando ser esta “uma informação de interesse meramente científico”.

“As pessoas ficam muito assustadas com estas informações e não há necessidade. Na realidade, os cientistas também têm obrigação de ajudar a população, não de alarmá-las”, frisa.

Na opinião de Víctor Hugo Forjaz, as populações estão “assustadas porque a informação é elaborada e divulgada de uma forma pouco sociológica, sem preocupações de acalmar as pessoas”.

“Eu, que tenho pessoas conhecidas no Faial e até parentes, não estou preocupado com o desenrolar desta crise sísmica, que deveria ter sido divulgada com outros cuidados: com mensagens cartográficas, com mapas de evolução, com cortes geológicos, com as características dos sismos, as suas profundidades, sobre o sentido do movimento – se é esquerdo ou direito -, se há migrações hipocentrais e epicentrais…”, enumerou o especialista.

Diário dos Açores

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