Açores

Alterações climatéricas: Ponta Delgada com muitas vulnerabilidades

Um estudo divulgado esta semana prevê que mesmo com cortes drásticos das emissões poluentes a subida do nível das águas a partir de 2050 ponha em risco 300 milhões de pessoas. A Ásia será a zona mais afectada. Portugal, graças à sua longa costa, tem várias zonas de risco.

No mapa interactivo disponibilizado pelos autores do estudo em colaboração com a organização Climate Central, são várias as zonas “vermelhas” assinaladas: a de Aveiro, do estuário do Tejo (as Lezírias são uma vasta mancha rubra), do Sado, e a Ria Formosa.

Aparentemente, nem a Madeira nem os Açores apresentam zonas de risco para 2050.

Mas Benjamin Strauss, um dos autores do estudo, chama a atenção para a necessidade de que governos e empresas aeroespaciais apresentem dados mais precisos sobre a elevação geográfica.

A opinião de Félix Rodrigues

Sobre este assunto, o “Diário dos Açores” pediu a opinião de um especialista na matéria, o cientista açoriano Félix Rodrigues, que começou por explicar que, “relativamente à vulnerabilidade das populações à subida do nível médio da água do mar, é já um ponto assente que o impacto será desastroso, porque a maioria das grandes cidades se localiza na orla costeira quer de continentes quer de ilhas”.

E acrescenta: Há cenários mais optimistas do que outros, mas também o que é indiscutível é que o mar vai subir, independentemente de pararmos ou não neste momento as emissões atmosféricas de gases com efeito de estufa. A redução de futuros gases com efeito de estufa terá um efeito apenas na intensidade dos fenómenos”.

A taxa de subida média das águas do mar situa-se neste momento nos 3,3 milímetros por ano, o que parece pouco, mas se comparado com a taxa de subida de há três ou quatro anos atrás, que se situava nos 2 mm/ano, verificamos claramente que tem estado a acelerar e muito, segundo o professor universitário da ilha Terceira.

Félix Rodrigues recorda que “há vários investigadores que vêm alertando para o problema dessa subida que pode atingir 80% da população mundial, dependendo isso da capacidade de adaptação ou não das populações a essas mudanças bruscas (em menos de 100 anos)”.

O estudo da Universidade dos Açores

O cenário apontado no estudo desta semana “não é novo, pois no ano 2000 um trabalho produzido pela Universidade dos Açores (onde estive incluído), pela Universidade de Aveiro e pelo Centre de Recherche Climatologique Francês se produziu o cenário da imagem que aqui se publica e que foi publicado nessa altura pela revista Visão. Esse cenário é muito semelhante ao que a notícia refere”.

Para Félix Rodrigues, “a situação portuguesa necessita e exige urgentes tomadas de decisão política, não só no que respeita ao ordenamento do território mas também no que respeita ao repovoamento do interior do país. Essas são medidas que não produzem efeitos se não a médio longo prazo e quanto mais desvalorizamos o problema, mais crítico ele será”.

As ilhas são extremamente vulneráveis

“As ilhas são extremamente vulneráveis às alterações climáticas, dado o seu isolamento, mas a subida do mar não parece ser o impacto mais importante. Um dos cenários recorrentemente referidos é a alteração das trajectórias típicas dos ciclones tropicais, que se irão dirigir mais no sentido dos Açores e da costa Atlântica Europeia”, sublinha o cientista açoriano, adiantando que “basta ver o impacto que o furacão Lorenzo produziu nas infra-estruturas portuárias das Flores e do Corvo, e as dificuldades de abastecimento que essas ilhas têm neste momento, para perceber- mos que um fenómeno dessa natureza que atinja as ilhas mais populosas do arquipélago tem consequências desastrosas”.

“Mesmo centrando-nos exclusivamente na subida do mar no caso específico dos Açores é fácil perceber que há ilhas mais vulneráveis do que outras, e dentro dessas, localidades com diferentes graus de vulnerabilidade”, descreve Félix Rodrigues, sendo “importante que se afinem os modelos e que se estude adequadamente cada um dos espaços insulares”.

Terceira, Lajes do Pico, S. Jorge muito vulneráveis

“Nos Açores, já foi realizada uma tese de Mestrado sobre os locais e os impactos da subida do mar no caso concreto da ilha Terceira. Percebeu- se que nessa ilha há zonas muito vulneráveis como por exemplo a Praia da Vitória, Porto Judeu (zona do Refugo e Salga) e São Mateus da Calheta. Esses resultados têm vindo a ser usados, no caso do Concelho de Angra do Heroísmo, para produzir condicionantes de uso do território”, acrescenta.

“Há alguns anos atrás, um estudo alemão, centrou-se nos locais classificados como Património Mundial, entre os quais se encontrava a cidade de Angra do Heroísmo e as Vinhas do Pico. Concluíam que a subida do mar teria um grande impacto na preservação desse património”, lembra Félix Rodrigues.

“Outros alertas têm sido lançados relativamente a essa temática para as Lajes do Pico, cuja vulnerabilidade é por demais conhecida, e algumas Fajãs de São Jorge. Com este exemplos é fácil perceber que as fajãs de todas as ilhas açorianas são vulneráveis”, alerta.

Ponta Delgada com muitas vulnerabilidades

“A cidade de Ponta Delgada tem muitas vulnerabilidades a esse efeito da subida do nível médio do mar e necessita de um estudo pormenorizado. Não é possível fazer tal estudo sem se definir correctamente a cota zero da ilha de São Miguel e estudar algumas características geomorfológicas de alguns locais, significa isso, que na ausência de tais dados, o que se pode produzir é pouco preciso, mas neste momento é indiciador de uma subida com grandes impactos na zona histórica da cidade”, acrescenta ainda.

Prejuízos na ilha Terceira

“A avaliação dos prejuízos anuais na ilha Terceira resultantes da subida do mar e por consequência da ondulação, apontou para um valor de perda de pelo menos dois milhões de euros por ano. Na actualidade já se verificam perdas desse montante anual (zonas balneares e movimentos de vertente), mas não propriamente como resultado da subida do mar, mas sim como resultado da ondulação e de eventos meteorológicos já extremados nalguns casos”, diz Félix Rodrigues ao nosso jornal.

E conclui: “Independentemente de sermos ou não grandes emissores de gases com efeitos de estufa, o mundo vai mudar, e as nossas ilhas também. Sem dúvida que é urgente termos planos de adaptação que saiam do papel e que se produza o conhecimento que é deveras pertinente”.

Diário dos Açores

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Diário dos Açores
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