Açores

Açorianas propõem na ONU a consagração da Felicidade como um Direito Humano

“Felicidade dos Povos – Um Direito Humano” é como se intitula o projecto que será apresentado esta Quinta-feira, 20 de Fevereiro, nas Nações Unidas, em Nova Iorque, pelas mãos das professoras Graça Castanho, da Universidade dos Açores, e Lourdes Serpa, da Lesley University, acompanhadas de um grupo de alunas de mestrado da Universidade dos Açores e representantes das comunidades falantes do Português nos Estados Unidos da América.

A proposta que levam à ONU pretende, além de consagrar a Felicidade como um Direito Humano, alertar a população e os decisores políticos “para a necessidade de uma mudança de paradigma o mais depressa possível”. Isto mesmo explica ao Diário dos Açores Graça Castanho, coordenadora e responsável científica do projecto, que afirma que a “Felicidade é uma questão política”.

Diário dos Açores – Apresenta esta Quinta-feira, em Nova Iorque, o projecto “Felicidade dos Povos” nas Nações Unidas, que pretende ver consagrada a Felicidade como um Direito Humano. Fale-nos um pouco desta iniciativa.

Graça Castanho – A proposta de integração do Direito à Felicidade dos Povos na Declaração dos Direitos Humanos resulta de um projecto que pretende envolver instituições pelo mundo fora, movida pelo ensejo de ver consagrado o acesso ao Direito à Felicidade no leque das obrigações dos governos e de outros decisores políticos. Foi apresentada publicamente na Celebração dos 70 anos da Declaração dos Direitos Humanos, que organizamos em Ponta Delgada em Dezembro de 2018. Encontro-me, neste momento, a ultimar uma viagem histórica. Estou a partir para os EUA, com as alunas de Mestrado em Educação Pré-Escolar e Ensino do 1.º Ciclo, da Universidade dos Açores, precisamente para, esta Quinta-feira, apresentarmos a nossa proposta na ONU com muito orgulho e grande expectativa porque se trata de algo inédito, inovador e de grande relevância para toda a humanidade. No acto da entrega, teremos connosco a professora Lourdes Serpa, da Lesley University, parceira do nosso projecto, e representantes da nossa comunidade de língua portuguesa.

Esta entrega é um gesto simbólico na esperança de que esta organização possa vir a aprovar este valor inalienável na Declaração Universal. Este gesto constitui também uma forma de alertar as pessoas em geral e os governantes, em particular, para a necessidade de uma mudança de paradigma o mais depressa possível.

A Felicidade é uma questão política, na medida em que depende da classe política, cuja acção devia centrar-se no bem-estar e na qualidade de vida dos povos. Aliás, o Índice de Felicidade Interna Bruta é, hoje em dia, o diapasão para avaliar o nível do Desenvolvimento dos Povos e dos países e a qualidade da actuação dos Governantes. A Felicidade, neste sentido, começa a ser mais importante do que o PIB que traduz a riqueza, mas nada nos diz sobre a distribuição dessa riqueza e nada nos diz se a mesma se traduz em mais bem estar para as populações.

E qual a importância de se promover a Felicidade como um Direito Humano?

G Castanho – A Felicidade é uma dimensão da vida humana vista como um direito desde os Clássicos. Foi retomada, no século XVIII, pelos pensadores iluministas que defendiam a felicidade e o desenvolvimento como pilares das sociedades.

Na 1.ª Constituição dos EUA, Jefferson defendeu que os cidadãos têm o direito a procurar a felicidade. A verdade é que, hoje em dia, o direito à felicidade está contemplado nas constituições de várias nações e é um dos parâmetros de análise do desenvolvimento humano, alvo de Relatório Mundial da Felicidade, elaborado pela ONU. O Índice de Felicidade dos países é calculado com base em parâmetros distintos, tais como: rendimento, liberdade, confiança, expectativa de vida, generosidade e apoio social. Este passo gigantesco na história da Humanidade está intimamente relacionado com os resultados dos estudos realizados no âmbito da Ciência da Felicidade (The Science of Happiness).

As largas centenas de estudos e investigações realizadas pelo mundo fora mostram que o acesso à felicidade não é universal e que há caminhos, práticas, processos, dinâmicas que conduzem à Felicidade, nomeadamente Coaching, Mindfulness, Yoga do Riso, Yoga, Meditação, Relaxamento, Exercício Físico, Musicoterapia, Reiki, Arteterapia, etc. Ora, o Direito à Felicidade, hoje em dia, segundo os cientistas da área, exige uma tomada de consciência das possibilidades que facilitam a Felicidade e o exercício de práticas que a garantam.

E quem deverá promover condições para promover a felicidade dos povos?

G Castanho – As pessoas felizes são pessoas comprovadamente mais saudáveis, com mais qualidade de vida, com uma consciência maior de si e dos Outros, com um respeito significativo pelos direitos, valores e preservação da Natureza e uma capacidade de viver melhor com menos bens materiais, libertas da pressão do consumismo e da obsessão pelo trabalho e pela riqueza. Cabe, por isso, aos Governos e outros decisores políticos criar condições para que as sociedades modernas tenham, por direito, consagrado na Constituição dos seus países, mecanismos que garantam o acesso à Felicidade. É importantíssimo oferecer às diferentes faixas etárias, nos mais diversos contextos, práticas conducentes à Felicidade.

Mas que mecanismos são estes? O que podem fazer, exactamente, as autoridades para promover a Felicidade?

G Castanho – Em primeiro lugar, o Direito à Felicidade dos Povos deve estar con- sagrado na Declaração dos Direitos Humanos. Em segundo, o Direito à Felicidade deve estar consignado nas Constituições das nações do mundo não como um princípio filosófico, mas como algo passível de ser atingido pelos seres humanos através de ferramentas que os governos têm de assumir como sendo importantíssimas para a saúde das populações, bem-estar colectivo e qualidade de vida. Sabendo nós que nem todos os seres humanos possuem competências ao nível da busca da felicidade, está na hora de os países darem a conhecer a investigação que demonstra que a felicidade se procura e se estabelece com práticas holísticas de empoderamento intrínseco das populações.

Está na hora de os governos criarem Departamentos, Secretarias ou até Ministérios, como acontece já em alguns países, com a missão de coordenar e promover mais Felicidade junto das populações e de garantir que os cidadãos têm acesso a práticas que conduzem à felicidade. Os governantes precisam de perceber e valorizar o que já está a acontecer no mundo, em que milhões de pessoas praticam com regularidade meditação, yoga do riso, outros tipos de yoga, relaxamento, terapias holísticas, dança, desporto à procura de espaços e tempos de paz, tranquilidade interior, espiritualidade que conduzem à eficiência na acção e contribuem para a preservação do meio ambiente e para a paz no mundo.

Está na hora de os governos proporcionarem estas práticas às populações como forma de virem a poupar milhões nas áreas da saúde, do crime, do sucesso escolar, do envelhecimento, da preservação do meio ambiente e da paz no mundo. A OMS já fez saber que o número de doentes mentais pelo mundo fora está a crescer exponencialmente. Mais advogam que a doença mental não é tratada com comprimidos, mas sim com dinâmicas sociais e políticas que garantam o bem-estar, a segurança e o cumprimento dos Direitos Humanos. Está na hora de os Governos, ao invés de apenas comparticiparem no pagamento de medicamentos, começarem a oferecer práticas que conduzem à Felicidade.

Nos dias de hoje, falar de Felicidade já não é o mesmo que há décadas atrás. Como evoluiu o conceito ao longo dos anos?

G Castanho – O conceito de Felicidade tem vindo a sofrer grandes mudanças nas últimas décadas. Tempos houve em que ser feliz passava pelo casamento, pelos filhos, pela obtenção de casa e terras. Passamos depois a encarar a felicidade como algo possível de atingir caso tivéssemos uma fonte de rendimento estável e bens materiais que espelhas- sem publicamente essa riqueza e bem-estar.

Hoje em dia, apesar do paradigma da Felicidade, continuar a assentar no dinheiro, no trabalho e nos bens materiais, começa-se a delinear um conjunto de novas formas de viver conducentes à Felicidade. As pessoas já começaram a perceber que existem outras vias de concretização dos nossos sonhos e do nosso destino. Hoje há muita gente que vive em perfeito respeito e união com o mundo natural, enveredando por práticas que visam diminuir o consumismo e a pegada ecológica. Já se percebeu que não são os países mais ricos aqueles que se situam nos primeiros lugares no índice de felicidade, mas sim os que promovem politicas de bem estar coletivo. Hoje em dia, a Felicidade está a ser alvo de estudo nas mais diversas ciências: Psicologia, Educação, Filosofia, Gestão, Direito, Mundo Laboral, Medicina, Economia, etc. Tal acontece porque as práticas de Felicidade têm benefícios em todas as áreas de intervenção humana.

Como se identifica uma pessoa feliz?

G Castanho – As pessoas felizes são as que vivem em harmonia consigo próprias, com os Outros e com o mundo que as rodeia. São pessoas que praticam o bem, têm compaixão e perdoam. Respeitam a natureza e fazem uma gestão harmoniosa dos tempos que dedicam a si próprias, às suas famílias, aos seus amigos e à comunidade em que estão inseridas. São pessoas alegres que buscam experiências significativas, amigas do ambiente, promotoras da paz no mundo e tranquilidade nas suas vidas ao invés da ganância, da sede de poder e do acumular de bens materiais.

Somos todos capazes de ser felizes?

G Castanho – Os cientistas têm vindo a alertar para o facto que nem toda a gente tem as ferramentas para ser feliz, apesar da felicidade estar disponível. Há pessoas que a alcançam com pouco. Há outras que, tendo tudo, nunca a vivenciam. Porém, tal situação não é uma fatalidade. A Ciência da Felicidade é clara: quem não consegue pelos seus próprios meios deve apostar em práticas que conduzem à felicidade. Este é um investimento que vale a pena porque contribui para a realização pessoal, menos doenças físicas e mentais e mais produtividade em contexto laboral.

Estas ferramentas devem ser oferecidas de forma transversal e intergeracional, nomeadamente em escolas, contextos laborais, lares de idosos, no seio familiar, estabelecimentos prisionais, hospitais, etc. As práticas conducentes à Felicidade têm outra vantagem: colocam as pessoas em interacção umas com as outras, condição sine qua non para o bem-estar e a alegria. Para ser feliz as pessoas têm de manter-se ativas, apostar numa boa alimentação e no exercício físico. Acreditar, ter fé, desenvolver a espiritualidade ou praticar uma religião de forma pacífica, conviver com os amigos, manter os laços familiares, são factores igualmente importantes, à luz da ciência da Felicidade.

Enquanto professora universitária, vai continuar a trabalhar na luta pela Felicidade enquanto um Direito?

G Castanho – Com os recursos que tenho à mão pretendo ajudar na desmitificação do conceito e das práticas que conduzem à felicidade e trabalhar para que os profissionais que intervêm nas áreas holísticas e alternativas tenham formação académica garantida pelas Universidades, as verdadeiras instituições detentoras de saber científico e não por instituições cujo ensino não está reconhecido. Acredito que, se as Universidades tivessem a coragem de assumir esta responsabilidade, sem tabus e falsas crenças, abraçando uma postura de maior abertura e aceitação, e se os governos propiciassem o devido apoio no acesso a caminhos de crescimento pessoal e bem-estar, a Felicidade individual e colectiva seria uma realidade com benefícios incomensuráveis nos destinos da Humanidade e do mundo em que vivemos.

Diário dos Açores

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