África

Cabo Verde mais maduro no caminho do progresso!

44 anos de independência do arquipelago

Cabo Verde, cuja existência sempre foi marcada pela seca e pela fome que ao longo dos séculos ceifaram milhares e milhares de vida e empurraram inúmeros filhos seus para a triste e dura realidade que é a emigração, atingiu a maturidade, mas ainda tem muitos degraus por galgar para corresponder às expectativas políticas, económicas, sociais e culturais dos seus cidadãos.

País pequeno e pobre, marcado por dificuldades várias que passam por uma total ausência de recursos naturais, Cabo Verde é uma nação possuidora de uma rica, complexa e aliciante História digna de figurar nos anais da narrativa hodierna de África e, quiçá, do mundo. Quem souber mais sobre ela (História) que conte melhor sobre este Cabo Verde que, convenhamos, vai deixando de ser verde para ser cada vez mais “maduro” no contexto da Lusofonia e das Nações. Que conte à vontade e, se possível, ao som dolente de uma morna ou ao ritmo eletrizante de uma coladeira, pois nesta sexta-feira, 5 de Julho, é Dia de Cabo Verde; dia de festa, festa do “Povo Crioulo”.

São passados 44 anos desde que na sua qualidade de primeiro presidente da Assembleia Nacional Popular (ANP), Abílio Duarte, numa improvisada tribuna de honra, proclamava, com o simbolismo que impunha a circunstância, no estádio da Várzea (cidade da Praia), a independência da Nação e do Estado cabo-verdiano. O Sol estava no zénite. O calor era intenso. As moscas zuniam nos ouvidos dos presentes. Mas a indiferença mandava-as zunirem noutro lugar qualquer que não aquele. O ato que prendia a atenção dos presentes iria mudar as suas vidas de uma vez por todas, por isso zumbido de mosca alguma ou picadela de mosquito algum os faria tirar os olhos ou desviar a atenção do homem de óculos escuros, vestido de uma balalaika e calça boca de sino (e outros que se encontravam na tribuna) que iria anunciar algo que daí para a frente mudaria para sempre as suas vidas: Abílio Duarte.

O calendário gregoriano assinalava 5 de julho. Corria, de forma inexorável, o ano de 1975. Quase que não se sentia a leve aragem que passava quando no estádio da Várzea, apinhado de cabo-verdianos, políticos convidados, jornalistas e amigos do arquipélago, pediu-se a atenção do povo para ouvir o que diria Abílio Duarte.
O suspense era total. O momento era solene. Os corações palpitavam. Houve quem chorasse de alegria. Houve quem esfregasse os dedos por nervosismo. Houve quem se apoiasse e trocasse olhares inquietos com os companheiros de jornada e de circunstância. Houve pais que colocaram os filhos aos ombros para que estes também pudessem testemunhar o momento. Até mulheres com aventais tinham abandonado os afazeres de casa para não perderem a ocasião.

Este era o cenário do memorável “5 de Julho de 1975” no estado da Várzea, cidade da Praia, Cabo Verde. Neste dia tudo era possível e aceite. Tudo era válido neste dia ou não ouviriam o anúncio que daria conta do dia em que veriam o hastear da nação que nasceria no seio do Atlântico Médio. Era, afinal, o Dia da Liberdade. Prova disso é que a bandeira das cinco quinas era arreada para dar lugar ao estandarte que representava o desafogo dos cabo-verdianos.

Legado Colonial

A insígnia da liberdade cabo-verdiana era de cor amarela, verde e vermelha e tinha como símbolos uma concha, espigas de milho, uma estrela negra, uma roda dentada, um livro e, na parte superior, uma picareta que mais tarde a direcção do PAICV decidiu retirar.

A concha significava a vocação marítima do cabo-verdiano. As espigas de milho simbolizavam a base alimentar de Cabo Verde. A estrela negra representava o continente africano. A roda dentada e o livro exprimiam o desejo de progresso e estudo. Sob estas divisas já desfraldadas e a dançarem sob o vento da liberdade, Cabo Verde ascendeu à independência com uma população estimada em 28 mil habitantes e uma economia literalmente arruinada.

A atestar estava o setor da indústria cabo-verdiana se resumia a três padarias (obsoletas), uma fábrica de tabacos e duas unidades falidas localizadas nas ilhas de São Vicente e de Boavista.
Demográfica, social e economicamente, as ilhas de Cabo Verde estavam de rastos fruto do colonialismo atroz que acabava ouvir o seu “canto do cisne”. Contudo, os portugueses quando arrearam a sua bandeira e meteram-na debaixo do braço com destino à Metrópole deixaram uma pequena herança. O espólio colonialista para a nação e o Estado cabo-verdiano traduzia-se em mais de 70 por cento da população analfabeta, pobreza, miséria crónicas, USD 200 de Produto Interno Bruto (PIB) per capita, seis médicos, dois liceus, pouco mais de duas dúzias de estabelecimentos de instrução primária, um tesouro público exaurido e tecnicamente falido.

“As ilhas dos Sacerdotes”

O clima seco, quente, natureza agreste, entre outros fatores, tornou dura a vida dos cabo-verdianos, o que os obrigou a emigrar desde muito cedo para distintos pontos do mundo (Angola, Senegal Europa, Américas e Ásia). Este fenómeno levou a que as ilhas de Cabo-Verde ficassem quase despovoadas.

O despovoamento de Cabo Verde levou a que elas passassem a ser conhecidas igualmente como “Ilhas dos Sacerdotes” pelo facto de os padres – apesar de o Vaticano não ver com bons olhos – constituírem famílias e deixarem descendentes. O padre Nicolau (Cidade Velha), por exemplo, levou ao extremo o mandamento divino “crescei e multiplicai-vos”, tendo contribuído com 54 filhos para o povoamento das 10 ilhas que compõem o Estado cabo-verdiano.

Abílio Duarte e Aristides Pereira, verbis gratia, são filhos de um padre e Dulce Almada Duarte neta de um cónego. Amílcar Cabral, o “arquiteto das nações cabo-verdiana e guineense, era neto de um sacerdote. A recomendação “Crescei e Multiplicai-vos” continua a atual e a ser cumprido à risca. Hoje em Cabo Verde ainda é possível encontrar uma rapariga com 19 anos sem instrução escolar nenhuma ou condições de qualquer tipo, mas com quatro ou cinco filhos sob sua responsabilidade, enquanto que os jovens com idades situadas entre os 25 e 30 anos dão-se ao luxo de dizer que cada cabo-verdiano pode ter quantas raparigas quiser e o número de mulheres que desejar.

Jorge Eurico

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