Onda de Calor

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Mesmo que eu morra o poema encontrará 

Uma praia onde quebrar as suas ondas. 

Sophia de Mello Breyner 

Cresci com duas estações – a das chuvas e a do cacimbo – que não constavam das quatro aprendidas no programa escolar e papagueadas em redações memorizadas, sem qualquer correspondência à minha realidade. 

A estação das chuvas, apesar do nome, era a mais quente e todos nos habituámos a conviver com as altas temperaturas e um sol abrasador que cedo se punha, porque África não permite que os dias se alonguem. Os alertas não existiam, nem tinham cores, porque sabíamos intuitivamente lidar com as forças da natureza, numa convivência pacífica e natural. 

Vivi sempre na orla litoral, onde a brisa fresca do mar substituía as ventoinhas, quando à tardinha se abriam as janelas voltadas a poente. Os aparelhos de ar condicionado eram raros e ainda privilégio de meia dúzia de famílias da alta burguesia. A pé ou de bicicleta, andava à torreira do sol, sem creme hidratante nem protetor solar, ganhando, em troca da minha ousadia, a cor tisnada que se mantinha o ano inteiro. 

Depois, vim para Portugal. Por força de algumas circunstâncias, vi-me a viver no interior – perto do Tejo, mas longe do mar aonde ele vai desaguar. Sendo metade da minha alma feita de maresia, à semelhança do poema de Sophia de Mello Breyner, pensei que não conseguiria viver sem mar, mas habituei-me, banhando-me nas minhas memórias, de cada vez que lhe sentia a falta. Quando ia de visita aos meus pais, no interior norte beirão, percebia que o calor português poderia ser tão ou mais abrasador do que o africano em que vivera. O mesmo se passava no Ribatejo, onde então morava. Durante algumas semanas, noites tórridas – em que nem uma leve aragem corria – faziam parte do nosso quotidiano. Havia gente sentada na soleira das portas até tarde, e vezes houve em que os meus filhos pegaram em colchões tripartidos de campismo e buscaram o fresco da relva do quintal para passarem a noite. 

Vivíamos ainda no Portugal de dois canais de televisão, que transmitiam programação até à meia-noite, e encerravam ao toque do Hino Nacional. Nessa época, as pessoas viviam familiarizadas com os rigores dos invernos e dos verões, deles se defendendo com a mesma sabedoria dos almanaques com que os seus antepassados atravessaram o tempo: agasalhos no inverno, sombra e água fresca no verão. 

Hoje, temos diversos canais de televisão a debitar estatísticas sérias, conselhos a roçar o infantil, alertas coloridos – de que o vermelho é, de todos, o mais perigoso -, como se o nosso corpo tivesse ficado, repentinamente, desprovido de hipotálamo e não desse pela subida e descida das temperaturas. Quando os locutores (de inverno ou de verão) partem em busca do país real, como agora se diz, e desatam a entrevistar residentes, são desconcertantes as respostas que estes dão. Não se queixam de nada! Mais grau menos grau, tudo é normal para eles. Afinal, sempre viveram assim e sempre souberam adaptar-se às mudanças climáticas, sem necessidade dos excessos de certos avisos. 

É certo que, depois das inúmeras perdas de vidas nos incêndios do ano passado e da recente tragédia na Grécia, o país terá de estar mais atento a estas vagas de calor que se fazem sentir por todo o lado. No entanto, admitamos que toca as raias do exagero a insistência com que determinadas imagens repetitivamente passam. A banalização das chamas pode gerar a indiferença e não ter um efeito pedagógico. 

Como no poema, esta onda de calor há-de passar e encontrar uma praia onde afogar a sua fúria. 

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