As contas de Doug Ford estão feitas mas os cifrões parecem mal posicionados

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Humberta Araujo

Para quem não tem proficiência em matemática, em contas e orçamentos, impostos e descontos, mas que sabe bem a diferença, que uns patacos a mais na algibeira fazem ao fim do mês, tudo o que tem a ver com salários e ganhos fiscais, interessam-me.
Porque tal problemática me preocupa e, porque, como disse, não sou perita em questões relacionadas com impostos e retornos, o melhor que faço é recorrer a peritos, e a órgãos de comunicação social fidedignos.

Nesta ordem de ideias, normal seria que a minha atenção fosse catapultada para um artigo da CBC, do passado dia 18 de Abril, que dizia o seguinte: “How Doug Ford’s pledge of ‘zero income tax’ leaves minimum wage earners worse off”, o que em plena língua portuguesa significa que, a promessa de isenção de imposto de Doug Ford, em troca do aumento no salário mínimo para 15 dólares em 2019, vai deixar as algibeiras dos trabalhadores, mais leves.
O líder do Partido Conservador do Ontário, Doug Ford está a prometer aos trabalhadores, que ganham o ordenado mínimo, uma isenção de taxas, sobre os seus salários. Todavia, esta promessa, segundo os especialistas, não trará qualquer resultado prático. Na realidade, com esta isenção de imposto, o montante poupado vai ser inferior, quando comparado com o dinheiro que as pessoas pouparão com o salário mínimo, de 15 dólares a hora. A grande promessa desta campanha eleitoral de Ford, é um incentivo nos impostos, o chamado o “income tax credit”, o qual permitiria, a uma pessoa, que trabalhe a tempo inteiro a $ 14 por hora, receba um retorno nos seus impostos de $800.

Todavia, o que Doug Ford não explicou nesta promessa eleitoral, é que o mesmo trabalhador, recebendo 15 dólares à hora em 2019, ganharia praticamente o dobro, do que pouparia com o “income tax credit” de Ford, que prometeu não aumentar o ordenado mínimo para 15 dólares em 2019.
Tendo em conta o ordenado atual de 14 dólares, um trabalhador a tempo inteiro, terá um rendimento anual antes do impostos de $29,120. Este mesmo trabalhador, vai pagar $859 dólares de imposto sobre os seus rendimentos, montante máximo de crédito, que Ford promete no seu plano para a classe trabalhadora.
Seguindo o plano Liberal/NDP, que vai aumentar em $1 dólar o ordenado em 2019, o mesmo trabalhador vai ver um aumento no seu rendimento anual de $2,080, antes de impostos. Subtraídos os impostos federais e provinciais, descontos para a pensão, e seguros, o mesmo trabalhador vai ainda conseguir levar para casa mais $1,553.
Como disse no início deste trabalho, as contas não são minhas, mas sim de uma economista reconhecida e independente citada pela CBC News, Sheila Block, do “Canadian Centre for Policy Alternatives.”

Segundo esta economista, “o trabalhador vai ganhar mais com o aumento do ordenado mínimo em 2019, do que com o crédito no imposto sobre o rendimento.”
A proporção de ganhos é ainda mais significativa para aqueles e aquelas que trabalham a tempo parcial. Para quem trabalhe 25 horas por semana, o plano Ford permite um ganho nos impostos de cerca de $396 dólares por ano, enquanto que a ganhar $15 dólares a hora, o trabalhador leva para casa cerca de $970 por ano.
A presidente do NDP Andrea Horwath, o partido que apresentou e mais lutou pelo aumento do salário mínimo deixou uma questão a Doug Ford: “Porque razão o líder do PC Doug Ford, pretende roubar dos trabalhadores que são os mais mal pagos da província? Ao retirar-lhes um aumento no ordenado mínimo, em troca de um crédito nos impostos, o que ele está realmente a fazer, é um roubo.”

O Toronto Star é de opinião semelhante. “Uma política, que permita um alívio no peso fiscal dos trabalhadores que ganham o salário mínimo, é uma decisão que tarda, mas não pode servir de desculpa, para uma má política salarial”.
Para Heather Bone, do Toronto Star, “o diabo está nos pormenores”, desta promessa eleitoral de Doug Ford.
A retórica alarmante que surgiu na sequência do aumento do salário mínimo foi, de acordo com proeminentes economistas bancários, resultante de uma deficiente interpretação dos fatores básicos desta política.

De acordo com Brian DePratto, economista do TD Bank, “as pessoas tem tendência em centrar a sua atenção em notícias de primeira página contrafactuais. Com este aumento, estamos a falar de uma minúscula parcela do mercado de trabalho, que vai ser afetado.”
Um estudo recente do Banco do Canadá, dizia que os aumentos em nove das províncias, iria resultar em 60,000 desempregados, “o equivalente a 0.3 % de perca global no número de horas de trabalho, um número significativo se visto isolado da tendência geral de emprego na economia do Canadá, especialmente nos últimos tempos,” referiu este economista.

Para Brett House, economista chefe do Scotiabank, “o relatório do Banco do Canadá foi mal noticiado pelos órgãos de comunicação social. As notícias deveriam ter-se referido a um efeito macroeconómico com possível margem de erro. Estes aumentos, vão sim ter um efeito insignificante na macroeconomia, e um efeito muito positivo sobre os trabalhadores que ganham o salário mínimo,” disse House.
Em resumo, o facto de uma família que ganhe o ordenado mínimo possa, a partir de agora, levar os filhos/as ao cinema, jantar fora, e praticar desportos, quando antes não o podia fazer, é mais importante e positivo para a economia do Ontário, pois possibilita a criação de novos empregos, do que empresas, como Tim Hortons, que têm enriquecido à custa dos mais pobres, perderem dinheiro ou fecharem algumas portas. Outras se se irão abrir para os trabalhadores afetados.

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