“Vivemos num país democrático e não podemos mudar as regras a meio do jogo” 

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“Vivemos num país democrático e não podemos mudar as regras a meio do jogo”  

 Ana Bailão

Doug Ford anunciou recentemente que quer reduzir o número de vereadores municipais de 47 para 25. Grande parte dos vereadores questiona o timing da medida que segundo o Premier vai entrar em vigor já nas próximas eleições municipais de 22 de outubro.

Os vereadores defendem os residentes devem ser consultados e aprovaram ainda uma moção para se reunir com um advogado que irá avaliar a legalidade da medida. A propósito desta redução, que está a abalar a Silly Season em Toronto, o Milénio Stadium entrevistou esta semana a luso-canadiana Ana Bailão, vice-presidente da Câmara Municipal de Toronto e vereadora do bairro 18, o bairro que concentra o maior número de portugueses e de luso-descendentes no Canadá.

 

MS: Como é que correu a reunião de segunda-feira?

 

Ana Bailão (AB): Tivemos uma votação e passámos uma mensagem forte da Assembleia Municipal. Quero sublinhar que a maioria dos vereadores que votaram disseram que até concordavam em ter 25 vereadores no City Hall, o problema é a altura em que está a ser feito. Já íamos entrar na segunda etapa das eleições que é quando termina o período das nomeações. A maioria dos vereadores defende que nesta altura cria caos.

 

MS: Concorda com esta redução?

 

AB: Acho que a governação na cidade de Toronto precisava de uma renovação. Acredito até que possa ser feita mais efetivamente. A própria relação com a província, por exemplo. Para colocarmos câmaras de luz vermelha quando as pessoas não param nos semáforos, temos que pedir autorização à província. São coisas que já estão ultrapassadas e que afetam a eficiência do poder municipal. Há 100 anos tínhamos 100 ou 200 mil habitantes, hoje somos 2,8 milhões. Há muitas coisas que têm que ser mudadas, não é só o número de vereadores. Eu por exemplo sempre defendi o limite de mandatos. Estas possibilidades deveriam ter sido discutidas com a província. Quando o Premier diz que é preciso mudar, eu também concordo, fazer isso no meio das eleições é que causa alguns problemas. Vivemos num país democrático e não podemos mudar as regras a meio do jogo.

 

“As pessoas pensam que a Câmara tem muita autonomia, mas não é bem assim. Esta burocracia cria ineficiência e desperdício de tempo”

 

 

MS: Que outras mudanças é que têm de ser feitas?

 

AB: Na minha opinião, deveríamos ter consultado a província com assuntos mais diversificados do que apenas 47 ou 25 vereadores. A nossa relação com a província tem que mudar.  Não faz sentido termos de ir à província para proibir as vendas porta a porta e não podermos fazer isso sozinhos. As pessoas pensam que a Câmara tem muita autonomia, mas não é bem assim. Esta burocracia cria ineficiência e desperdício de tempo.

 

“Alguns especialistas defendem que a cidade já deveria ter dois tipos de vereadores – os locais e os gerais”

 

MS: O assunto deveria ter ido a consulta pública?

 

AB: Quando foi a amalgamação da cidade em 1998 houve um referendo, embora o Premier na altura não divulgasse o resultado do referendo. Penso que neste caso o referendo poderia ter sido uma das vias de consulta, não digo que a única. No fundo vamos ter 25 vereadores que vão acabar por ter mais pessoas a trabalhar para eles. O trabalho de um vereador é diferente de um MP. Imagine quantas escolas, quantos hospitais, quantas ruas é que um vereador tem na sua área. Não sei se irá reduzir a burocracia, serão menos pessoas a discutirem os assuntos na cidade. Em vez de termos 47 opiniões vamos passar a ter 25. Acho que eram necessárias mais remodelações. Alguns especialistas defendem que a cidade já deveria ter dois tipos de vereadores – os locais e os gerais. Será que esta seria uma boa opção. Nós não tivemos oportunidade de ter essa discussão com a província. Penso que isto também podia influenciar a rapidez com que as decisões são tomadas na província.

 

“Acho que esta redução de vereadores não vai acelerar as decisões, acho que vai ser ela por ela”

 

MS: A redução vai agilizar a tomada de decisões no City Hall?

 

AB: Ainda não temos a certeza se o número de trabalhadores dos vereadores vai aumentar, mas é provável que aconteça. Acho que há um consenso coletivo de que a governação tem de mudar na cidade. As pessoas não concordam é com a forma como foi feita e com o timing. Acho que esta redução de vereadores não vai acelerar as decisões, acho que vai ser ela por ela. Outra questão são os as direções, as agências e as comissões.  Por lei temos de ter vereadores nestes organismos.  Será que isto também tem de mudar?

 

“Moro na minha área e quando as pessoas me vêem na rua param para expor problemas. Os residentes batem à minha porta de casa, do meu escritório comunitário e no City Hall. Acho que as pessoas querem poder continuar a ter isso (…)”

 

 

MS: Até aqui existia uma relação próxima entre poder local e residentes. Acha que se vai manter?

 

AB: Acho que esta relação é muito importante. As pessoas esperam poder ter acesso direto ao seu vereador. Moro na minha área e quando as pessoas me vêem na rua param para expor problemas. Os residentes batem à minha porta de casa, do meu escritório comunitário e no City Hall. Acho que as pessoas querem poder continuar a ter isso e a ter um envolvimento direto nos assuntos da sua área. Temos muitas associações de moradores, de comerciantes e de parques que querem continuar a ter uma relação direta com o seu vereador. Se eliminarmos esta relação direta enfraquecemos a democracia.

 

MS: Quais são as principais reclamações dos residentes?

 

AB: No trânsito as pessoas queixam-se da velocidade dos carros em algumas ruas, de falta de semáforos, de ruas que precisam de ser melhoradas, de problemas na obtenção da autorização para estacionar. Depois há outros assuntos, a falta de vagas em creches e em centros comunitários, impostos de rua para comerciantes nos festivais de verão, etc.

Temos também as nossas ações proactivas, ajudamos centenas de idosos para terem o aumento dos seus impostos cancelados, o aumento da conta da água cancelado, ajudamos os idosos a terem a neve limpa à frente das suas casas.

Na área do Junction Triangle as pessoas estavam preocupadas com a velocidade dos carros junto à escola e com a inexistência de um pick up. Conseguimos criar um plano de trânsito para esta área e para a vizinhança. Introduzimos lombas, semáforos, stops, pick up and drop off perto da escola…Graças a esta relação direta, trabalhamos com os moradores e conseguimos melhorias significativas para o Junction Triangle.

 

MS: Que balanço é que faz destas semanas de governação do novo Premier?

 

AB: Ele está a atuar rapidamente e está a implementar o seu plano. Em relação à Câmara Municipal de Toronto acho que ninguém estava à espera, apesar de ele ter prometido cortes. Não compreendemos porque é que em relação aos regional chairs ele disse vamos fazer uma pausa e vamos rever. Penso que ele podia ter feito o mesmo em Toronto.

 

MS: Uma mensagem para a comunidade portuguesa que possa estar mais preocupada com esta nova medida.

 

AB: As pessoas têm que pensar na importância do seu voto. As eleições vão acontecer a 22 de outubro e as pessoas têm de votar. Ao fim do dia, independentemente de serem 25 ou 47, o importante é terem uma pessoa que esteja empenhada no melhoramento da sua área e da cidade em geral.

Source:Joana Leal/MS
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