“Ministro da Imigração Ahmed Hussein é um troca-tintas”

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“Ministro da Imigração Ahmed Hussein é um troca-tintas”
A acusação é do Comité dos Trabalhadores Indocumentados (UWC)

Joana Leal

O Comité dos Trabalhadores Indocumentados (UWC) acusa o governo liberal de não cumprir as suas promessas. Comité garante que projeto piloto existe e que agora o governo está a dar o dito por não dito.
Num comunicado enviado ao Milénio Stadium esta semana, Peter Fonseca, MPP de Mississauga, diz que o projeto piloto não existe. “Posso confirmar que até agora não existe nenhum projeto piloto ativo. Não recebi nenhuma aplicação”, esclarece.
António Letra, um dos fundadores do Comité, garante que “o projeto existe” e que “os políticos são como os black beans, têm duas caras. O Sr. Ministro da Imigração é um troca-tintas, enviou-nos uma carta em fevereiro a dizer que não havia projeto piloto”. O Comité dos Indocumentados (UWC) foi fundado em 2014 e são cinco os nomes que constituem o núcleo duro do organismo. Antónia Letra, Manuel Alexandre, Joe Pimentel, Paulo Vicente e Bento San José.
Manuel Alexandre, outro dos fundadores, assegurou ao Milénio Stadium que o Comité manteve várias reuniões nos últimos anos acerca do projeto piloto. “Nós tivemos várias reuniões com MP’s, com o Ministro da Imigração Federal, o Sr. Ahmed Hussen e o Sr. Peter Fonseca, inclusive. E nós temos um ficheiro áudio que prova que o projeto piloto foi discutido nessas reuniões. Temos cópias de que o Richard Boraks enviou várias aplicações para o escritório do Peter Fonseca”, avança.
Richard Boraks é o consultor de imigração da UWC. “A nossa Associação não recebe nenhuma verba para dar seguimento aos processos. Os indocumentados que assim o entendem fazem a sua aplicação através do Boraks. Nós conhecemo-nos há anos, ele foi muito importante na altura do pós- 25 de abril de 1974. Mais de 3 mil portugueses tiveram que abandonar as ex-colónias e vieram para o Canadá. E aconteceu o mesmo com o terramoto de 1980 que atingiu a ilha Terceira nos Açores. O Boraks ajudou-nos muito a custo zero”, explica.
Alexandre não aceita as declarações do MP de Mississauga. “O Peter Fonseca prometeu ajudar-nos, era uma espécie de herói para nós, estamos muito desapontados e ofendidos com as suas declarações. E a Julie Dzerowicz, MP de Davenport, também mentiu quando disse a um jornal português que não há nenhum projeto piloto”, afirma.
Segundo a UWC, o projeto piloto iria legalizar cerca de 1000 pessoas numa primeira fase. Nas reuniões estiveram presentes vários líderes de peso da comunidade. “Lembro-me que numa dessas reuniões estava um líder sindical que disse que todos os dias vinham ao seu escritório indocumentados que choravam e que pediam ajuda para regularizar o seu estatuto no país. Mas há outros casos. Um proprietário de um restaurante que diz que não consegue contratar um chef português para o seu espaço. Um proprietário de um media português que garante não conseguir contratar jornalistas com um bom nível de português”, adianta.
António Letra exige que o governo trave as deportações. “Nós vamos continuar a pressionar o governo, temos que parar as deportações. Todos os dias vários portugueses são deportados. Falamos de pessoas que geraram riqueza e postos de trabalho para a economia do país. São pessoas com registo criminal limpo e que vivem há mais de dois anos no Canadá”, justifica.
Letra vai mais longe e diz que a exigência de um nível elevado de inglês para obter a residência permanente no Canadá não faz sentido. “É uma patetice, para ter sucesso no Canadá não é obrigatório falar e escrever bom inglês. Senão porque é que centenas de canadianos vivem à custa da segurança social se a grande maioria é fluente em inglês?”, aponta.
Letra não acredita numa nova amnistia. “Acho que um novo perdão coletivo não seria justo. Mas os critérios de seleção deveriam ser revistos. Estas pessoas querem trabalhar, alguns têm casa e carro, têm bens patrimoniais e querem viver no Canadá”, adverte.
Lídia Dinis tem 33 anos e é um dos rostos dos indocumentados. “Não gosto de dizer que estou ilegal porque não vivo escondida. Estou há dez anos no Canadá e desde o início que tentei obter um estatuto. Apesar de não ter nascido cá gosto muito deste país e já sou mais canadiana do que portuguesa”, refere.
Lídia Dinis está a fazer a aplicação através de Richard Boraks. “Já ouvi de tudo acerca dele mas até aqui não posso criticá-lo. Nunca nos prometeu nada, disse apenas que existia um projeto piloto. Não tenho nenhuma cópia do meu processo, até porque nunca pedi”, diz.
Já gastou cerca de 12 mil dólares em honorários com o consultor e garante que já lhe pediram mais. “Informei-me com vários advogados e consultores antes de procurar o Boraks e alguns até me pediram mais. Tenho amigos que ficaram legais com ele”, refere.
Na opinião de Lídia, os critérios para obter a residência permanente não fazem sentido. “Acho que a pessoa é que deveria decidir se o inglês é ou não suficiente para viver cá. No meu caso eu falo e escrevo inglês mas o meu marido não. No entanto ele paga impostos. Mas também garanto que com o inglês que aprendemos nas escolas que o governo paga não vamos longe”, sublinha.
Lídia Dinis vive diariamente com medo. “Tenho medo de ser deportada porque iria perder um trabalho que adoro [Personal Support Worker (PSW)]. Tenho medo de não conseguir encontrar em Portugal cuidados médicos para o meu filho que tem uma doença crónica, lá nem saberia por onde começar,” explica.
O Comité dos Trabalhadores Indocumentados lamenta que o governo português não se tenha envolvido nestas negociações. “Não fizeram absolutamente nada. Não sei se não podem ou se não querem. Quando o António Costa vier cá vamos tentar abordar o assunto”, diz António Letra.
Letra ataca a classe política e diz que alguns políticos deveriam pagar jantares nos clubes portugueses. “A Julie Dzerowicz é uma oportunista. Estava envolvida na imigração e agora saiu. Que outra leitura é que isto pode ter? Eles representam a área de Davenport, deveriam dar o litro para defender os interesses dos portugueses. Alguns deveriam pagar jantares nos nossos clubes porque só lá vão para se promoverem”, avança.
O Milénio Stadium tentou obter uma reação do Ministro da Imigração Federal, Ahmed Hussen mas até ao fecho desta edição não tivemos resposta.

 

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