Luso-canadiano dá cartas em Silicon Valley

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Andrew Arruda é luso-canadiano e aos 28 anos já faz parte do Top 30 da Forbes.  Arruda foi considerado um dos jovens mais inovadores do mundo, pela conceituada revista norte-americana e em 2015, com a ajuda de colegas da Universidade de Toronto, Arruda criou a ROSS Intelligence, uma start up que aproveita o poder da inteligência artificial para tornar o processo de pesquisa na área do direito mais eficiente.

Andrew tem escritórios em Silicon Valley e em Toronto e em entrevista ao Milénio Stadium, garante que quer expandir a empresa para a Europa.

 Qual é a sua opinião sobre a comunidade portuguesa que reside no Canadá?

 O meu avô pescava bacalhau em algumas das áreas mais agitadas e perigosas do mundo. Ele tinha que sustentar a família que vivia a milhares de quilómetros em São Miguel, nos Açores. Um dia eles decidiram procurar uma vida melhor e acabaram por imigrar para Toronto, o nosso lar adotivo. A comunidade portuguesa que vive no Canadá foi construída por homens e mulheres como o meu avô, pessoas que estavam dispostas a parar no nada para proporcionar um futuro mais promissor às suas famílias. Hoje podemos encontrar traços da nossa dedicação, disciplina e espírito comunitário nos bairros a que as nossas comunidades chamam de lar, em todas as cidades, de costa a costa. Cresci e trabalhei no Little Portugal em Toronto e devo tudo o que tenho às lições e ao amor que recebi. Considero-me incrivelmente sortudo por ter nascido aqui.

A ROSS Intelligence tem escritórios no Canadá e nos EUA e já assinou contrato com a Dentons, a maior empresa de advogados do mundo. Tencionam expandir para a Europa, talvez Portugal?

Absolutamente, a nossa empresa está a considerar expandir para a Europa e isso inclui também Portugal. Portugal tem uma comunidade de tecnologia incrível e um dos melhores encontros tecnológicos do mundo que ocorre todos os anos em Lisboa – o Web Summit. Neste momento, estamos focados no mercado dos EUA, mas queremos que a nossa tecnologia esteja em todos os países do mundo. Também estamos planeando expandir no Canadá, fiquem atentos porque em breve vamos ter muitos anúncios emocionantes.

Recentemente recebeu uma estrela no Portuguese Canadian Walk of Fame na College Street em Toronto. Tem um significado especial ser reconhecido pela comunidade portuguesa?

Ser nomeado para o Portuguese Canadian Walk of Fame foi uma das maiores homenagens da minha vida, e o que a tornou ainda mais emocionante é que a Calçada da Fama está localizada a apenas alguns quarteirões da área onde fui criado, a Rua Montrose. É um sentimento especial quando a tua comunidade te reconhece, e foi uma sensação maravilhosa estar na Praça de Camões, em Toronto, ao lado dos líderes da nossa comunidade em todo o Canadá.

Qual é a sua ligação a Portugal?

Os meus pais e os meus avós emigraram para o Canadá nas décadas de 1960 e 1970. Os pais da minha mãe chegaram a Toronto no início dos anos 60 e a minha mãe chegou a 12 de junho de 1966 com três anos. O lado do meu pai emigrou nos anos 70 e o meu pai chegou a 13 de novembro de 1973 com 12 anos. A família do meu pai é natural da Ribeira Seca e a da minha mãe é do lindo Rabo de Peixe.

Já visitou São Miguel?

Já estive em São Miguel muitas vezes e há pouco tempo participei numa romaria. Tive a oportunidade de conhecer a ilha a pé e de contactar com as pessoas, com a cultura e com a comida que é incrível. As ilhas vão ser sempre uma parte importante da minha vida, os Açores estão no meu sangue e mal posso esperar pelo dia em que vou poder fazer uma viagem com os meus pais, a minha irmã, a minha noiva e eventualmente, os nossos filhos.

O Governo dos Açores está a encorajar os imigrantes a investirem na região.

Adoro essa ideia. A minha noiva é americana e ela acha que os Açores são um dos lugares mais bonitos do mundo. E como é óbvio eu concordo com ela. Acredito que encorajar as pessoas e as gerações que têm os Açores no coração a investir, ainda que tenham crescido noutros locais, é uma ideia maravilhosa.  É também um grande exemplo da generosidade das pessoas que imigraram para o Canadá e que ajudaram o país de onde vieram a enriquecer.

Alguma vez imaginou que ia ter um escritório em Silicon Valley?

Sempre quis fazer algo muito grande, mas nunca pensei que encontraria o meu caminho na tecnologia. Silicon Valley é um grande lugar porque baseia-se na meritocracia, ou seja, tudo se resume a trabalho duro, estratégia e àquilo que fazes. Em Silicon Valley não interessa qual é a tua aparência, o teu sobrenome ou onde os teus avós nasceram, e é assim que deve ser.

Que conselhos é que dá aos jovens?

O meu conselho é que nunca parem de perguntar porquê. Muitas vezes pensamos que temos que trabalhar em certos trabalhos, seguir certos caminhos da vida ou apenas ouvir os nossos pais ou professores quando se trata do que devemos fazer com as nossas vidas. Encontrem algo que vos apaixone e vão atrás disso, porque assim nunca terão que trabalhar outro dia nas vossas vidas. Em poucas palavras, não tenham medo de perguntar porquê e façam o que amam.

O primeiro-ministro de Portugal visitou o Canadá em maio. Imagina os dois países a trabalharem juntos?

Antes de fundar a minha empresa tive o incrível privilégio de trabalhar na Embaixada do Canadá em Lisboa e posso dizer que a relação entre os dois países é algo verdadeiramente especial. Como duas nações diferentes, os canadianos e os portugueses partilham grandes valores como a honestidade, a abertura, a inclusão e a valorização do trabalho árduo. Isto torna-nos parceiros naturais e reflete-se no ótimo relacionamento político que temos. Acho que esta relação vai continuar quando a minha geração, de canadianos orgulhosamente portugueses, ocupar o nosso lugar como políticos, professores, empresários e artistas no Canadá. Acredito que vamos continuar a prosperidade desta nação e ao fazê-lo vamos fortalecer e honrar as nossas relações com a nossa pátria ancestral.

O presidente da República de Portugal visitou recentemente os USA.

É ótimo ver isto a acontecer, especialmente como a economia portuguesa continua cada vez mais forte porque os Estados Unidos são um importante aliado económico para nós. O mundo muitas vezes esquece que a população de Portugal é de apenas 10 milhões de pessoas, devido ao enorme impacto que tivemos na história mundial e na cultura moderna. Quero dizer, todos sabem que o melhor jogador de futebol do mundo é português, mas também somos os melhores do mundo em muitas áreas diferentes e é ótimo ver o presidente de Portugal no cenário internacional a promover todos os aspetos surpreendentes de Portugal.

Source:Joana Leal/MS
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